No mercado de Belém com guarda-costas

No meu segundo dia de Iquitos fui conhecer as comunidades indígenas “pra turista”. Fui com um motorista de motocarro, que havia conhecido guiando dois alemães em Quistococha e que havia sido recomendado. Em primeiro lugar fomos a agência de turismo onde fui comprar meu bilhete de volta para o Brasil. Lá, sobre um grande mapa ele começou a dizer… “conheço Brasília, conheço Manaus, conheço Belém, conheço Fortaleza, conheço São Paulo, conheço Campo Grande, conheço o Rio…” Logo concluí que ele tinha sido hippie ou era um grande mentiroso. Como não tinha cara de hippie e estava mais para aprendiz de rambo, nem liguei muito. Depois, quando conversamos mais ele me contou… “vou lhe falar a verdade. Do Brasil só conheço bem o Rio, onde fiquei quatro dias”. E perguntei… “e os outros lugares”. Ele me respondeu “só ficava um dia”. E eu perguntei… “porque tão rápido?” e ele respondeu…. “fui a trabalho”… e silêncio. Não perguntei mais, mas quando voltamos ao assunto das viagens ele me contou. “Eu conheci o Brasil porque era “guarda-espalda” (guarda-costas) de um chefão colombiano. Assim chegávamos, fechávamos os “negócios” e já viajávamos de novo. Conheço o Brasil, a Argentina, Bolívia, Chile…”. Bem, não precisa dizer que não perguntei mais nada e comecei até a ficar preocupado. O alívio só veio quando ele disse. “Larguei isso porque resolvi que queria uma família, e não queria levar um tiro”. Com esta segurança toda, fomos nós passear em Belém.
Belém é uma mistura de Rua da Alfândega, no Centro do Rio, com mercadão municipal e com camelódromo. É sensacional. Em ruas estreitas demarcadas somente pelas barraquinhas se amontoam vendedores de tudo. E tudo eu encontrei por lá: brinquedos chineses, utilidades para o lar e para tudo, garrafadas, peixes de todos os tamanhos e formas, peixes para aquários, periquitos, tartarugas retalhadas em pedaços, tartarugas vivas de cabeça para baixo esperando a morte ou o comprador, o que chegar primeiro, tartarugas embaladas em alças como uma bolsa, pronta para a viagem, galos de briga, pintos, camisetas, sapatos, bananas, mangas, ingás, aguajes, sucos de pêssego, aguajina, chicha morada, coco, pimentas de cheiro, pimentas de gosto, pimentas de cores, de todas as cores. Havia uma ala inteira com roupas e sapatos reformados, mas usados. E tudo isso em meio a um vai-pra-lá, vem-pra-cá de cheiros, empurrões, crianças correndo por baixo de nossa cintura, cachorros andando na contra-mão em busca de um resto qualquer, pessoas comendo naquele caos, crianças brincando, vendedores anunciando. Uma linda loucura.
Belém é o bairro pobre, conhecido como “cidade flutuante”. Isto porque todas as casas se situam em duas zonas. Zona alta, onde todas as casas tem dois andares e zona baixa, onde todas as casas são flutuantes. Na seca, como estávamos, havia uma boa distinção entre estes dois mundos, o da pobreza e o da pobreza absoluta. Na cheia os flutuantes sobem e as águas cobrem os primeiros andares das casas, lojas, templos, igrejas, e então todos se irmanam no mesmo nível. No nível da água.
Sim, porque o rio é vida lá como é em toda Amazônia. Navegando no rio pelo pequeno trecho do Rio Itaya com meu guia e um barqueiro encontrei as onipresentes mulheres lavando roupas, barcos carregados com bananas, crianças brincando na água e na lama, Impressoes1605 banheiros feitos somente por um cubículo de plástico diretamente no rio e até mesmo uma pocilga de porcos landrazes… aqueles grandes e rosas, que depois encontram seu destino diretamente acima, fatiados no mercado de Belém.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s