Atendimento na Aldeia

Diferente dos muitos amuletos que as crianças usam em Benjamin (botões, alhos, chaves), as daqui, quase todos, usam cruzes presas em fios de nylon. Os bebês de menos de um ano que eu atendi quase todos estavam pretos. Aliás, eles, as mães e os irmãos pequenos, todos pintados de jenipapo. Então ficavam verdadeiros bonecos de pixe… pele negra de jenipapo, olhos de jabuticaba tão negros que é difícil perceber as pupilas, concorrendo com os cabelos. Durante as consultas, pouco choro, mas também poucos sorrisos. Eles são bem quietinhos, e riam somente quando usava o meu dicionário ticuna, agora ampliado… senta, abre a boca, abre mais, deita, levanta, doi aqui… De todo mundo que atendi, contando os acompanhantes, acho que vi somente um único par de tênis. Todos os demais descalços ou de sandálias. Outra coisa interessante, é que quando pergunto algo que a resposta é sim, ela vem com um simples levantar de sobrancelhas. Se é um sim convicto, levantam bem. Se é um “meio sim” levantam um pouco… Custei um pouco até pegar isto, mas agora já “domino a técnica”.
ia17_itio Olha eu atendendo. “Itió”
As crianças eram bem saudáveis, mas os maiores problemas estão realmente ligados ao saneamento… 63% das crianças apresentava diarréia. Quase 35% apresentava problemas dermatológicos também ligados a dificuldade higiênica. E não é falta de banho, já que eles adoram se banhar e estão sempre com pouca roupa. A dificuldade é ter água de qualidade, mesmo estando na beira do maior rio do mundo. Difícil mundo amazonico que não tem água.
Minha manhã de atendimento foi leve. Mas acho que fez sucesso, pois a tarde tinha criança saindo pelo ladrão… sempre muitas nas janelas, assistindo o atendimento e muitas na porta. Comecei a trabalhar 13h30min, e às 19h30min estava “começando a acabar” de atender a última família. Sim, porque não se atende criança no varejo aqui, mas sempre no atacado, famílias com quatro, cinco, três crianças. Raros foram os atendimentos individuais. Não tinha como ser rápido, pois em 95% dos casos, além de muitas crianças as pessoas não falavam português e eu precisava de uma intérprete. No começo ela ouvia eu falar e então traduzia para a família. No final, já cansada de tantas famílias ela perguntava antes mesmo de eu falar. O mais engraçado é quando eu perguntava algo como: “há quanto tempo está com dor?”. Ela dizia algo como “conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau” . Então a paciente respondia: “conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau” . E eu perguntava… “o que ela disse?” e ouvia como resposta. “ontem” ou ,às vezes, simplesmente “não”.
Já os nomes, que sempre chamaram minha atenção, aqui não eram tão diferentes. Os mais curiosos eram os que tinham como nome sobrenomes ocidentais, talvez trazidos de algum convívio com os militares. Atendi Bastos, Santos e até um Dasilva.

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