Reflexões de um branquelo na chuva

Já estou há algum tempo sem viajar, então vou contar um pouco do meu dia a dia amazônico.
Na verdade vou confessar que às vezes desanimo. Muitos pacientes, enfermagem mal treinada (e no hospital “abusada”), dificuldades de exames. Parece ruim, não? Ainda mais que várias cidades oferecem um salário menor. Só que existem compensações. O programa municipal de saúde infantil foi desenvolvido por mim, e, ainda que aos trancos e barrancos, estamos conseguindo segui-lo. Atendemos de forma diferenciada as crianças especiais, treinamos os agentes de saúde, implantamos o sistema de vigilância nutricional (sisvan) e criamos o Conselho Tutelar. Esta é talvez a minha maior alegria. Desenvolvi o treinamento dos Conselheiros e os cinco são grandes companheiros de luta. O que não consigo fazer “por bem”, estou conseguindo “por mal”. O diretor do hospital já foi notificado duas vezes, a secretaria de educação uma vez e mesmo alguns agentes de saúde. E assim vamos transformando a atenção a criança em nossa cidade.
Um sinal legal do reconhecimento do trabalho foi a festa do Dia da Criança. Fui dar uma olhada e era muito divertido ouvir as crianças … “olha mãe, o meu médico”. Dava boas risadas e ainda tinha tratamento vip, que me deixou até sem graça. Sem entrar nas filas das crianças, eu ganhava picolés, algodão-doce, refrigerantes. A festa foi um grande “panis et circens” com sorteio de brindes, apresentações de grupos da cidade e tudo de graça para as crianças. Até os Ticuna vieram de suas comunidades. Boca livre todo mundo quer.
Os céus nas últimas semanas tem sido bem generosos e muita chuva tem descido. Eu mesmo enchi meus estoques todos de água, o que me permite uma boa economia. No domingo vinha do almoço na casa de amigos, quando a tempestade me pegou. Estava com o computador na mochila e o jeito foi parar, tirar a camisa, enrolar no computador e correr… muito. Cheguei em casa como um pinto molhado, mas com o laptop seco. Já que quem está na chuva é para se molhar, deixei as coisas em casa e fui tomar um banho: de calha, brigando pelo espaço com um monte de meninos. Foi muito divertido. E legal ver nas fotos como sou diferente do povo local: que brancura!
ia18banhodecalha

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