Momokre

Voltando de Gorotire ia passar na aldeia Momokre e sairíamos as seis da manhã. Na véspera da saída o motorista, um índio chamado Tekreruti (literalmente “bunda comprida”) fala conosco:
“Gente, mais de 40 já me pediram carona (são mais de seis horas de estrada se a estrada estiver boa), então é melhor a gente sair mais cedo, tipo ás 4 da manhã”.
Aceitamos o conselho e as quatro já estávamos de pé. Nós e mais uns quinze índios de toda a idade, que já estavam na carroceria do caminhão. Saímos. Saímos? Não, não saímos, pois até a saída da aldeia foi chegando gente. E quando ele avisava que tinha que ir, pois pararíamos para atender no meio do caminho ainda ficavam bravos: “Meu marido está vindo aí!”, ou “Espera que minha mãe está vindo!”… e lá vinha a velha índia, com paneiro carregado de frutas, bolsas, descalça, na escuridão e ninguém, nem o filho, nem ninguém ajudando a carregar nada ou subir no caminhão. Assim, com um pequeno atraso, saímos nós, e os quarenta índios… que se somaram a mais uns dez na outra aldeia, onde cheguei para atender.
No caminho, sinais do descaso e da destruição. Madeireiros agem livremente dentro da reserva indígena, com certeza com aval de alguma liderança, e são muitos os sinais visíveis: clareiras, caminhões carregados de toras, árvores centenárias derrubadas, uma tristeza, vontade de chorar.

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