Personagens – Cacique Kagnonk e a mudança em seu mundo

Nesta aldeia mora o Cacique Kagnonk. Ele é hoje, nesta região, respeitado como o principal dos “caciques velhos”, aqueles que já não tem seu posto, mas mantém a moral e o respeito de todos. Pela identidade são oitenta e três anos, mas a idade não é precisa, pois quando nasceu “não existiam brancos (kuben)”. Seu primeiro contato com um foi “quando era deste tamanho”, me diz fazendo com o braço um gesto que parece indicar uns dez anos de idade. Conversando comento: “E como o mundo mudou, não cacique?” Ele me responde com sua expressão sempre serena de quem parece já ter vivido de tudo: “É doutor… Depois só índio matando kuben e kuben matando índio”.

Comentar o que? Os brancos chegaram “passando o rodo”. Para “amansar” (termo usado na época e hoje ainda em uso pelos mais antigos, junto com o termo “índio brabo”) os mais bravos, dentre eles os aguerridos Kayapó, uma missão foi construída onde hoje é a cidade de Conceição do Araguaia, a margem do majestoso rio que lhe batiza. Segundo o cacique Kagnonk, lá era “terra de índio”, com muitos Kayapó e com Karajás nas praias mais distantes. Nesta época os mebengokré eram divididos em três grupos. Dois optaram por não manter contato com os brancos. Destes um originou os Xikrin e outro os Kaiapó, que se ramificaram em vários pequenos grupos (o famoso Raoni é de um destes grupos, os Txukahamae). O terceiro grande grupo, Irâ’ Ãmranh-re, de cerca de 3000 índios, preferiu o contato pacífico do que se aventurar pelo sertão, fugindo e lutando. Foram extinto pelas doenças de branco e pela “pacificação”. Destino semelhante a inúmeros povos em todo o Brasil.

Onde hoje é a igreja principal de Conceição, antes era a “maior de todas as casas do Guerreiro”, segundo o cacique. Talvez as lembranças de uma distância distante tenham colocado uma lupa de nostalgia e ampliado o tamanho e grandeza desta “casa do guerreiro”, mas esta era a tática da igreja. Desmoralizar, destribalizar, substituindo os valores tradicionais pelo valor cristão. A igreja na casa do guerreiro diz: “nós somos maiores do que você, e viemos substitui-los”. Sem uma base própria, incorporando ideais pervertidos de igualdade, fraternidade a amor – afinal, isso valia apenas para os brancos, mas não para os indígenas, que podiam, e deviam, apenas ceder: suas terras, seus filhos, suas mulheres. Para muitas etnias restou apenas o caminho da marginalização e do preconceito do pior tipo: o auto-preconceito. Auto-estima baixíssima, só hoje recuperada por esforços de antropólogos e indigenistas que reconhecem o valor de sua individualide e os anos de destruição física, material e moram a que os índios do Brasil foram submetidos.

IA352

Guerreiros do futuro. Como será o mundo que vão herdar?

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