Batalha campal Kaiapó. Quem pode atirar a primeira pedra?

Como tenho dito, os Kaiapó não são chegados a uma “negociação”, no sentido que nós entendemos o termo. Apesar disso, da muita gritaria, da gesticulação agressiva, do falar alto, nunca havia presenciado nenhuma cena de violência física maior. Não tinha. Hoje de madrugada presenciei, se não em corpo presente, ao menos visualizando as conseqüências de uma verdadeira batalha campal. Isto dá bem a idéia de que, apesar de, até certo ponto aculturados, sua forma de pensar, compreender e agir é diferente da nossa, e segue uma linha de raciocínio que não pode ser comparada a nossa. Ao menos não a curto e até médio prazo. Não é melhor, nem pior, é diferente.

 

Vamos aos fatos. Está acontecendo uma feira agropecuária em Redenção. Os índios também participam do evento: barraquinhas, música, comida, tudo bem típico das feiras rurais que acontecem em todo o país. Acontece que, “não é de hoje Doutor, vem de outros tempos” a briga entre a família do Kroti e a família do Moikô. E alguém da família do Moikô pegou alguém da família do Kroti durante a feira. Como o rapaz é adolescente, a mãe ficou brava, a avó ficou brava, a tia ficou brava (e a tia é a Tuíra, aquela do facão na cara do engenheiro). Resultado: lá foi uma brigada feminina, verdadeiras amazonas em fúria, munidas de facão, foice, porrete, secundadas pelos guerreiros, maridos e parentes, tomar as dores do rapaz. Na casa dos agressores a defesa se preparou. Conclusão: o sangue e os cabelos se espalharam por toda a rua, um índio perdeu dois dedos, uma mãe de 17 anos foi operada hoje para retirada do que sobrou dos ossos do alto da cabeça, violentamente acertados com uma borduna e quase perdeu a perna decepada com um golpe de foice, outra índia tomou mais de 300 pontos (sim, TREZENTOS, não foi um 30 digitado errado) e a Kokorô, uma velhinha querida de mais de sessenta anos está internada com hemorragia craniana traumática.

 

O que dizer? Como explicar? A violência, dentro da comunidade pode ser aceita? Temos que lembrar que 60 anos atrás não haviam brancos, e assim se resolvia qualquer discussão. Quanto tempo nossa cultura demorou a se habituar com a paz? Habituou mesmo? Não há como atirar a primeira pedra.

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