Morte na Aldeia

Gorotire – Abril 08

Hora do almoço. Quando imaginei que iria descansar dos mais de 40 atendimentos da manhã, escuto o inconfundível choro das mulheres Kayapó. Como não chegou avião nem carro, não é parente chegando – o choro é tanto por tristeza como pela alegria de um reencontro – e logo vem a confirmação de uma morte em Redenção. O choro é cíclico. Horas de silêncio se sucedem a instantes que toda aldeia parece chorar em uníssono.

O morto será velado em sua própria residência, sobre uma manta no chão. Ele é enfeitado com seus adornos de festa: brincos, pulseiras, braceletes e pintado da forma tradicional – a pintura é muito importante e acompanha o Kaiapó em toda sua vida. Os momentos de choro se alternam com os de dança e cânticos em homenagem ao falecido, ao longo da noite e do dia seguinte, até o momento do enterro.Todos os pertences do morto o acompanham: colchão, roupas, utensílios e tudo que tivesse proximidade a ele ou puder lembrar a ele. É comum famílias ficarem sem nada após a morte de alguém importante, sendo que, se a morte ocorrer no domicílio, a casa costuma ficar abandonada. A esposa pinta o falecido, raspa sua cabeça e após o enterro evitará sair em público, só o fazendo em casos extremos, quando falará em voz baixa, quase sussurrando e não usará pintura. O luto só acaba quando seu cabelo cresce novamente e ela pode se pintar.

Por existirem muitos Kayapó cristãos o sincretismo religioso é evidente. Estes influenciam os animistas e vice-versa. O morto não vai para o paraíso, mas pega seus pertences e segue ao encontro de seus parentes e amigos falecidos. Este caminho pode ser longo e o morto pode permanecer próximo e não querer ir sozinho, o que causaria outras mortes por “doença de índio”. Por isso o medo de me karon, isto é, fantasmas, é generalizada. Não se fala do morto para não atrai-lo para perto de si, especialmente se for alguém próximo. Após algum tempo (não consegui descobrir quanto) o pajé, que transita entre o mundo físico e o espiritual, vai a procura do morto para certificar-se que está bem, em companhia de parentes e traz a notícia, tranqüilizando finalmente a família.

Hoje percebi que a morte, assim como a alimentação, sexo e família, também são muito características de cada sociedade. Poucas horas após escrever o texto acima e do enterro, ao final da tarde, percebo que estou atendendo aos filhos do morto. Depois atendo uma mulher que julgava ser uma tia e pergunto o que ela tem. Responde falando sobre gripe e dor no pescoço. Vendo a ficha percebo que é a viúva, que ainda não cortou o cabelo (ela só faria isso ao dia seguinte, junto a sua sogra). Faço a receita e ela se vai com as crianças, como se fosse um dia qualquer.

2 comentários Adicione o seu

  1. Carolzinha disse:

    Amigo Alta!

    Sobre seu post me veio a cabeça a conversa q eu tive com os pais de uma lobinha minha (não sei se t contei nosso curto reencontro, estou trabalhando com a alcatéia) há umas duas semanas.

    A mãe dela é nisei e o pai ocidental. Ocorre q o avô por parte de mãe da lobinha morreu mes passado e sua mãe estava me explicando q a menina nao poderia comparecer a nossa atividade d encerramento por conta da cerimônia de um mes de falecimento.

    Achei curioso…cerimônia d um mes d falemcimento…e agora voce com seu belo relato dos indios…me lembro também da história do óbulo na grécia antiga….

    as formas como é tratada a questao do fim da vida nas diferentes sociedades…isso daria ate mesmo uma boa dissertação de mestrado…

    saudades! um grande beijo

  2. Iúna disse:

    ótimo post! eu pensava que todas as tribos fizessem a cerimônia do mingau, para tomar com as cinzas do morto.

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