Impressões na Brasileiros: Questão indígena, onde a terra é muito mais do que território

Amigos, um pequeno texto meu saiu na seção de cartas da revista Brasileiros. É um texto que fala da situação indígena e que resolvi compartilhar com vocês. Recomendo ainda a Brasileiros, revista de excelente padrão, e a que considero a melhor revista mensal do Brasil. Sempre interessante e inteligente.

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Tenho acompanhado na Brasileiros alguns textos que tratam de forma abrangente e imparcial (como é próprio à Revista) a questão indígena, como o excelente artigo sobre a “briga de foice” entre arrozeiros e indígenas de Roraima, onde vivo há um ano. Na edição 23, li também sobre a questão da segurança alimentar, abordada no inquietante filme Garapa. Proponho agora a junção dos dois temas, pois a insegurança alimentar é realidade para a grande maioria das populações indígenas. As duas questões se encontram no final do texto de Ricardo Kotscho: “… e fico pensando como é difícil ajudar os outros, quando uma família chega a essa situação de miséria, em que a fome não é só de comida, mas a carência de tudo, a absoluta falta de perspectivas. Crianças andando descalças, algumas seminuas, que dormem amontoadas nas três redes da casa ou pelo chão e fazem suas necessidades no mato, caminhando sobre o lixo espalhado pelo quintal, onde dorme um cachorro miúdo e magro de doer”. Pois imaginem que muitos indígenas passam exatamente por essa situação e, em algumas etnias, as crianças menores de cinco anos com baixo peso chegam a mais de 30% da população. E tudo isso somado ao fato de viverem em outro mundo, culturalmente distinto do que vivem os demais brasileiros. E que seu mundo desmorona a seu redor em velocidade assustadora. Seu avô só viu um não indígena no final da infância. Seu pai passou a juventude lutando para deter os invasores de sua terra. Seus filhos, sem caça ou pesca, comem arroz e bolacha; sem identidade, não conseguem ser reconhecidos pela nação que os tutela, sem recursos perambulam pelas cidades vendendo artesanato ou pedindo dinheiro ou comida. Sem dignidade, seus mitos perdem a força de coesão social, seus líderes já não os conduzem e seus pajés não conseguem tratar corpo ou alma. Envolvidos por uma sociedade mais forte, dominadora, esmagadora, a vergonha de ser diferente, de ser quem é, torna-se cada dia mais comum. Em diferentes períodos, este é o drama que viveram ou vivem as diferentes etnias do Brasil. Para eles, que é diferente para nós, a terra não representa riqueza, pois não pertence nunca a um indivíduo. A terra representa sua vida, seus lugares sagrados, sua fonte de alimentação, sua água pura, seu abrigo. Para isso, precisam de espaço onde os animais possam viver, de rios não contaminados e de liberdade para viver do seu jeito, em seu ritmo próprio. Precisam de espaço onde suas vozes se façam ouvir, seus deuses permaneçam fortes e seus corpos alimentados. Afinal, índio sem terra, não deixa de ser índio, mas, com certeza, não é mais índio por inteiro.
Altamiro Vilhena, médico pediatra, trabalhando desde 2005 com povos indígenas, Boa Vista (RR)

4 comentários Adicione o seu

  1. Marcelle disse:

    Parabéns Alta! Vc é incrível!

  2. Vanessa Moreira Haquim disse:

    Compartilho da angústia, Altamiro!
    Ia começar a comentar o seu post com “…muito bom o que escreveu…”
    Mas não é muito bom, é triste! Convivo com essa realidade em São Paulo. Sim, miséria permeando aldeias indígenas em São Paulo, com direito a cachorros miúdos e magrelos e tudo o mais!
    Terra, terra, vida! Quanto tempo mais demoraremos pra entender a importância dela para indígenas e não indígenas?
    Parabéns pela mensagem e obrigada por compartilhar!
    Vanessa

  3. Wilma José da Silva Veja disse:

    Altamiro, o seu texto retrata a realidade das aldeias de São Paulo, você expos o sofrimento indígena com muita verdade, e o que me entristece é que mesmo existindo esse problema e discutido constantimente com as autoridades, nada é feito para mudar esse cenário. Hoje o indígena é marginalizado trazendo consigo um estigma negativo. Parabéns pela mensagem publicada.

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