Farinha no Thinner e a branquela entre os índios: tudo para ver o Lula

Agora estou na Placa. Sim, esta comunidade se chama Placa e é um entroncamento onde vivem cerca de cem macuxis. Aqui é caminho para Maturuca, onde ocorrerá a festa de aniversário da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Estão sendo esperadas 18 mil pessoas, dentre elas o presidente Lula. 300 bois já foram preparados para o abate, e toneladas de alimentos já estão sendo enviadas, junto com ambulâncias, cadeiras, material de som e tudo que se possa imaginar. Vou dormir no posto de saúde e de longe assisto a movimentação na estrada.

IMG_1094 Ponto de parada na Placa… Todo mundo que ver o Lula.

Em frente ao posto o pequeno restaurante de Dona Elice, macuxi nata e do seu Vagner, galego de olhos claros e macuxi por afinidade nos garante o prato feito da janta, um frango delicioso e uma farinha servida em um pote de thinner onde sob um aviso de “perigo, veneno” uma caveira impressa nos olha zombeteira. Dispenso a farinha.

IMG_1126 IMG_1127 Genival encarou a “farinha do thinner”… com caveira e tudo.

Dona Elice é a “segundo-tuchaua”, algo como um vice-presidente, e se orgulha de ter toda documentação, com registro em cartório e tudo. Em frente ao pequeno comércio passam pick-ups e vans. Um ônibus já está parado há algum tempo para o lanche antes dos 90 km finais que serão percorridos em três horas por estradas esburacadas e poeirentas, ainda que discretamente melhoradas ou maquiadas por motivo da visita presidencial e da festa. Enquanto esperam o ônibus sair todos ensaiam os cânticos que serão apresentados na festa e a dança de parichara.

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O fundo sonoro me faz novamente pensar no privilégio que tenho de poder viajar, conhecer este Brasilzão e ainda ganhar por isso. Me preparo para o trabalho como me preparo para um passeio e realmente vivo com a sensação de estar no paraíso.

De repente chega um caminhão com a carroceria abarrotada… de gente. As pessoas descem para esticar as pernas. Todas tem traços nitidamente indígenas. Todas não. Desce uma moça de seus vinte anos, pele branca de neve e bochechas rosadas como camarão na brasa, piercing no lábio, descalça e falando com sotaque gringo: “onde tein um banieiro?”. Tento imaginar sua história… ta vindo de onde, ta indo para onde? E tem gente que tem medo de viajar sozinho…

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Não consegui fazer um close dela… mas olha a brancura subindo no caminhão!

2 comentários Adicione o seu

  1. Denise Guerra disse:

    Nossa, que legal esta sua vidinha mais ou menos!!! Parabéns Dr, vc é mesmo corajoso de encarar aí a farinha assassina!!! Pelo menos era farinha d’água? Saiu a Revista África e Africanidades nº9 comemorativa de 2 anos na web. Meu texto desta edição é fruto dos estudos que fiz para dar o curso que dei lá no Mato Grosso para os profs Nambikwara. O título é A CULTURA AFRO-INDÍGENA BRASILEIRA E A IMPLEMENTAÇÃO DA LEI 11.645/08. Quando puder acesse http://www.africaeafricanidades.com.br
    Bjs no coração!!!

  2. Denise Guerra disse:

    Digo, o título do texto é Os Legados Ancestrais na Cultura Afroindígena Brasileira e a implementação da lei 11.645. Bjs!

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