Ano novo na Colônia Japonesa

A pedido da minha querida amiga Andhressa Fagundes escrevi um texto sobre festas e alimentação tradicional de Ano Novo para a REDENUTRI, ligada a alimentação e nutrição. Como sou “japonês por parte do meu filho Kim”, resolvi contar do ano novo na casa da Família Kakeya.

MOTITSUKI

Aos poucos a família começa a chegar e enche a ampla varanda. Se os olhos puxados dos mais antigos não negam a origem, a mistura racial dos mais novos já deixa dúvidas. Todo final de ano é assim na casa da família Kakeya, zona rural de Mogi das Cruzes, região colonizada originalmente por japoneses.

O motivo do encontro é muito mais do que celebrar o final de ano. Seguindo um ritual tradicional do Japão a família e amigos reúnem-se para agradecer o ano que passou e pedir prosperidade e fartura para o ano que se inicia. Este ritual, o Moti Tsuki está todo ligado a base da alimentação tradicional oriental: o arroz.

Desde cedo as panelas já estão no fogo com um arroz especial, conhecido como “arroz moti” (motigome). Após cozido as mulheres viram o arroz em um grande pilão de madeira, chamado ussu, onde será achatado com uma grande marreta de madeira. Esta é uma tarefa a qual se dedicam os homens em esquema de rodízio, pois o arroz tem que se transformar em uma grande massa que irá servir para fazer os bolinhos: o moti. Eu entro na fila e espero minha vez de “bater” no arroz. Agachado ao lado do ussu Tio Minoro é rápido para seus mais de setenta anos. É dele a função de molhar e girar a massa nos rápidos intervalos das marteladas. Se o arroz não estiver molhado, gruda na madeira do ussu. Se massa não for girada, não fica homogênea, comprometendo o moti. Se tio Minoro for lento pode levar uma marretada com conseqüências desagradáveis. Chega minha vez. Despejo toda minha energia e após cerca de dez marteladas já estou cansado, o que aumenta minha fome. Experimento depois a função do tio Minoro e os primos implicam comigo dizendo que vão acertar minha mão, pois girar a massa é coisa de japonês. Todos riem, mas sou rápido, especialmente porque se não for, além da marretada queimo a mão, pois a massa do arroz é despejada bem quente no pilão. Quando a massa fica bem firme, homogênea e sem caroços, as mulheres levam e despejam sobre uma grande mesa já toda coberta com uma fina camada de maisena para não grudar.

             IMG_0405mini

As mulheres são comandadas pela matriarca, a baatian (avó). Seus dedos já não tem a agilidade de antes, mas a experiência de quase noventa moti tsukis garante o respeito de todos. As pequenas também ajudam, e se seus bolinhos não saem muito caprichados, ninguém ri, pois é assim que se aprende. Logo os motis vão se multiplicando e são colocados em grandes bandejas. Os bolinhos vão ter diversos destinos. Podem ser comidos recheados de anko (doce de feijão) ou grelhados, misturados com shoyu e açúcar ou irem para o altar dos antepassados, comuns nas casas de famílias budistas. Por fim os que restarem serão levados para serem distribuídos, pois a fartura que temos hoje deve sempre ser dividida com outras pessoas.

No motitsuki nossa solidariedade é exercitada e percebemos que quando partilhamos tanto os esforços como o fruto de nosso trabalho não há como ser diferente, o ano novo será de muita fartura.

1 comentário Adicione o seu

  1. Lídia Pantoja disse:

    Muito legal!

    Manda pra Alzira pra ela dar uma olhada pq dessas coisas ela entende beemm melhor do que eu! 😉

    Beijos com saudades!

    Lídia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s