*Um retrato do Brasil indígena: muito além do senso comum*

SPENSY PIMENTEL (ESPECIAL PARA A *FOLHA)*

Os números do Censo 2010 consolidam o retrato de um Brasil indígena que
está muito além de certos chavões e mostram que o país precisa repensar as
imagens que representam de forma mais fiel a realidade desses povos.
Desde que o instituto divulgou, há alguns meses, os primeiros dados sobre
esse levantamento já se percebia que o Brasil tem, hoje, mais indígenas no
Centro-Sul e no Nordeste do que na Amazônia Legal. Dos cinco Estados com
maior população indígena, três estão fora da Amazônia: Mato Grosso do Sul,
Bahia e Pernambuco.

Ainda assim, para boa parte da população urbana de São Paulo ou Rio, a
imagem mental do que seja um índio "de verdade" está muito mais próxima de
um xinguano ou um yanomami do que de um guarani ou um pataxó.
Ocorre que os índios amazônicos têm à sua disposição, hoje, mais de 98%
das terras indígenas existentes. Já os indígenas não amazônicos, pouco
mais de 50% do total, têm menos de 2% das terras. Em algumas regiões, como
a Bahia ou Mato Grosso do Sul, o processo de demarcação de terras é
conflituoso e se encontra indefinido até hoje.

Não surpreende, assim, que o IBGE agora mostre que 379.534 indígenas moram
fora das terras indígenas. No Centro-Sul e no Nordeste, milhares migram ou
residem temporariamente nas cidades por absoluta falta de condições de
sobrevivência nas exíguas terras disponíveis.
No Norte também é significativa a presença de indígenas nas cidades.
Muitas vezes, essa mobilidade está relacionada à busca pelo acesso a
serviços públicos.
O critério da autoidentificação, considerado "soberano" pelo IBGE, sem que
se buscasse enquadramento em listas pré-existentes, fez com que a pesquisa
chegasse a números surpreendentes de etnias, 305, e línguas, 274.
O resultado deve ser visto como a prova de que continua vigorosa e
desafiadora a sociodiversidade brasileira.Ainda há muito para ser
pesquisado. Que mais pessoas se identifiquem como indígenas é um dos
efeitos do fato de que, hoje, declarar essa herança cultural é motivo de
orgulho, e não de vergonha ou temor, como décadas atrás, em tempos de
autoritarismo.
Que o Brasil tenha nobreza suficiente para dar condições de sobrevivência
a toda essa riqueza humana.

*SPENSY PIMENTEL* é pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da USP

*Tikuna é a etnia mais numerosa*
Com 46 mil pessoas, a tikuna foi a maior etnia indígena entre as 305
encontradas pelo IBGE no país. Depois, vieram a guarani kaiowá (43,4 mil)
e a kaingang (37,4 mil). Os tikunas vivem em áreas perto do Peru e da
Colômbia, diz o antropólogo João Pacheco de Oliveira.

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