Alta´s Impressões 102 – Roraima

Hoje está calor em Boa Vista. Ontem estava calor. Amanhã estará calor. Nos dez anos que moro por aqui não lembro de um único dia que eu tenha precisado colocar manga comprida. O que muda é: calor com chuva ou calor com sol. E mesmo na opção calor com chuva, há intervalos em que o sol domina novamente.
Isso faz com que Boa Vista tenha um ritmo próprio, logo percebido por quem vem aqui pela primeira vez. As avenidas largas, pouco arborizadas, estão vazias durante o dia. Se não fossem os carros e motos circulando – muitas, muitas motos – passaria por uma cidade fantasma. Entretanto, quando o calor diminui, por volta das seis da tarde, as ruas ganham vida. Comadres puxam cadeiras para fora da casa, crianças saem para brincar, as ciclovias (a cidade é repleta de ciclovias) se movimentam, os (muitos) grupos de corrida começam a ocupar seus espaços e, nos parques gramados muita gente se reúne em aniversários, piqueniques ou mesmo em simples rodas de viola ou oração.

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Praças vaziar, ruas desertas. Durante o dia é assim. Até as praças, como o Portal do Milênio, com carregador de celular e wifi grátis, ficam desertas.

Como estamos no hemisfério norte, nosso regime de estações do ano é ao contrário do restante do Brasil, portanto, agora em junho, estamos no verão. Para complicar um pouco as coisas, no norte chama-se popularmente de “verão” o período seco, e de “inverno” o período de chuvas, o que estamos vivendo agora. Então, embora o Amazonas e os demais estados do norte estejam na seca, portanto, no “verão”, nós estamos no “inverno”, como o resto do Brasil, mesmo estando, geograficamente no verão, pois chove aqui todos os dias há cerca de 2 meses. Difícil entender isso, né?!? dá nó mental!

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Esta é a Orla Taumanan, uma das atrações turísticas de Boa Vista. Dá para ter uma ideia de como o rio enche, pois as fotos são todas no mesmo ponto. E imagine que toda a estrutura já ficou coberta de água. Difícil até acreditar, não?

Um dos pontos de maior movimento na cidade é a Avenida Ayrton Senna, repleta de famílias e crianças, especialmente nas noites dos finais de semana. Esta avenida liga o aeroporto ao Palácio de Governo e em toda sua extensão há opções para lazer: karaokê, pista de bicicross, quadras de tênis e basquete, campo de futebol soçaite, lanchonetes (e viva o açaí e o guaraná!), restaurantes, praça de eventos, palcos, pula-pulas e piscinas de bolinhas, lojas de artesanato local e… a Praça das Águas.
A Praça das Águas, depois do rio Branco, é o principal ponto turístico do município. Mosaicos de Brennand (não conhece o artista pernambucano?
https://www.brennand.com.br/ – Alta´s Impressões também é cultura), o Portal do Milênio e, a mais recente atração, a Fonte Sonora atraem gente de toda cidade. Tudo bem, não é a fonte de Lima ou Dubai, mas é legal do mesmo jeito! Ah! E todas as praças por aqui tem wi-fi grátis e a das Águas tem até lugar onde recarregar os celulares. Modernidade que não se encontra em muitos lugares mais badalados.

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Mosaico de Brennand no Portal do Milênio.

 

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Noite. Praças repletas de vida e alegria.

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Toda vez que mostro a cidade para alguém, um dos pontos turísticos é o cinema Super K. Um cinema? Isso mesmo. A decoração, no mínimo “sui generis”, sugere uma mistura de caverna dos Flintsones com catedral de Gaudí e pinguim de geladeira… Impossível? Então confere.

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Outro ponto exótico é o “avião no teto da casinha”. Um concorde de concreto plantado no teto de uma casa. O arquiteto e construtor, sempre recluso, não fala ou dá entrevistas e dificilmente é visto desde que apareceu no Fantástico, no antigo quadro “Me leva Brasil”, com o Maurício Kubrusly.

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Um dos destaques do hospital onde trabalho é a enfermaria indígena. Profissionais de todo país vem conhecer as estratégias de humanização para indígena que, em sua terra natal vivem sem roupa e dormem em redes, desconhecendo o que é um sanitário. Para resolver este problema temos uma enfermaria bem ampla, com janelões (abertos quase todo o tempo), grandes redes brancas e banheiro é com sanitário de chão. A alimentação também é típica, sendo muito usados a macaxeira e a banana cozida, farinha grossa e mingau de banana. Situações não tão incomuns são as brigas entre indígenas de comunidades inimigas e os acompanhantes querendo namorar demais.

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Um outro problema é quando algum “parente” mais acostumado com a cidade vem visitar. Eles sempre tem muita dificuldade de entender o português e as limitações, então por vezes trazem alimentos que não são permitidos. Este pequeno estava com alimentação hipercalórica com baixo teor de lactose, que usamos para desnutrido… mas não era nisso que estávamos pensando. E vai tentar tirar…18 06 Curumim CocaCola (2)

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Encerro falando da situação dos venezuelanos. Estamos em mais um período de calmaria. As pessoas continuam a chegar dia a dia, mas a cidade já está um pouco mais adaptada e quase não há pessoas dormindo nas praças. Com o avanço do período de chuvas as áreas abertas ficam alagadas diariamente e foram instalados novos abrigos com apoio da ACNUR, Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Os abrigos foram organizados e melhor saneados, com apoio do exército e da aeronáutica. Mesmo com tudo isso é triste a situação de quem não consegue emprego. O ócio é doloroso, a falta de perspectiva também. Para os jovens, um convite para o pior… Não há programas para ocupação com atividades recreativas, desportivas ou culturais. Estamos agora tentando abrir Grupos Escoteiros com escoteiros que vieram migrando. Quem sabe ajuda a pelo menos ajudar na integração e tornar mais fácil a difícil vida de quem muda de vida de forma tão radical. Com todos fazendo sua parte, aos poucos melhora…. Juntos mudamos o mundo!

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Tá lá no cartaz: Se faz serviço de pintor, pedreiro, ajudante de pedreiro, capinação, garçon, doméstica, limpeza em geral, caseiro, casal disponível. Trabalho de carga e descarga. Lava-se roupas em geral. Cozinheira e ajudante. Eletricista. Costura-se calçado. Corte de árvore. Estão correndo atrás. E muitos tem até nível superior…

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Se não chove, fica assim ao redor dos abrigos… Imagine a gente com a mesma (falta de) perspectiva…

Para encerrar bom astral, duas fotos que mostram algumas belezas deste estado que tão bem me adotou.Image00036
Em cima o Parque Anauá, abaixo uma praia… hoje submersa.

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Até a próxima!

2 comentários Adicione o seu

  1. Hermes A. Berguerand disse:

    Parabéns pela belíssima missão…

    1. Altamiro Vilhena disse:

      Valeu, amigo!!! Apareça sempre por aqui!!!

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