Alta´s Impressões 103–Acampamento Nacional Escoteiro

 

Por sete dias, eu e centenas de voluntários de todo o Brasil, vamos trabalhar duro. Bem duro. No Parque do Peão, em Barretos, queimaremos a pele no sol escaldante do dia, tremeremos de frio nas barracas a noite, caminharemos longe em busca de banheiros coletivos e respiraremos poeira fina que já irrita meu nariz, olhos e garganta. Tudo isso em busca de uma recompensa: a alegria de cerca de 5 mil jovens vindos de todo o país que vem participar do Jamboree Nacional Escoteiro, nosso maior acampamento.

Image00028

 

Somos todos voluntários do movimento escoteiro, organização centenária de desenvolvimento de jovens. Queremos formar cidadãos úteis e com capacidade de transformar a sociedade. Para isso utilizamos um método que proporciona atividades variadas e atraentes, em que eles aprendem pela prática, vivem em equipe e contam com a orientação de adultos voluntários.

Image00004

Este lenço vermelho no pescoço indica os voluntários que trabalham na Equipe de Serviço. Este é o Pedrão, amigo engenheiro de Goiânia. Se prestarem atenção no corte do cabelo, vão ver que o Jamboree faz a cabeça até de adultos!

Todos os dias os jovens vivenciarão uma programação intensa que começa as seis da manhã quando eles acordam para preparar seu café e termina as dez da noite, após a última atividade do dia. Os escoteiros saem de suas cidades integrados em equipes de 8 jovens, que são acompanhados todo o tempo por um adulto, o “chefe de patrulha”. Outros adultos, como eu, fazemos parte da Equipe de Serviço, cada um com tarefas diferentes. Muitos integrantes desta equipe trabalham diretamente na programação das atividades dos jovens. Outros em tarefas administrativas, nos informativos (jornal, mídia para internet, recepção de convidados), na organização do refeitório da equipe de serviço (a cozinha é terceirizada, mas a organização de filas, reposição de pratos, etc, é feita pelos voluntários), na segurança (dentro da política de proteção juvenil dos escoteiros, por exemplo, os adultos da equipe de serviço nem mesmo podem entrar nas áreas de acampamentos de jovens, e este controle é feito pelos voluntários), nas atividades de infraestrutura, na loja de artigos escoteiros, etc.

Image00025

O campo acorda assim…. lindo!

Minha tarefa, especificamente, começou há mais de seis meses atrás, quando eu e meu irmão Beto Basso recebemos a incumbência de montarmos um módulo de atividades de Bushcraft, técnicas de ar livre. Foram dias de pesquisa, reuniões e decisões até termos todo o projeto aprovado pela área de programa do Escritório Nacional, responsável por nosso apoio e pela compra de equipamentos e organização da infra-estrutura que solicitamos. Para a missão contamos com cerca de 50 voluntários, alguns que nos acompanharam no último mês e alguns que conhecemos nos últimos dias. Todos deverão seguir nossas orientações e nós precisamos confiar em seu trabalho. Ou seja, além de elaborar o módulo, para que tudo dê certo temos que transformar em equipe um grupo de adultos que não se conhece e que vem de áreas tão distantes quanto Brasília,  Cuiabá,  Teresina, Porto Alegre, Fortaleza e até Assunção no Paraguai. É com esta equipe que queremos fazer tudo dar certo na atividade pronta para começar em uma hora. Se estou ansioso? com certeza. Mas vai dar tudo certo, e depois volto para contar para vocês.

Image00026
Hora de preparar tudo para quando os meninos chegarem!

São quase onze da noite e agora que consegui chegar na minha barraca. Lá fora o vento gelado espalha a poeira que entupiu meu nariz e estou encolhido dentro do saco de dormir, enquanto escrevo um pouco para compartilhar o que estou sentindo. Rebemos hoje mais de mil jovens que se espalharam pelo nosso módulo fazendo atividades muito variadas. Uso de bumerangue, zarabatana, confecção e arremesso de lança e de machadinha; técnicas de pioneiros, como rachar lenha com machadão, se orientar com bússolas, transmitir mensagens com bandeirolas de semáfora e código morse foram algumas das vivências oferecidas, ao lado da construção de uma ponte com duas torres. Para construir o projeto com sucesso os jovens precisavam se organizar, ou o tempo seria curto. Desenvolvimento de organização, trabalho em equipe, sacrifício em busca de um objetivo comum foram alguns dos aspectos desenvolvidos pelos jovens neste projeto. Tudo parece ter dado certo, e foram muitas as respostas positivas dos próprios jovens. Bem, hoje foi só o primeiro dia e os que vieram aqui terão mais outros dias com atividades desafiantes. Vamos ver a opinião no final do evento.

 

Image00002

Image00012

Image00017

Os meninos vem chegando… é impactante, pois recebo mais de mil a cada dia!

Image00032

Image00033

Transmissão de mensagens e laço foram algumas das atividades realizadas.

Image00018

 

Image00035

Image00020

A construção de uma ponte exige coordenação, trabalho em equipe, liderança, habilidade, dedicação. No final a recompensa da tarefa executada: atravessar a ponte, mesmo que com apoio dos amigos segurando as torres.


Hoje é nosso dia de folga. Todo voluntário da equipe de serviço tem direito a um merecido e necessário dia de folga, com uma programação especial. Estamos nas Thermas dos Laranjais, um parque aquático na cidade de Olímpia. Tem gente encarando tempo na fila para arriscar pegar uma onda de surf ou descer em um tobogã animado, já eu… tô aqui… em uma piscina térmica de bolhas, jogando conversa fora e esperando a tensão sair dos músculos. Me sinto um hipopótamo de molho, pois com a água quentinha, qualquer ventinho do lado de fora parece inverno glacial… Ah vida! Indecisão é entre a piscina de bolinhas, a piscina com areia ou a hidromassagem…

Image00021

Image00022

Hora de relaxar… ninguém é de ferro.

A tarde está chegando ao fim. A equipe já está tranquila e conseguimos relaxar um pouco mais, e até escrever um pouco. A alegria dos meninos é evidente, o que nos deixa felizes com nossa missão. Além dos jovens, os adultos também se empolgaram. Muitos pedem os modelos dos projetos, perguntam como podem reproduzir as atividades em seus grupos. Os jovens, ao longo dos dias fizeram atividades diversas: percorreram trilhas de arvorismo, rastejaram a lama, discutiram seu impacto na natureza, refletiram sobre a mulher na sociedade, dançaram maracatu, percorreram o bosque da paz com várias atividades reflexivas, participaram de festas tradicionais, cada um mostrando um pouco do seu estado e de festas modernas, com direito até a concurso de CosPlay e DJ. Suaram, cansaram, fizeram novos amigos, se divertiram bastante. Nosso módulo é a última atividade que estes meninos vão participar e muitos parecem não querer ir embora. O que deveria se encerrar as cinco acaba quase uma hora depois, tal a empolgação para aproveitarem ao máximo seus últimos momentos de atividade.

Image00007

Image00044

Image00037
Arremesso de boleadeira, protegidos pelo sombrite. Zarabatana e bumerangue!

Image00038

Image00039

Image00041

Image00010

Image00042

Até os chefes querem atravessar a ponte… e comemorar!

Image00014
Meu super-staff. Derrotado, mas feliz!!!

 

A cerimônia de encerramento será hoje a noite. Os jovens retornam a seus campos para se aprontar e nós temos a última missão: desmontar nossa base, guardar martelos, serras, cordas, machados e facas, bússolas e bumerangues, empacotar tudo… ufa! Mas missão dada, missão cumprida. – e como tenho que agradecer a cada um dos meus incríveis staffs, que vestiram a camisa do Bushcraft e tornaram este Jamboree um evento único para cinco mil jovens de todo Brasil.

A cerimônia de encerramento sempre é simples:

Image00029
Cerimônia de encerramento, na arena principal do Parque do Peão de Barretos.


agradecimentos, desfile de bandeiras das delegações, abraços a amigos que vamos encontrando e nos despedindo sem saber quando vamos voltar a ver. Por fim cantamos a canção que marca todo encerramento de um acampamento escoteiro… “Porque perder a esperança de nos tornar a ver, porque perder as esperanças, se há tanto querer…. não é mais que um até logo, não é mais que um breve adeus…”
São muitos os rostos molhados, mesmo que nenhuma chuva caia do céu. São lágrimas de realização: novos amigos,  abraços que reafirmam a amizade, sorriso no rosto, cansaço no músculo, alma lavada.
Que venha o próximo Jamboree.

Image00036

PS –Dedico este texto ao ao meu irmão Beto, por topar mais uma aventura juntos, ao Vitor e o Miro, por nos confiar esta tarefa, e por cada um do nosso incrível staff. Bushcrafters, vocês fizeraem a diferença!!!

2 comentários Adicione o seu

  1. Ana Paula Cruz Caramaschi disse:

    Que relato incrível, eu que sempre quis ser escoteira e não fui… fico aqui deliciando com cada palavra, foto, muito inspirador. Parabéns!!

  2. Faço das palavras acima as minha. Nunca fui mas hoje atuo como um mesmo que indiretamente! Amo acampar, aprender coisas novas no campo que no futuro sempre uso, ainda mais agora como “homem de casa” ksksksks

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s