Impressões Amazônicas 3 – Impressões Manauaras

29 de março de 2005

Você sabe o que é um manauara?
Pois saiba que é como se chama quem nasce em Manaus. Desta vez vou falar um pouco da capital do Amazonas, onde fiz um treinamento na semana passada e onde passei a Páscoa. As pessoas tem me perguntado muito: quando escrevo… Muito do que vocês lêem é escrito no meu palm, assim escrevo no auge da inspiração e nos lugares mais inusitados como o restaurante, barco, posto de saúde…
Abraços a todos com muitas saudades,
Altamiro
O pessoal que reclama do ritmo da Bahia é porque não conhece a Amazônia… Tudo aqui tem o seu tempo próprio que não é o tempo que estamos acostumados no Sul. Vou dar um exemplo prático. Hoje viajo para Manaus para um curso pelo Programa Estadual de DST/AIDS. Meu vôo sai às 9h20min e iria pegar a lancha às 7h30min. Estava tudo certo por parte da Secretaria de Administração até ontem a noite quando foram lá em casa. “Dr, é para avisar que a baleeira (lancha) vai sair às 6h30min.” Eu pergunto, porque tão cedo e o rapaz me explica que a prefeitura alugou um barco para levar os alunos da faculdade e não ia alugar outro só para mim. Em um município pobre, é bem justo. Assim, às 5h45min eu estava de pé imaginando como fazer os 10 min de caminhada até o porto sob chuva amazônica. Táxi não há. Carona? Não conheço nenhum dos 16 proprietários de veículos da cidade. Assim o jeito é improvisar. Tênis sem meia (para não molhá-la), bermuda de secagem rápida, sem blusa, mochilão às costas e capa de chuva cobrindo a cabeça e a mochila, lá fui eu debaixo do toró. Cheguei 10min adiantado e tomei um café (café c/ leite condensado + pão c/ manteiga + banana = 1 real) para esquentar. Coloquei a blusa e fui ao ponto de encontro, onde encontrei o Ciderjanio (podem usar este nome para seus filhos!). Ele contou que são 8 alunos de ciências políticas da universidade estadual que tem um seminário às 7h30min. Deu 6h30min, 45, 7h e… nada do barqueiro. Todos preocupados mas sem o “stress” que estaríamos no Sul Maravilha. Às 7h10min ele chegou. Todos se acomodaram e imaginamos que o barco sairia… nada. Ele aproveitou que sobrava um espaço e esperava mais um passageiro pagante. Isto porque a prefeitura havia fretado o barco. Saímos. Para Tabatinga? Não, para Islândia, no Peru, que fica “logo ali” e onde a gasolina custa a metade do preço. Durante o abastecimento vimos chegar o último aluno que faltara, o vereador Xeruca. Ele sinalizou da margem mas o lancheiro só resmungou: “muito cheio” antes de acelerar o motor. Como o seminário era de tributos públicos viajei ouvindo falar em iss, ipva, iptu… coisas que só conhecem dos livros, pois nenhum destes é cobrado em Benjamim. Assim, não há prefeitura que faça caixa. E lá se foram, sem pressa nossos futuros cientistas políticos, talvez sonhando com o dia que o extremo noroeste do Brasil vai se transformar no modelo que aprendem em seus livros e seminários.
Reflexões de vôo – quem não quiser ler filosofia pule os dois próximos parágrafos… risos.
Voando de Manaus a Tabatinga o tempo se encontrava fechado o tempo todo e pouco pude ver devido as nuvens. O pouco que vi me encantou o suficiente para entender porque está região é fascinante. O oceano verde cortado pelas linhas, traços e faixas cor de terra do imenso Solimões e seus afluentes é algo inigualável. A sensação de que tudo é um imenso organismo pulsando cheio de vida parece fazer um convite, um desafio, sei lá. Não sou um poeta mas nestas horas queria ter o dom da Pryscila. Nem mesmo a falta de minhas amadas montanhas me incomoda. Gostaria realmente de estar mais no meio da mata, e não vejo a hora de ter esta oportunidade.
Mas tanta fartura deixa os homens equivocados. Por trás de tanta força na verdade há um organismo frágil. Nem tudo que vemos do alto é a floresta amazônica de nossa imaginação, repleta de índios, animais ferozes, peixes enormes e mosquitos terríveis. Ao redor dos povoados, à beira dos grandes rios e no prolongamento das cidades, tudo que se vê de cima também é verde. Por baixo vemos que a realidade é distinta. As árvores centenárias, a madeira de lei, os cedros e sumaúmas já pouco existem. A vegetação é rala sem a imponência que ainda quero encontrar. Quantos anos a natureza vai demorar a repor o perdido? Sim, porque a terra explorada é simplesmente abandonada, já não vale nada em nenhum sentido aos olhos capitalistas. E, infelizmente, quem só passa do alto vendo todo este verde não consegue entender isto.
A noite conheci meu companheiro de quarto, o Eone, que vem de Eirunepé, muito gente boa. Já procurou Benjamin Constant no mapa? Achou longe? Eirunepé está mais ou menos na mesma direção (longitude), mas ao sul em direção ao Acre. Eu juro que já achava Benjamin longe, mas descobri que os 4 dias de barco para Manaus são um passeio, uma distância curtíssima em termos amazônicos. Eles levam de barco quase 16 dias para fazer a viagem ao seu município de origem. Dentro da mesma cidade, povoados mais isolados como o de Mochila (isto é o nome do lugar, e aqui em Benjamin tem um lugar chamado “Capacete”) são atingidos em 7 dias de barco… e só quando o rio está cheio. Isto mostra como a Amazônia é sui-generis. Cada região tem características tão próprias que não há como generalizar nunca. Ele conta que lá é mata mesmo. Por trás da casa dele há um igarapé onde nadam botos-cor-de-rosa, e as seis etnias locais indígenas são presença constante na cidade, sendo que muitos nem falam português. Este grau de Amazônia eu vou deixar mais para o futuro… ou para as visitas. Me acompanhem…!!!
Manaus, como toda metrópole é um tanto impessoal. Com cerca de 1.800.000 moradores vivendo no coração da floresta, é uma cidade de contrastes, onde a riqueza e a pobreza convivem todo o tempo. Para vocês entenderem conheçam a Rua 10 de julho. Esta rua em pleno centro, passa pela lateral do glorioso Teatro Amazonas e em pouco mais de duas quadras se encontram lado a lado lojas de artesanato chique para turistas endinheirados, uma boate de strip-tease, uma igreja católica muito bonita (São Sebastião), alguns hotéis, cyber-cafes, uma escola de segundo-grau e um cinema pornô. Andando neste trecho tanto vi hordas de turistas como alunos, e ainda fui abordado por uma profissional da noite que anunciava: “taradona, taradona!”.
Vou contar um pouco do que vi no pouco tempo que permaneci por lá, poupando vocês dos meus encontros escoteiros e trocas de distintivos.
Na falta de mar, o jeito é aproveitar as praias de rio quando eles estão mais baixos. Ponta Negra é a maior praia do Rio Negro, onde há shows e todo tipo de encontros populares, bem como qualquer praia do litoral brasileiro. Na orla os quiosques e o calçadão, onde se passeia com os cachorros ou se faz cooper diante de prédios modernos e caros são similares aos de toda cidade praiana. A água é escura mas não é fria e o banho é convidativo, pois as ondas são pequenas. O interessante é a faixa de areia. No período de seca, a faixa é larga como Ipanema ou Copacabana. Nestes dias, como tem chovido muito, não há areia, a não ser em pequenas áreas isoladas, que ficam com mais gente do que ônibus lotado. O rio inunda tudo, engolindo quase toda areia para, às vezes, somente reaparecer após alguns meses.
Como queria ver bichos fui no Parque do Mindu, indicação do Daniel. Os animais símbolos de lá são os Sauis-de-cara-branca, pequena espécie de macacos, dos quais não vi nem sombra. Em compensação vi muitas cutias, preguiças e muitos carapanãs (mosquitos) me viram. Numa cidade que é responsável por mais de 60% dos casos de malária registrados, há que ficar preocupado. Lá fui brindado em ver uma das preguiças descendo da árvore e caminhando, mas é um processo tão leeeeeeeeeeeeento que até desisti de ver onde ela queria chegar. Ao menos é fácil de fotografar.
No centro histórico há o edifício da alfândega, construido na Europa e refeito aqui após ser remontado pedra por pedra. Era época áurea de Manaus, quando a borracha valia seu peso em ouro, as maiores companhias de ópera vinham se apresentar no Teatro e os ricos, não gostando do efeito das águas locais em suas roupas, mandavam lavá-las na Europa. Um destes milionários, alemão, morava no Palácio Rio Negro e tinha além do porto particular, um terminal de bonde construído especialmente para ele. Circulava tanto dinheiro por lá que a cidade foi a primeira do Brasil a receber rede de energia elétrica. O Teatro Amazonas é deste tempo. Não é a toa que o Guia 4 Rodas o considera uma das poucas atrações 4 Estrelas do Brasil. Ele é realmente impressionante, com um estilo bem clássico, mas com uma cúpula verde-amarela de azulejos que eu juraria ter sido feita durante uma Copa do Mundo. O interior é fascinante, com o que havia e há de mais moderno em termos de acústica e recursos sonoros. Todo construído em madeiras nobres, tem a acústica considerada a quarta melhor do mundo. Eu fui visitar com um grupo de cerca de 40 pessoas, sendo que eu era o ÚNICO que falava português. Japonêses, europeus e americanos eram quem dominava. O grupo vinha de um passeio de cruzeiro, atravessando todo o Amazonas até Iquitos no Peru, pois o rio é totalmente navegável.
Estive na Zona Franca, mas…se sonham com produtos baratos e modernos, desistam. Embora todos os CDs que vocês escutem sejam produzidos por lá e ainda tenhamos entre outras a Panasonic, LG, Nokia, Caloi, Honda, os preços são quase os mesmos do resto do Brasil, e o que impera mesmo são os importados coreanos e chineses.

Não conheci o Encontro das Águas, que ficou para a próxima, mas aproveitei para ir a Presidente Figueiredo, a Cidade das Cachoeiras.
A alcunha não é vã, pois a cidade é realmente repleta de cachoeiras. Aproveitando o seu relevo, lá foi construída a hidrelétrica de Balbina, mega-obra de engenharia, que, no Brasil só perde para Itaipu em termos de tamanho. O lago formado pelo represamento do rio afogou muitas árvores que morreram e secaram, deixando somente os seus galhos apontados para o alto, a “cacaia” que se projeta da superfície do lago como pedindo socorro em um sinistro e ao mesmo tempo lindo panorama. Para que os animais não tivessem o mesmo destino uma equipe de zoólogos e veterinários foi contratada para resgatar os que se encontravam “ilhados”. Embora o lago tenha demorado dois anos a encher, alguns animais mais lentos como cobras e tartarugas e outros mais territoriais como os macacos guariba tiveram que ser realmente salvos do afogamento. Uma das veterinárias que foi para lá, a Dra. Estela Maris, continua até hoje, ainda em Balbina, mas trabalhando em um interessante projeto que visitamos. Ela faz parte do Projeto de Preservação dos Mamíferos Aquáticos e da Associação Amigos do Peixe-Boi (http://www.amigosdopeixe-boi.org.br/). Eles tem um centro de recuperação para animais capturados por vendedores, caçadores ou simplesmente doados por seus antigos donos. São várias aves, lontras, ariranhas, mas o destaque fica por conta dos peixe-bois. O animal é muuuito simpático, e você pode inclusive ajudar e dar mamadeira para os filhotes que adoram carinho. Vocês sabem como um peixe-boi é morto? Arnaldo, você vai ver que o que fazem com as galinhas nas granjas não é nada. Como o animal é dócil, eles aproximam-se de barco no remo até chegar bem perto deles, que flutuam com as narinas para fora da água. Então simplesmente eles colocam dois pedaços de madeira que tapam as narinas do animal e então amarram suas caudas e esperam que morram. Simples e cruel. E a caça continua, como mostram os filhotes. Um deles, a Laia (que veio de AtaLAIA do Norte) de apenas 4 meses, e que eu amamentei, apresentava no seu dorso vários cortes de facão… apenas feitos por maldade, pois pequena ela ainda não poderia ser vendida. Triste não?Mas Presidente teve outras coisas interessantes. A cidade também é famosa por ser a “capital nacional do cupuaçu”, tendo inclusive um Festival Anual do Cupuaçu, onde se pode degustar chocolate, licor, creme e sorvete desta fruta amazônica. Além disso, são muitas cachoeiras. Muitas mesmo, algumas com boa infra-estrutura de acesso. As mais famosas são a da Pedra Furada, onde a água desce por um buraco no meio da pedra e a da Caverna de Maruaga. A cachoeira desce exatamente ao lado da entrada de uma gruta, formando um cenário único, como eu nunca havia visto. O banho é bom, pois a água não é tão fria, mas… como estamos no “inverno” amazônico, época de chuvas constantes, os igarapés estavam todos com o nível de água bastante elevado, por vezes impedindo o banho. Na Cachoeira das Lages, por exemplo, o rio estava ocupando uma área três vezes maior do que o seu leito original. Na pousada onde fiquei a mesma coisa acontecia, e passava tanta água que não era possível nem mesmo se ver a ponte que o atravessava. Muito volume e muita força. Na Corredeira do Urubuí resolvi seguir os meninos que se atiravam no rio e fiquei impressionado. Nem nos meus raftings ou no acqua-ride eu me senti tanto em uma máquina de lavar como desta vez. Tomei um “sacode” inesquecível, e mesmo não engolindo água, a sensação de não ter o mínimo domínio de onde se vai, quando se vai, além de ser arremessado para frente e para trás, foi inesquecível, mesmo eu só tendo encarado uma única vez. Pena que as fotos não dão a idéia real de como é lá. As fotos que enviei são todas de Cachoeiras de lá.
Na próxima vou contar algumas pérolas do meu trabalho em Benjamin, mas para deixar vocês curiosos, deixo uma relação de nomes de pacientes atendidos que podem servir como luz para seus futuros filhos ou bichinhos de estimação. Gilierdson, Iranildes, Gilsonez, Marquizete, Amina Dabe, Josenildon, Nelzir, Artemilson, Eroneide, Sendryl Nael, Alberlane, Fresia Estrella, Alzemar, Robertino, Dickson, Willy, Jarliane, Marcilane, Fredson . Escolham os seus favoritos que ganharão um CD do Robério!!! Mega-sucesso nestas bandas daqui.
Beijos e Abraços,
Alt

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5 comentários Adicione o seu

  1. Iúna disse:

    Esse seu jeito de explicar nossa região é encantador. Parabéns! o encanto não está só nas coisas da região, está no olhar que lançamos e no modo como expressamos a emoção que a Amazônia nos causa. Vc tem esse dom de se expressar encantando.
    me acabando de ri, li de novo, e, como não poderia deixar de ser, novas surpresas tive. Adorei a explicação sobre o plural, quando criança aprendi que manaus era lugar de morada das tribos manaós, barés, banibas e passés, tudo no plural com s, só depois de muitos anos foi que, estudando latim com um italiano (ou seria espanhol?, não importa), o prof. Giancarlo, aprendi que não se acrescenta s nos nomes indígenas. Giancarlo é apaixonado por idiomas indígenas, além de ensinar latim, falar espanhol, português, italiano, francês, alemão e não sei mais o q.
    Tb gostei do pium causador de anemia, como vc é exagerado, meu deus do céu. Vai ganhar um prêmio.

  2. Debora Martins disse:

    Vc tb, como eu, tem um problema sério com nomes, né… rsrsrsrssss…
    Mas os que vc mencionou acima são, realmente, iguarias finíssimas… rsrsrsrsss…
    Bjinhus

  3. ANDRIA LOPES disse:

    PUXA GOSTEI MUITO DA SUA EXPERIENCIA É PODE ACREDITA JA VIVI MOMENTOS COMO ESSES QUANDO VIAJEI PELA PRIMEIRA VEZ NO BARCO FOOOOOOOOOOOOOOI DESSE JEITO SO QUE EU FUI PRO PARÁ(SANTARÉN)
    PARABENS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. Elis disse:

    Altamiro…estou convencida de que vc foi planejado para este propósito.
    Tudo …o escotismo, a busca da aventura, sua formação profissional, sua sensibilidade, sua busca por “algo” que significa-se mais…..do que passar pelos dias, sua vontade de viver, sua felicidade por viver…isso tudo não foi por acaso…foi extremamente planejado …..para te tornar o que vc tem sido!
    Obrigado por compartilhar.
    Elis Da Gama

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