Alta´s Impressões 99 Ilha de Páscoa

2016 … O local: Ilha de Páscoa. Estamos na margem da cratera do vulcão RahoKao. Ao longe ondas estouram contra os rochedos enquanto caminhamos em direção a Orongo, antiga vila cerimonial, espremida entre o vulcão e o oceano Pacífico.

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Ao longe vejo duas pequenas ilhotas. Uma pouco mais é do que um pico atrevido, que ousou nascer no meio do oceano. Ao seu redor, gaivotas voam salpicando o céu de branco, num contraste nítido contra o azul literalmente marinho.

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Volto no tempo e enxergo os mais valentes de cada tribo descendo os rochedos em disparada. Descalços, vestidos apenas de pinturas, levam consigo toda esperança de seus clãs. O mais veloz se atira ao mar, logo seguido pelos demais. Parecem não temer as ondas como não temeram as bordas cortantes das rochas. Logo se aproximam das ilhotas e novamente se intrometem na eterna luta do mar contra as pedras. Avistam os primeiros ninhos e sobem as escarpas focados em um único objetivo: conseguir o primeiro ovo das aves migratórias.  Mesmo os que chegam depois não desistem, a competição só acaba quando o ovo chega inteiro na mão do líder do seu clã, e voltar com o ovo não é fácil. A vitória é largamente comemorada, e seu chefe será o novo Homem-Pássaro, reinando sobre toda a ilha durante todo o ano, até que novamente comece a temporada de aves na Ilha de Páscoa.

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Os nativos moravam nestas “casas” esperando as aves chegarem e colocarem seus ovos.

Por mais que a história do Homem-pássaro – ritual interrompido em 1860, após a conversão dos pascoenses ao catolicismo – seja interessante, o grande motivador para eu e pouco mais de outras 300 pessoas, diariamente voarmos por cinco horas sobre o Oceano Pacífico, são realmente os moais.  Sem dúvida há vários monumentos dos povos antigos que nos surpreendem. Por mais que nosso conhecimento de Google julgue saber tudo sobre tudo, há muito mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia. A máxima de Shakespeare vale para as pirâmides do Egito, para Machu Picchu e com certeza também para as centenas de estátuas da Ilha de Páscoa. IMG_1524_thumb[5]

Que mistérios será que elas guardam? Por que foram construídas? Por que foram derrubadas? Por que tanto esforço para carregar toneladas de pedras por quilômetros, literalmente "no muque"? Deuses? Reis? Guardiões? Não sei, ninguém sabe e talvez nunca saiba. Faço estas reflexões enquanto olho o mar estourando contra as pedras. Eu poderia ficar a vida inteira olhando este mar. Ouvindo estas ondas.

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Apenas a lua ilumina o dia, que demora a acordar. Na rua, apenas o barulho de nossa moto, na verdade uma scooter, ou melhor, uma enceradeira envenenada. Saímos bem cedo porque não sabemos quanto tempo demoraremos até chegar ao Ahu Tongariki. Enfileirados, de costas para o mar, os 15 moais retratam o poderio de um povo esquecido. Quando os europeus chegaram a ilha, em 1722, todos haviam sido derrubados e os ilhéus não sabiam mais do que as antigas lendas de seus avós. Assim, ninguém sabe quem, como ou porque construiu e nem mesmo porque derrubaram os moais do alto dos seus ahus, suas enormes plataformas de pedra.

O Ahu Tongariki é maior de todos. Na década de 60 começaram a pensar como levantar as 15 estátuas derrubadas, dentre elas a maior de todas, um gigante de 86 toneladas. Gente, 86 toneladas não é pouco não, um elefante grande pesa “apenas” seis. Para reerguer os moais, precisariam de um guindaste enorme, algo que, obviamente, não teria motivos para existir na pequena Ilha de Páscoa. Uma firma japonesa, chamada Tadano, resolveu colaborar, e enviou um guindaste. A Universidade do Chile coordenou a recuperação em uma reforma que durou cinco anos. Os moais foram esculpidos na rocha de um vulcão que dista cerca de um quilômetro daqui. Imaginem então como foi transportar as estátuas de toneladas por esta distância? Parece difícil? Vou complicar: Tem ahus que ficam distantes mais de 10 km da “fábrica”. Com toda tecnologia japonesa, em pleno século 20, com um mega-guindaste, os chilenos levaram 5 anos para “levantar” 15 estátuas sem danificá-las. Como os nativos faziam estes “monstros” de pedra caminharem??? E quer que eu dificulte mais ainda? Na cabeça de muitas das estátuas ainda existem pukaos, que os pesquisadores não sabem se são chapéus ou penteados modernosos. Eles são feitos de rocha vermelha, e vem de outro vulcão, chamado Puma Pau, quilômetros distante da “fábrica”. O peso? Os menores – eu disse menores – pesam 5 toneladas… somente! Gente, eu desisti de tentar entender. São várias teorias que tentam explicar como as estátuas são transportadas, desde troncos rolantes até naves espaciais. E o que eu penso? Não penso, só admiro.

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Todos admiram. Fotografarem, filmam e até mesmo a desenham o sol nascendo por trás dos gigantes. Ao nosso lado um senhor japonês pega lápis coloridos e logo imagens vivas surgem em seu papel. Espicho um rabo de olho e me impressiono. Junto a ele sua mãe, uma senhora com idade de ser minha avó, apoiada em sua bengala, sorri com aprovação. Todos tentam, ao seu modo, registrar a emoção que estão sentindo. Guardar um pouquinho destes mistérios para partilhar com os amigos, como eu faço aqui e agora.

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Confesso que estou impressionado com os moais. Cada um tem traços distintos e tamanhos diferentes. Tem um até com a “barriguinha” um pouco mais saliente. Resolvo então ir até RanoRaraku, o vulcão onde os moais ganhavam vida antes de “passear” pela ilha. Quero ver onde e como trabalhavam os escultores antigos nesta ilha repleta de mistérios. Vale a visita. RanoRaraku é daqueles lugares que as fotos ilustram, mas não dão ideia, que os textos tentam, mas não conseguem deixar bem claro como é. Vamos tentar.
De longe parece um morro normal com encosta gramada, onde imaginaríamos encontrar vaquinhas pastando. Porém, só encontramos estátuas. São centenas de moais por aqui, em diferentes estágios de construção.Um, qual enorme Buda, jaz deitado, esperando o momento de acordar. Há rostos enormes, que brotam do chão olhando ao longe, como a buscar o transporte que não chega. Há até um moai sentado. Único moai sentado de toda a ilha, para alguns um mistério, para outros, o moai que cansou de esperar de pé, preferindo sentar para não cansar.
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Moai sentado… esperar de pé cansa…

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Cada um tem sua expressão. Não há moai igual.

Embora estejamos em uma ilha, quase não há praias por aqui. Na verdade, a única que, de fato pode ser considerada praia, com areia branca e coqueiros é Anakena, onde, dizem as lendas, chegou o primeiro polinésio. Aí abro outro parêntese para um pouco de história. Imaginem que os colonizadores originais vieram do oeste, de outras ilhas da Polinésia, em pequenas canoas, navegando por um período estimado de 15 dias. Não havia nada além de mar entre as ilhas, e se “passassem direto”, a distância até o próximo ponto de terra seria de 3700km. Imaginem a loucura… viagem suicida, tudo ou nada. Isto sabendo que o Pacífico possui tempestades, tsunamis, ondas gigantes, e que, de “pacífico” não tem nada. Assim, quando HotuMatu’a desembarcou por aqui, colocou os pés no chão e estabeleceu moradia, com certeza deve ter ficado muito feliz. Deitado na areia, enquanto escrevo à sombra dos coqueiros (que só chegaram bem depois dos colonizadores) imagino a euforia dos homens e mulheres que haviam deixado tudo para trás na esperança de algo quem nem mesmo sabiam se era real. Conquistaram um paraíso graças a sua determinação, fé e trabalho árduo.

A praia paradisíaca com águas de todos os tons de azul, onde se pode enxergar peixes nadando sobre o fundo de coral é emoldurada pela história. Dois ahus, um com um moai solitário – que dizem ser a representação de HotuMatu´a, o primeiro colonizador – e outro com sete moais fazem com que mergulhemos no mar e ao sairmos enxerguemos a história diante de nós. Os moais são como portais do tempo; fechamos os olhos e nos transportarmos para uma Anakena ancestral, com suas areias brancas era, com certeza, palco de celebrações, danças, cantos e fogueiras.

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Sozinho, vigiando a praia, as lendas contam que este é Hotu Matu’a.

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Com certeza muitas das celebrações na praia eram de vitórias em batalhas. Como não haviam povos vizinhos para guerrear, os clãs locais lutavam entre si. Os rapa nui estavam no paraíso, mas isso parecia não bastar… Quando os europeus desembarcaram na ilha, todos moais estavam derrubados e virados para baixo. Como eram guardiões de suas comunidades, tombados, não “poderiam ver” o que aconteceria e nem exercer sua função protetora. Tornaram-se heróis caídos, derrotados em mais uma guerra insana. Sentimentos negativos se acumulam ao lado de cada ahu destruído… dor, perda, derrota. Se os moais erguidos irradiam energia ao seu redor, os moais caídos parecem pedir socorro, indefesos. Tento vislumbrar o que se passou aqui. Sento no gramado, escutando o mar diante de um enorme moai quebrado. Seu chapéu está longe – perdeu seu sinal de respeito -, seus olhos já não existem – a grandiosidade se perdeu. Sinto que o mar chora pelos moais como chora por seus antigos deuses… Poseidon, Netuno, Aegir, Sobek, Enki, Watatsumi, Njord … todos deuses caídos com os olhos voltados para o fundo, também tombados na história da humanidade.

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Moais derrubados… vejam o tamanho do “chapéu” vermelho ao lado dos turistas.

Os dias voaram, falta pouco para irmos embora. Resolvemos fazer uma última caminhada até o Complexo Cerimonial Tahai, onde há o único moai cujos olhos foram restaurados. No caminho vou guardando recordações… as mulheres com flores no cabelo, os hibiscos enormes nas casas, os carros com pinturas tribais, a infinidade de gringos de todos os países do mundo, os traços polinésios de muitas pessoas, os restaurantes deliciosos, as inúmeras lojas de artesanato, as “praias” artificiais (na verdade o mar represado e um pouquinho de areia), as goiabas por todo lado (nunca comi tanta goiaba), o piquenique na beira da estrada, o cheiro do mar, o som das ondas, o horizonte infinito diante de nós… Após tantos dias de sol, começa a chover. A despedida não pode vir de forma melhor. A chuva desce forte e disfarça as lágrimas enquanto me despeço do último moai. Meio tímido, aceno para ele, afinal, de olhos abertos, ele pode me ver e me retribuir com um sorriso. Só depende de nós transformar nossa imaginação em algo precioso. É isto que estou fazendo agora. Iorana, Ilha de Páscoa. Foi bom estar por aqui.

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O camping, de frente para o mar.

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Aventura na motoca….
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O único Moai com olhos restaurados, em Tahai.

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Vista de dentro de uma das cavernas que servia de refúgio em tempo de guerra.

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Na falta de praias, há algumas praias artificiais como esta na região mais urbanizada.

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Cenas do final de tarde… olhando o mar…

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Dia de ir embora… chuva para lavar a alma…. Iorana, Ilha de Páscoa!