Alta´s Impressões de Presidente Figueiredo – 100

Rios correm em meio a floresta e despencam em volumosas cachoeiras. Sob o céu sem nuvens voam araras e tucanos. Ao longo dos próximos dias posso escolher entre diversas cachoeiras onde gritos das crianças se misturam ao som das águas em uma alegre confusão. Presidente Figueiredo é repleta de sons, do ronco das águas que rasgam velozes a floresta amazônica à balbúrdia das pessoas que vem esquecer um pouco o cinza-metrópole que já domina Manaus e se banhar de verde. São mais de 100 cachoeiras e corredeiras que oferecem lazer para todo tipo de turista. Quer ficar deitado, quarando no sol? Tudo bem. É aventureiro e quer mergulhar com máscara e snokel, pular do alto de pedras, voar por tirolesas? Tudo bem também. Quer contemplar a natureza ou fotografar os pássaros e cachoeiras sem igual? Vai conseguir com certeza. Para quem quer badalação ou isolamento, hotel ou barraca, restaurante ou sanduba, Figueiredo oferece tudo isso e muito mais.

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Cachoeira da Pedra Furada. Nem precisa explicar o nome, né?!?

A pequena cidade, construída em uma ferida aberta na mata, foi batizada não em homenagem ao presidente do tempo da ditadura, mas ao seu xará, primeiro presidente da Província do Amazonas, ainda no tempo do império. Em sua época viviam por ali os Waimiri Atroari, povo ainda hoje arredio com os de fora. Não é a toa, suas terras foram sistematicamente invadidas e seu povo massacrado de todas as formas possíveis, até um passado não muito distante. A última vez foi com a construção de Balbina, alagando parte de suas terras, exatamente de onde eu escrevo.

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O único indígena que encontrei por aqui foi esta estátua, onde o indígena sai de dentro do cupuaçu, entre a onça e o tucunaré.

Balbina é um local muito bonito. Depois de percorrer o povoado, com aspecto de vila militar, construído para moradia dos funcionários responsáveis pela hidrelétrica, vim comer um tucunaré às margens do lago da usina. Uma garça passa voando e o sol se põe preguiçoso. Tanta beleza esconde a maior tragédia ambiental do Brasil, uma das maiores do mundo. Inaugurada em 1989, o lago formado por Balbina possui mais do que o dobro do tamanho do lago de Itaipu. Enquanto no Paraná produzimos cerca de 14 mil megawatts, em Balbina temos somente 250, que baixam até 50 no período de estiagem. Como o lago se encheu lentamente, a maior parte dos animais conseguiu fugir, mas as árvores não tem pernas e permanecem afogadas, gerando uma quantidade enorme de gases, muito maior do que uma usina que queimasse derivados do petróleo para produzir a mesma energia. Para piorar, poucos peixes resistem a acidez da água, o que torna um lago quase deserto, bem diferente da riqueza que encontramos nos lagos naturais de toda região amazônica.

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Vila de Balbina, com poucos moradores, asfalto e muitos postes de luz, lembra uma vila militar.

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Vista do restaurante. Bonito, não?!? Imagine quando passam as garças voando. Mas olhe lá no fundo… no horizonte…

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Este é o zoom… árvores mortas: Centenas, milhares, produzindo gases do efeito estufa continuadamente e sem prazo para pararem.

Ainda com o gosto do tucunaré na boca, mas com a tristeza da consciência na mente, estou agora no Complexo do Urubuí. Se falta energia em Balbina, aqui há energia de sobra, tamanho o número de pessoas que mergulha, pula em bóias, namora ou simplesmente se espalha nas diversas barracas para comer um peixinho frito e tomar um suco de cupuaçu preparado na hora. Como cada barraca tem uma trilha sonora individual, amplificada a incontáveis decibéis, fica difícil escolher onde ir: sofrência aqui, forró ali, pagode acolá. Tomo a decisão acertada e fico na margem do rio, onde o barulho das águas lava de meus ouvidos todas impurezas musicais que eu escutei.

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Em cada barraca um som diferente, a todo volume, disputando o gosto e os ouvidos dos turistas.

Adiante de mim passam meninos voando (tenho certeza de que você pensou: Alta, não seriam nadando? Ou boiando?) pela correnteza. Eles se jogam na água e descem quicando nas pedras, ora submersos, ora parecendo flutuar. Deu vontade de me jogar também, de tanta alegria que os sorrisos mostravam. Meus ossos não são tão resistentes, e restou a mim a lembrança do que escrevi quando estive aqui pela primeira vez, em 2006

“Na Corredeira do Urubuí resolvi seguir os meninos que se atiravam no rio e fiquei impressionado. Nem nos meus raftings ou no acqua-ride eu me senti tanto em uma máquina de lavar como desta vez. Tomei um “sacode” inesquecível, e mesmo não engolindo água, a sensação de não ter o mínimo domínio de onde se vai, quando se vai, além de ser arremessado para frente e para trás, foi inesquecível, mesmo eu só tendo encarado uma única vez”.

A sensação perdurou, então não precisei encarar de novo a máquina de lavar, digo, a corredeira do Urubuí. Ufa!

 

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Cenas do Urubuí. Muita água e muita gente… Os meninos passam voando, só a cabecinha para fora, igual a este aí de cima. Dez anos atrás eu me aventurei. Desta vez, não mesmo!!!

 

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Grilos, sapos, cachoeira e barulho da chuva na barraca. Me sinto imerso em um aplicativos de celular para relaxamento, aqueles com sons da natureza. Não poderia ter um fim de dia melhor depois de passar o dia entre trilhas e rios. Estou acampado ao lado de uma cachoeira que derrama suas águas em um lago com areias brancas. Agora há pouco eu lanchava com os pés na água olhando a lua cheia da Páscoa. As nuvens cobriram o céu enquanto acabávamos de comer e pouco a pouco os pingos preguiçosos se tornaram a tempestade que me levou para dentro da barraca. Cercado pela natureza, rodeado de água, tenho mais uma prova de que a Amazônia resiste e está bem viva. Se não podemos chorar sobre o lago já formado, ainda temos tempo de preservar o que resta, evitando repetir os erros. Para isso cada um tem que fazer sua parte. Isso não é discurso político, nem demagogia, mas o que escuto quando piso descalço na grama úmida, quando mergulho debaixo de uma cachoeira, quando, mais do que em quaisquer outros momentos me sinto vivo!

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Minha barraquinha estava aqui ao lado.

 

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Chegamos ao 100º envio das minhas impressões de viagem. Em 2005, após me mudar para o Amazonas comecei a contar histórias. O que inicialmente foi um e-mail enviado para cerca de 20 pessoas – as Impressões Amazônicas – aos poucos se transformou em uma forma de conversar com um grande número de amigos queridos. Obrigado por estarem comigo ao longo destes anos.

Para quem chegou mais tarde, pode conhecer tudo pelo link:
https://impressoesamazonicas.wordpress.com/impressoes-integrais/

Seja Bem Vindo!!