Alta´s Impressões de Roraima 98

Algumas histórias que vivemos são tão diferentes que por vezes custamos a acreditar que são reais. Isto é muito frequente quando convivemos com culturas diferentes da nossa, como nas histórias que vou contar.

– Doutor, esta criança não pode ir para a CASAI porque a mãe dela foi roubada.
Toda vez que uma criança Yanomami tem alta do hospital onde trabalho como pediara, é transferida para a CASAI – Casa de Saúde do Índio – onde espera o transporte para sua área. Neste caso não entendo porque não posso liberá-la. Se roubaram, devemos checar a segurança, falar com a polícia, mas nada além disso.
– Doutor, o senhor não entendeu – me informa a responsável pelos indígenas. Ninguém roubou nada da mãe. Ela foi “roubada” de seu antigo marido, e sua família está na CASAI. Se ela for para lá, vão “pegar ela de volta”.
O pai da criança estava ali perto. A mãe, jovem e bonita, com o bebê de alta mamando. Imaginei a cena: devia ser casada com um idoso – os Yanomami por vezes casam-se com quatro ou cinco irmãs – e preferiu fugir, quero dizer, “ser roubada” pelo rapaz.
Tudo explicado, mantive uma internação social. Tudo por um final feliz!

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Hospital é assim… mãe e filhos na mesma cama.

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Melhor na CASAI, onde podem andar e as vezes até festejar!

De longe ouço vozes e risadas no corredor do hospital. Ao longe um indiozinho e um venezuelano riem. Na medida que me aproximo percebo que um fala espanhol. O outro fala Yanomami. Falam e riem, como velhos amigos. E conversam muito, cada um em sua língua. Depois rolam no chão, falam mais e saem correndo juntos. Fico feliz ao ver que se entendem: falam a linguagem do coração.

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Amizade é rolar juntos no chão!

Aproveito a visita de meus amigos Paulo Bonilha e Fernando Chacra, pediatras da UNICAMP e vamos a CASAI. De repente um indiozinho corre até nós chutando uma bola e gritando: Neymar! Neymar! Percebo outro menino entre duas árvores, roubo a bola e faço um gol. Todos gritamos: Goool! E o indiozinho insiste: Neymar! Paulo chuta a bola e o menino se entusiasma e grita: Neymar! Perguntamos se gosta de futebol e ele responde: Neymar! 
É só Neymar! Neymar! Neymar!
Se os pequenos no hospital falam a linguagem do coração, este fala a linguagem do futebol!

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Lá vem ele! Neymar! Neymar! Neymar!17 12 casai Paulo Bonilha (15)
Neymar! Neymar! Neymar!

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Inspiração para tatuagens?

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Os imigrantes venezuelanos

Paro no sinal e logo um grupo de pessoas cerca meu carro. Alguns tentam vender algo, outros querem lavar meu vidro – mesmo que eu tenha lavado no sinal anterior – muitos só olham, segurando cartazes: “Trabalho de diária”, “Ajuda para comer”, “Faço qualquer serviço”, “Quatro filhos. Qualquer ajuda é bem vinda!”. A solidariedade dos roraimenses é enorme, mas não é fácil, quando a população em menos de um ano já recebeu um acréscimo de mais de 10% por conta dos imigrantes.

Meu pai é imigrante. Aos 14 anos deixou Portugal em um navio e veio encontrar com os irmãos mais velhos e “fazer o Brasil”. Minha filha é imigrante. Aos 23 anos enviou o currículo para o mundo árabe e já tem 4 anos de boas experiências para contar. Talvez por estes motivos eu por vezes fico emocionado quando me pego pensando na tropa de venezuelanos que a cada dia desembarca em Boa Vista tentando pelo menos sobreviver e dar alimento seus sonhos.

Diariamente atendo venezuelanos no hospital, e em alguns dias falo mais espanhol do que português. No começo vinham somente das cidades de fronteira, mas hoje vem cada vez mais de longe, até da capital. Alguns vem só em busca de tratamento médico, e chegam em situação muito crítica. Outros vem ao hospital por adoecerem, o que muitas vezes é consequência das habitações improvisadas, da falta de vacinação em seu país de origem (há mais de 20 anos eu não atendia nem sarampo, nem difteria) e da falta de comida.

Em frente ao hospital onde trabalho, um acampamento cresce com vida própria. Velhas barracas, lonas e plásticos oferecem moradia a venezuelanos que fogem da crise em seu país. Agora, saindo do trabalho passo por três deles. Vem repletos de malas, bolsas e esperanças. O olhar é de dúvida, insegurança ou, talvez, medo. É aquele olhar para todo lado de quem está perdido, em busca do inexistente ponto de referência que os possa conduzir para um porto seguro.

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Na praça Símon Bolívar a placa deixa claro: Bienvenidos a Boa Vista!

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Difícil deixar o mínimo que tinham para viver assim… esperando o tempo passar em busca de algo que talvez nem saibam bem o que é.

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Pouco a pouco a vida na praça melhor. Alguns usam toldos, mas os mais modernos tem até barracas.

"Eles não tem nada, que triste", diz uma mulher que passa ao meu lado vendo as crianças correndo, algumas com pouca roupa, outras sem roupa nenhuma, enquanto seus pais, ao longe, conversam. Como podem parecer tão tranquilos em meio a tanta miséria? A resposta parece estar no que a mulher não conseguiu enxergar. Longe de casa, fugidos de um governo que os ignorou, da fome que os maltratou e da falta de perspectiva que os devorava, agora eles tem alguma coisa. Agora eles tem esperanças e sonhos, por isso, em meio ao aparente nada,  ousam ser felizes.

Não é muito fácil para quem recebe, mas com certeza não é fácil para quem vem. Abrem mão de suas casas, suas referências, suas raízes para dormir em uma praça. Não é nada fácil. Que possamos ter, pelo menos um olhar generoso e acolhedor.

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Lago do Robertinho

Há alguns anos um novo lugar começou a ser visitado pelas pessoas de Roraima, o Lago do Robertinho, e todos com a mesma opinião: o lugar é lindo! Vale a pena! Experimente! Demorei, mas estou aqui .
Se quer tranquilidade, o segredo é chegar cedo. Se quer agito, barulho, festa, melhor chegar um pouco mais tarde. Eu acabo de chegar e são pouco mais de oito horas. Tenho o lago todo para mim. Posso escolher entre pegar um solzinho na praia de areia branca ou aproveitar a água antes das crianças, banana boat, pranchas de SUP e tirolesas passando sobre minha cabeça. Embora eu tenha certeza de que vai ficar bem cheio, a sensação agora é que o Caribe é meu. Só me resta uma dúvida… em que rede vou deitar, enquanto aproveito o sol da manhã me refrescando com as ondas preguiçosas que vem me visitar enquanto escrevo para vocês. Ô vida!!! Vou aproveitar… o lugar é lindo! Vale a pena!

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Este é o Lago do Robertinho. A única dificuldade do Kim e do Marcos é escolher a rede…

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