Impressões Amazônicas 39

Amigos,

Orgulhosamente comunico que o Impressões Amazônicas agora tem sua casa. Visitem https://impressoesamazonicas.wordpress.com Como está no ar há muito pouco tempo, acredito que existam várias falhas que espero que apontem para que eu possa corrigir.. Lá tem tudo que envio para vocês e um pouco mais. A diferença é que é “fragmentado”, para ficar com cara de blog. A arte do banner e do botão é do meu amigo Beto Basso, artista de mão cheia, flautista empolgado e odontólogo nas horas vagas… ou será o contrário? Sei lá, mas que ele é bom, isso é.

Ajudem a divulgar, sugiram melhoras, opinem,

Abraço no coração, Altamiro

Aldeia Kranh-Apari, Novembro de 2006

07 11 KAP (60)

Ontem a noite recebi a ligação de uma enfermeira: “Altamiro, estamos com um surto de diarréia em uma aldeia. Temos que fazer uma missão lá. Você pode ir hoje?” Concordei na mesma hora, me sentindo um verdadeiro “médico sem fronteiras”. No aeroporto achei estranho tudo estar vazio, sem mais ninguém. O piloto me informou que só eu mesmo iria, ou seja, “eu” era a “missão de um homem só”. Me senti um Bruce Willis indo em missão no meio de uma selva lutar contra exércitos inimigos. Missão foi um ótimo nome que arranjaram para me convencerem a me aprontar rápido.

Com tudo isso o avião quase não saiu… estava chovendo muito. Isso me trouxe saudade das chuvas em BC, quando toda água que eu bebia vinha dos céus. Agora, já na aldeia, a técnica de enfermagem aproveitou a chuva da tarde e em poucos minutos encheu alguns baldes. Haja água.

Eu tinha que ter vindo na semana passada. Este final de semana foi o encerramento da festa, que durou mais de um mês com danças quase todas as noites e teve seu apogeu há três dias atrás.

Noite na aldeia. Desde o final da tarde as pessoas se juntam na praça central para cantar e dançar. Depois de tanto tempo de festa parece que ninguém quer acreditar que o festejo acabou. Descobri que foi a Festa da Mandioca, uma das poucas em que homens e mulheres dançam juntos. Assim como em nossas festas do Divino, há um “dono da festa”. Este não dança e ainda fornece toda a comida para todo mundo. Ah! Aqui não tem bebida alcoólica, diferente do que acontece em outras etnias.

Eu começo a entender também porque os indiozinhos choram tão pouco. Hoje brincavam dois meninos, um de uns três anos e outro com um pouco menos de dois. O menor corria e caiu de cara no chão. Além da mãe ainda havia umas quatro mulheres por perto. Alguém se moveu? Nem um milímetro. Sabiam que não tinha machucado, então pronto, que se virem sozinho. Por outro lado, quando há dor de verdade, são mães carinhosas e protetoras, que deixam claro amar seus filhos.

07 11 KAP (16) Escola na aldeia

Aldeia Kikretum, Abril de 2007

Tem algumas coisas que não tem preço. Início de tarde na aldeia Kikretum e lá vou eu em direção a duas aldeias a beira do Rio Fresco, onde os indígenas plantam suas roças e aguardam a temporada de castanha. Nas duas comunidades, Urubu e Arara eu fui fazer consultas e avaliação nutricional. Para isso levamos além do meu equipamento uma balança móvel e uma caixa de medicamentos. A população adora o atendimento domiciliar e logo todo mundo cerca a gente para ser avaliado. O rosto das crianças, a senhora consultada com um periquito na mão, o jabuti “embalado para viagem” que nos acompanhou no barco, tudo isso me faz feliz pelo meu trabalho.

CONVAR350 Jabuti “embalado” para viagem.

 
Eis que entre uma aldeia e outra o tempo muda e o sol se esconde por trás de nuvens de chuva que surgem rapidamente, lembrando que aqui ainda é sim, parte da Amazônia. Embora tudo fique subitamente escuro, enquanto o piloto acelera a voadeira ainda conseguimos ver uma família de capivaras saindo da água e um veadinho que foge ligeiro ao ouvir o ruído de nosso barco. Este é o tipo de coisa que não tem preço.
Debaixo de chuva fiz o atendimento no Arara. Balança encostada ao pé de uma fogueira pesamos as crianças, gordas de tanto comer peixe e fruta, mas com barrigas que mostravam que lá dentro tinha algo mais além de comida. E o chefe da comunidade, logo confirma: “Dotô, aqui todo mundo tem saúde. A única coisa que as criança precisa é “teprandjá kanê” (remédio de verme)”. Valeu a visita!

CONVAR358 Barco apontando o horizonte… balança a postos.

CONVAR402  Pesando na aldeia… do lado do fogo e do cachorro.

Noite em Kikretum, hora de dormir. Chega um índio dizendo que sua avó estava passando muito mal e pedindo para voltarmos no Acampamento Arara, onde sua família cuidava da roça. Daqui p/ lá são 15 minutos de voadeira. Foi como um sonho. Noite muito estrelada, com um fiapo de lua crescente enfeitando o firmamento. Além de mim e da auxiliar, três indios viajando em silêncio. O grande rio Fresco, tributário do grandioso Xingu refletia o brilho dos céus em uma noite agradável. Ainda que eu soubesse estar trabalhando, nada tirava o encanto. Luzes ao longe, estávamos chegando. Luzes estranhas, não eram o que eu esperava. Em plena floresta a iluminaçâo mostrava o rosto de Fátima Bernardes no jornal nacional. É, já não se fazem mais acamamentos de índios como antigamente. A índia? Ficou melhor, mas sofreu bem com uma crise de vesícula.

Gorotire – Abril 08

Hora do almoço. Quando imaginei que iria descansar dos mais de 40 atendimentos da manhã, escuto o inconfundível choro das mulheres Kayapó. Como não chegou avião nem carro, não é parente chegando – o choro é tanto por tristeza como pela alegria de um reencontro – e logo vem a confirmação de uma morte em Redenção. O choro é cíclico. Horas de silêncio se sucedem a instantes que toda aldeia parece chorar em uníssono.

O morto será velado em sua própria residência, sobre uma manta no chão. Ele é enfeitado com seus adornos de festa: brincos, pulseiras, braceletes e pintado da forma tradicional – a pintura é muito importante e acompanha o Kaiapó em toda sua vida. Os momentos de choro se alternam com os de dança e cânticos em homenagem ao falecido, ao longo da noite e do dia seguinte, até o momento do enterro.Todos os pertences do morto o acompanham: colchão, roupas, utensílios e tudo que tivesse proximidade a ele ou puder lembrar a ele. É comum famílias ficarem sem nada após a morte de alguém importante, sendo que, se a morte ocorrer no domicílio, a casa costuma ficar abandonada. A esposa pinta o falecido, raspa sua cabeça e após o enterro evitará sair em público, só o fazendo em casos extremos, quando falará em voz baixa, quase sussurrando e não usará pintura. O luto só acaba quando seu cabelo cresce novamente e ela pode se pintar.

Por existirem muitos Kayapó cristãos o sincretismo religioso é evidente. Estes influenciam os animistas e vice-versa. O morto não vai para o paraíso, mas pega seus pertences e segue ao encontro de seus parentes e amigos falecidos. Este caminho pode ser longo e o morto pode permanecer próximo e não querer ir sozinho, o que causaria outras mortes por “doença de índio”. Por isso o medo de me karon, isto é, fantasmas, é generalizada. Não se fala do morto para não atrai-lo para perto de si, especialmente se for alguém próximo. Após algum tempo (não consegui descobrir quanto) o pajé, que transita entre o mundo físico e o espiritual, vai a procura do morto para certificar-se que está bem, em companhia de parentes e traz a notícia, tranqüilizando finalmente a família.

Hoje percebi que a morte, assim como a alimentação, sexo e família, também são muito características de cada sociedade. Poucas horas após escrever o texto acima e do enterro, ao final da tarde, percebo que estou atendendo aos filhos do morto. Depois atendo uma mulher que julgava ser uma tia e pergunto o que ela tem. Responde falando sobre gripe e dor no pescoço. Vendo a ficha percebo que é a viúva, que ainda não cortou o cabelo (ela só faria isso ao dia seguinte, junto a sua sogra). Faço a receita e ela se vai com as crianças, como se fosse um dia qualquer.

Fiquem em Deus,

Altamiro

07 08 GRT (61)

Vida de Enfermeira não é fácil. A indiazinha tem medo de voar… e se agarra na Thatiana.

 2008 01 GRT (71)

Cena raríssima. As mulheres me pediram uma foto! Desfile de vestidos!

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6 comentários Adicione o seu

  1. Charles disse:

    Caro Tata
    Fico muito feliz pelo seu blog e ao mesmo tempo decepcionado.
    O blog deixa tudo a mão e vou confessar que eu já curtia ficar esperando o impressões amazônicas que serviam como desculpa para parar o trabalho e relaxar por uns 10 minutos.
    De qualquer forma parabéns.
    Meus planos de viagem para região foram se adiando e acabei não indo.
    Abraços
    Charles de Sirovy

  2. Mauricio Moutinho disse:

    Fico imaginando o livro que esses relatos dariam. é reuní-los, dar uma burilada no texto e mandar brasa…
    abraços!

    Mauricio

  3. Carmen Barreira disse:

    Ficou lindooooooooooooooooo.
    Parabéns, agora suas aventuras estão no mundo.
    Beijos,
    Carmen

  4. Everardo Lopes disse:

    amigo da paz altamiro, boa noite.
    que boa noticia você nos dá além das impressões amazonica agora o blog, fico feliz pela sua luz andar por esse mundão das magias da “inocência”.
    acabo de receber uma mensagem da minha amiga india tuxá (edilise) de rodelas da bahia.
    muita paz
    everardo

  5. Valéria Araújo disse:

    Dr Alt
    Parabéns pela página e pela pessoa que você é.

    Da Terra Molhada com “Xeiro” de Mato

  6. Carlos Frederico dos Santos disse:

    Amigo Altamiro;
    Desde que recebi pela primeira vez suas “Impressões Amazônicas” tenho pensado em respondê-lo para manifestar o orgulho que sinto pelo trabalho que você realiza. Me atrevo a afirmar que isso sim é escotismo de verdade. Não posso negar que sinto uma pontinha de inveja por não ter condições (ou coragem) de fazer algo parecido.
    Recebo cada nova “edição” com muita alegria e ansiedade na certeza de vou conhecer um pouco mais da realidade desse nosso Brasilzão, através de seu relato e de suas fotos.
    Na verdade optei por outra trincheira. Aos 14 anos quando ingressei no Partido Comunista Brasileiro e na luta estudantil, acreditava que poderia fazer a revolução socialista e transformar o Brasil numa pátria justa, solidária e igualitária, onde o povo seria tratado com primazia e o dinheiro não seria o centro das atenções do poder público. Infelizmente minhas espectativas foram naufragando no grande mar de lama que esse país se tornou. Velhos companheiros (alguns inclusive que ajudei a eleger) são, agora, patronos ou cúmplices das grandes bandalheiras. Mas não estou escrevendo para me lamentar. Quero é registrar o quanto me gratifica saber que existem pessoas com o espírito nobre e a abnegação (quase Franciscana) necessária para deixar o conforto das grandes cidades e meterem-se na Mata Amazonica movidas pelo compromisso de SERVIR.
    Nossos amigos (Fábio, João Rodrigo, Tadeu, Bolívia, etc, etc, etc) diriam que eu estou de viadagem ou querendo seu voto pra alguma coisa, mas creia NEM UM NEM OUTRO!!!!!
    Quero só registrar que conto, orgulhos, pros meus filhos que tenho um Irmão escoteiro, médico que foi trabalhar no meio da floresta pra ajudar a salvar a vida de índios e que ele transmite em seus relatos o prazer e a alegria com que faz isso.
    Receba o meu abraço, meu sempre alerta e saiba que vou incluir em minhas orações o pedido para que Deus permita que você consiga enfrentar as dificuldades e, por fim, ajudar nosso povo a superar suas mazelase.
    FRED

    Ps. mande mais fotos, ajudam a conhecer a Floresta e seu povo

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