Impressões Amazônicas 40 – do hemisfório norte

Aldeia Las Casas – Município de Pau d´Arco

las casas ago 07 (18)  las casas nov 07 (18)

Estive pela terceira vez na aldeia de Las Casas, e esta foi diferente porque pela primeira vez dormi por lá. Esta é a aldeia mais próxima a Redenção – embora fique em outro município e é a única onde o celular funciona. Apesar da aparente tecnologia, e sendo a única aldeia onde temos uma “cacica” que realmente manda, nem tudo são flores por aqui. Não há energia elétrica e a água é precária. O banho para muita gente é feito em uns chuveiros coletivos, no meio da aldeia, daquele mesmo tipo que se vê nas praias. O mais engraçado é que o banho por lá é feito ou de calcinha ou, como na maior parte dos casos, com o velho e tradicional vestido de nira. Elas passam o sabão – quando tem – por cima dos vestidos… e depois não entendem porque tem tanto problema de pele. Aliás, falando em banho… já contei como elas secam os longos cabelos?? Balançam o cabelo de um lado para o outro, com uma violência sem igual. É até engraçado. E falando em cabelo, agora a falta de cabelos. A gente não se dá conta de como os cílios protegem os olhos, não? E as sobrancelhas? Pois todo dia atendo crianças e adultos com irritação nos olhos. Lembrem-se que eles, desde novos tem os cílios e sobrancelhas arrancados meticulosamente.

las casas ago 07 (4) Enfermeiras Thatiane e Renata e o AIS Bepore, medindo Memyr em Las Casas

Há outro hábito interessante que já presenciei. Por volta dos 13 anos os meninos são comprometidos como noivos. Há toda uma cerimônia que ocorre e após esta cerimônia os jovens usam uma corda em volta do pescoço que atesta o seu novo estado. Esta foi a melhor forma que já vi do que representa um noivado… A corda já está no pescoço e a qualquer momento pode enforcar…

-x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x- x-x-x-x-x-

“Eu tomo o rumo norte agora, eu já começo a caminhar, talvez um dia ainda volte baby, não precisa me esperar…”

Estou preparando minha despedida do Sul do Pará, após dois anos de moradia nesta terra onde a justiça ainda é injusta, e onde o boi tem mais valor que o ser humano. Continuarei seguindo meu rumo nestas terras amazônicas, agora mais ao norte e novamente uma hora de fuso adiantado em relação ao presidente da república, morando em Roraima.

Toda vez que preparo mudança fico reflexivo. Ontem então, pude vislumbrar algo que nunca tinha visto antes, com certeza favorecido pelo céu sem igual do planalto central. Pela primeira vez vi o sol se pondo como bola incandescente a oeste, tendo do lado oposto do firmamento a lua cheia já visível. Foi impressionante, pois não sabia para que lado olhar. Me deu a certeza que não há com que me preocupar, pois, ainda que não percebamos, Deus sempre é generoso e está iluminando nosso caminho. Motivo da mudança? Digamos assim, que meus direitos trabalhistas não estavam sendo cumpridos… deixa para lá…

Boa Vista do Rio Branco.

Assim se chamava a cidade, até que, para não ser confundida com a capital acreana, se despediu do Rio Branco, mantendo porém a Boa Vista. E, se não dá para entender como um rio castanho pode ser alcunhado branco, dá para entender a Boa Vista. Esta foi talvez a melhor recepção que tive, já no segundo dia em terras Roraimenses: o nascer da lua, por trás do Rio Branco. Enorme, cheia, linda, fazendo juz a Boa Vista do nome. Minha vista ficou cheia da beleza branca da lua sobre as águas escuras do Branco.

Roraima é o estado menos povoado do Brasil, tão desconhecido que nem saber pronunciar o nome certo os outros sabem. Fala-se Roráima, com o “a” agudo, e não como falamos no Sul, nome que significa “montanha azul esverdeada”. Esta montanha enorme, uma das formações geológicas mais antigas do planeta, é considerada a morada do deus Makunaima, pronunciado diferente por aqui, como se houvesse um acento agudo no segundo “a”, e não como sempre havia escutado, com destaque no “i”.

A capital é bem planejada, daquelas que a gente aprende a andar rapidamente. É uma cidade de oportunidades, em crescimento e com futuro previsível, diferente de Palmas, já pronta para um futuro que não sei se vai chegar algum dia. Boa Vista já parece acabada: ruas arborizadas, com a presença constante da natureza (papagaios passaram voando outro dia no bairro onde moro) se alternam com prédios e grandes construções. Comércio no centro, sossego nos bairros, ruas asfaltadas, presença de órgãos federais, estaduais e municipais em um só lugar.

Apesar disso, o deslocamento não é fácil sem carro, especialmente para quem vem da periferia. Não há praticamente ônibus, a opção são as lotações, que na verdade são táxis que circulam do centro para os bairros. A regra é simples: de bairro para centro (nada de van) ou de centro para bairro, 2 reais. Se vai de um bairro para o outro, passando pelo centro, 4 reais. Melhor do que os 3 reais do mototaxi de Redenção, que rodava bem menos e ainda era perigoso.

O transito é bom, por avenidas largas e ruas com poucos carros. No final de cada cruzamento há as “bolas”. Este é o nome pelo qual se conhecem aqui e em Manaus as rotatórias, rotundas ou rótulas, conhecidas em Palmas pelo simpático nome de “queijinho”.

A alimentação é bem próxima a do Amazonas, com muitos frutos. Tem desde os populares mamão, banana, laranja e maçã aos regionais, como o açaí, buriti (tomei um picolé delicioso) e a pitomba.

IMG_4695  IMG_4692

Come-se também muito peixe, carneiro, macaxeira e farofa com banana. Farofa aqui é a mistura de carne de sol desfiada com farinha, semelhante a encontrada em outras regiões, largamente consumida junto com banana. E já vi gente comendo isso até na rua: a mão esquerda segura o pote de farofa e a mão direita maneja a colher e segura a banana… Uma mordida na banana, uma colherada de farofa.

Não estou mais trabalhando com saúde indígena, mas ainda tenho muitas histórias dos Kaiapó para enviar. Além disso, no hospital de pediatria sempre tem indígenas internados. Ontem havia vários Yanomami lá, o que deixa claro que logo terei histórias para contar como a respeito dos nomes deles. Já viram que adoro nomes, né? Será algum trauma por causa do meu?? Risos…

Os Yanomami tem vários tipos de nomes. A primeira peculiaridade é que as crianças só ganham nome quando tem mais um ano. Assim elas são chamadas de Filha de Xolaisi ou Terceiro Filho de Malinami ou Quinta Filha de Ilianama. Os nomes tanto podem ser tradicionais, como estes que eu mostrei, como herdados do contato com os não-índios. Assim, já se encontram entre eles nomes ocientais “yanomamizados”, como Elica, Xuliana, Suleka (Zuleica), Taniela, Xiuta (Gilda), Xelautino (Geraldino), Mixeo, Plisila (Priscila), Nasale (Nazaré) e Esmael. Além disso há nomes que são adotados por sua sonoridade, o que nos faz encontrar: Moreninha, Mosa (Moça), Puneka (Boneca), Tijela, Safado e Kasula.

Achei também um Sahanei… seria tradicional ou homenagem a um antigo presidente? : )

Beijos pra todos e todas,

Altamiro

IMG_4971   IMG_4972

Não me perguntem que não sei explicar… mas na minha rua tem este Concorde estacionado no teto de uma casa. E uma casa bem diferente… está lá… o concorde, as placas, o portão…

9 comentários Adicione o seu

  1. Elizangela Miranda disse:

    Oi meu bem… como vai a minha trancinha favorita?

    Vc. nao para quieto mesmo hem!!!! Vc. e qm. esta certo o q. tem raiz e arvore.
    Sou fa #1 das Impressoes Amazonicas. Adoro ver as suas fotos e ler sobre as suas experiencias.
    Obrigada por envia-las.

  2. Carmen Barreira disse:

    Simplemente,maravilhoso esse relato.

    Saudades,
    Carmen

  3. Gero disse:

    Altamiro,
    é realmente gostoso receber suas cartas, esses relatos indigenas enchem a minha alma porque para mim são o melhor exemplo de integração não só com a natureza, mas tb consigo próprios (ou eram). Parece que eles não têm estresse, depressão, ansiedade e essas doenças de quem se dá o direito de se julgar superior (ou inferior). Porém acho muito estranho um banho tomado em chuveiros precarios e sob a roupa. Roupa?! Eu cheguei a conhecer e pernoitar com uma tribo na Guiana, e eles tinham o horário do banho e o local no rio, acho que eram dois banhos por dia, eu queria aqueles banhos para mim, sabe ter um rio limpo no quintal? Mas os vejo agora adotando nossos hábitos. O do vizinho é sempre melhor, né? Daqui a pouco teremos psicologos fazendo trabalho engajado semelhante ao seu. Sou um tanto contra o desenvolvimento (torto e equivocado que adotamos), por mim a gente parava o mundo enquanto é tempo…
    grande abraço
    Gero

  4. Marc disse:

    Boa noite Altamiro,

    É sempre bom ler seus relatos e as imagens anexadas!
    Fico feliz de ter um amigo médico, escritor e entusiasta da nossa querida amazônia.
    Em Roraima, está mais perto de Manaus. Quando quiser matar saudade da terra de cá, avisa!!
    Um grande abraço e boa estada em Roraima!
    Marc.

  5. Olair Rafael disse:

    inveja mata?
    transformei em AD- MIRA ção (ação de VERMOS JUNTOS)
    grande garoto , um dia nos encontraremos num
    grande ABRAÇO
    Olair Rafael – Médico Homeopata ETERNO APRENDIZ

  6. Ricardo Coelho disse:

    E tudo isso é o Brasil!

    Boa sorte na nova jornada!

    Sempre Alerta,

    Ricardo Coelho dos Santos

  7. Gisele Mêne disse:

    Simplesmente maravilhosas suas impressões…
    O leitor viaja nas ricas descrições e vivencia tudo o que ler…
    Eu adoro Boa Vista! Foi onde passei varias férias de infância …Ainda tenho tenho tios e primos ai e de vez em quando passo um final de semana prolongado , adoro!
    Desejar boa sorte é gentil mas além de boa sorte desejo um recomeço ou a continuidade de uma vida de rodeada de muito sucesso, paz e saúde p/ toda família!
    Abraços e parabéns pelas impressões!
    Gisele Mêne

  8. Iracema disse:

    Apreciei bastante as sua impressões e estou divulgando o site.

    Quanto a última foto… eita povo exótico!

    Beijos,
    Iracema

  9. Danielle Cipriano disse:

    Adorei, como adoro tudo nas IA. Quando vai publicar? Se é um grande sucesso no internet, por que não nas livrarias? Abraços da Amiga Dani

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s