Impressões Amazônicas 41

Amigos, agradeço as muitas visitas no blog
(https://impressoesamazonicas.wordpress.com) e os comentários amigos.
Já atingimos 3946 visitas em pouco mais de um mês. Neste período ganhamos
novos amigos, o que me deixa muito feliz, pois como disse Madre Teresa
de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença
sem se sentir melhor e mais feliz”. E o mesmo vale para estes textos:
não quero que ninguém leia e não deixe de se sentir melhor.
Devido aos comentários no blog, seguindo sugestão da Carolzinha,
preparei um texto para enviar em breve especialmente sobre a educação
dos Kaiapó. Gostaria também de comentar uma frase da Iúna (excelente o
blog dela. Visitem em http://depauperioosimproperios.blogspot.com) “eu
pensava que todas as tribos fizessem a cerimônia do mingau, para tomar
com as cinzas do morto”.
Para os que não sabem, os Yanomami, como os Kaiapó, descartam todos os
objetos dos mortos. Diferente contudo, dos Kaiapó, eles queimam os
objetos e não os enterram. Os mortos também são cremados, e as cinzas
transformadas em um mingau que é comido pelos parentes mais próximos.
Lembrem que os Yanomami tem menos de 40 anos de contato com os brancos
e estão localizados em uma das regiões de mais difícil acesso no
Brasil.

————————

Primeiros Contatos Indígenas
Sempre fui curioso acerca dos índios. Aquele índio mítico, emplumado e
despido povoava meu imaginário como de todo brasileiro que passou pela
escola e conheceu José de Alencar.
Consegui encontrá-lo, até certo ponto entre os Kaiapó e mais
recentemente, de forma mais genuína, com os Yanomami. Me sinto feliz
por conseguir testemunhar a presença de um passado que insiste em
resistir em meio a modernidade homogênea do hoje.
Apesar disso, meu primeiro contato interétnico não foi tão genuíno
quanto imaginava. Estava em Blumenau, tomando café da manhã em um
hotel quando escutei alguém falando com sotaque espanhol. Não lembro
bem quem puxou papo, se fui eu ou foi ele, e logo descobri estar
conversando com um indígena do Acre. Muito simpático foi logo
explicando o sotaque pelo fato de morar na fronteira e me contou que
estava voltando de um “giro pela Europa” com a esposa. Ainda não
entendia muito sobre a questão indígena, mas descobri que era uma
liderança nacional, ainda que sem penas e sem tanga.
Na despedida recebi um cartão de visitas. Nome, foto na Europa e …
“índio”. É para quem pode, e não para quem quer…

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Aldeia Kriny

Na minha arrogância de cidade grande, ecólogo, leitor voraz de tudo
que se relacione a natureza, insisto em ignorar o perigo das onças.
Sempre que me dizem que viram uma onça penso logo em jaguatirica,
aquele gato vitaminado, com a pelagem igual as pintadas. No máximo
penso em uma parda, bem maior, mas mais urbana que sua prima e
portanto mais facilmente avistável. Onça perto de casa? Acho difícil,
pois onça é inteligente, não gosta de proximidade com gente, sabe que
o perigo que corre é ainda maior do que o perigo que oferece. Além
disso onça gosta mesmo é de mata, onde pode caçar veados, antas,
preguiças, pacas e capivaras, que por motivos óbvios de sobrevivência
não chegam nem perto das casas.
Hoje tudo mudou. As seis horas fomos acordados no posto de saúde da
Aldeia Kriny por uma moto buzinando insistentemente. Trazia um senhor,
o Seu Filó, com a calça rasgada por uma suposta mordida de onça que
ele abateu a golpes de machado. Você acreditaria? Enquanto fazíamos o
curativo chegou uma senhora que, curiosa como todo Kaiapó quis saber o
que havia acontecido. Logo cerca de quarenta indígenas cercavam o
posto para ouvir a história. Embora não entendesse o que diziam, pelo
gestual e expressões era clarão que as mães alertavam os filhos quanto
ao perigo da onça. Já os mais velhos olhavam tão desconfiados quanto
eu… Um kubenget (ancião) matando uma onça com machado? Sei não.
Fui atrás e consegui uma carona de moto até a casa, a três quilômetros
da aldeia. E não é que a tal onça era onça de verdade, com pelo menos
uns 80 kg? A onça havia matado o cachorro da família, quebrando o seu
pescoço e passeado na varanda (as pegadas não deixavam mentir) as
cinco da manhã. O barulho da luta acordou a família que correu armada
para fora (tutti buona gente!) e meteu dois tiros na onça, que então
caiu. Acreditando que estava morta, seu Filó chegou perto e a bichona
deu último bote, sendo finalmente abatido com o machado. Baita susto.
Paguei a língua mas fiquei triste. Apesar disso sei que eu também não
deixaria um bichão daqueles na minha varanda. Triste é ver que, pela
degradação da natureza os contatos aumentam cada vez mais.
O pior é que agora nem sei mais como fazer para sair no meio da noite
para o velho xixizinho no meio do mato…

Aldeia Mokarakô – Beira do Rio Fresco

Saí cedo para fazer atendimento nos acampamentos de castanhas. Viagem
gostosa, pelo Riozinho numa manhã fresca. Íamos eu, uma enfermeira,
uma técnica e dois indígenas, o barqueiro e o AIS.
Os acampamentos são no meio do mata e duram de 1 a 3 meses. Ao
contrário da visão imaginária do indígena, as coberturas de plástico
ou lonita, substituem muitas vezes as coberturas de tradicionais
vegetais. Sob o teto, colchões velhos, colchonetes e até uma ou outra
barraca tipo iglu.
Nós viramos atração turística, especialmente para as muitas crianças
que brincam, em sua maioria peladas.
A falta de cuidados com os restos alimentares, dejetos fisiológicos,
a pouca roupa, os piuns e mosquitos, explicam bem o porque de tantas
lesões de pele. Eu atendo sobre um saco de castanha e as crianças são
pesadas em balanças móveis penduradas nos tetos das barracas.
Se a ida foi suave, pouco menos de 1 hora, a volta está prevista para
pouco mais de 4 horas. Menos pela corrente contrária do que pelos
passageiros. Se na ida éramos 5, na volta somos 9 adultos, 4 crianças,
1 papagaio, 3 periquitos, 1 filhote de cruzcredo, digo de tucano
pelado, 1 filhote de cachorro e 1 filhote de quati, 1 jabuti pra
jantar, mais alguns sacos de castanha.

Esporte Espetacular

Vocês sabem qual é o esporte favorito dos indígenas? Futebol. Ganha em
disparada, sendo praticado tanto por homens quanto por mulheres.
Gorotire então, a maior aldeia dos Kaiapó, tem um campeonato
disputadíssimo e muito duro (não sei se é mais duro de ganhar, ou duro
de se ver…), com oito times: Guairá, Pará, Kaiapó, Sucuri, Juvenil,
Gorotire, Grupo K e Novo Horizonte. O atual campeão é o Guairá.
Boa Olimpíada, bom dia dos Pais, fiquem em Deus,
Altamiro
Fotos:
1 – Futebol em Kranh-Apari. O campo fica exatamente no meio da aldeia.

07 11 KAP (15)
2 – Time de Meninas de Pukararankre. A foto é de minha amiga Inácia.

DSC00001
3, 4 – A onça… o seu Filó. No fundo da foto que aparece a menina,
aparece a casa… imagina uma bichona no seu quintal… e por questão
de não saber quem gosta de filme de terror, não enviei a foto do
cachorro da família, após uma “conversa” com a gatona.

07 11 kriny (16) 07 11 kriny (19)
5, 6 – Na saúde o importante é não perdermos oportunidades. A
vigilância nutricional acontecia o tempo todo nas aldeias! Mesmo para
quem queria fugir voando ou quem era recém-nascido…

07 11 KAP (34) CONVAR404
7 –  Casa do Índio de Boa Vista. Começo a trabalhar aqui! Amigos da
saúde indígena, sintam uma ponta de inveja saudável!

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13 comentários Adicione o seu

  1. Isolda Vianna disse:

    Oi querido! sabe que eu sou fã das impressões Amazonicas, né? tudo bem? beijos em todos,
    Tia Isolda

  2. Olair Rafael disse:

    GRANDE

    Alta
    Miro

    Vi
    Lhena

    fico muiiiito contente com sua presença MARCANTE assumindo o nosso Brasil.

    Parabéns, de verdade e coração.

    eu, por meu lado estou envolvido em EDUCAÇÃO EM SAÚDE e ainda vou usar seus conhecimentos e MATERIAL com vistas a ORIENTAÇÃO NUTRICIONAL.

    paralelamente estou aprofundando meus conhecimentos do q sempre me atraiu: a maneira em q JESUS, O CRISTO foi EDUCADO… estou lendo muita coisa da CONGREGAÇÃO ESSENIA DO BRASIL e devo preparar um palestra sobre o tema.

    ‘de preparatorio’ , para este mes, vou falar do ‘sermao da montanha’>>> arrumei um caminhao de material, agora eh lapidar, o q eu me entrego: visualização e antecipação (da palestra, o q estou fazendo aqui-agora!).

    jah frequentei algumas ‘escolas de mistérios’ em busca da origem do CRISTIANISMO primitivo, q intuí desde os 12 anos , há quase 40 anos!!!>>> “faça aos outros o q gostaria q fizessem para ti, e aos teus”.

    M. Obrigado .’.
    Olair Rafael Eterno Aprendiz
    Pediatria, Homeopatia, Med. Trabalho
    Orientação nutricional e reeducação alimentar

  3. Jesus disse:

    Ola meu amigo,
    Sempre muito obrigado por suas cartas e interesantes impressoes Amazonicas, tao bonitas fotos.
    Suo amigo Jesus nas Caymans

  4. Gero disse:

    Altamiro,
    Não dá para ler suas histórias e ficar indiferente. E você escreve sem ser tendencioso
    para nenhum lado, vira e mexe leio e fico pensando que será que ele pensa disso? Ainda bem que você não diz, cada um que venha com suas idéias. Fico sempre pensando aqui no constante duelo conforto X preservação, mas hoje não vou me alongar nisso.
    abraço
    Gero

  5. Hellen Rose Panizzi disse:

    Olá Altamiro,

    qt tempo não lhe respondo não é??
    mas não quer dizer que me esqueci de ti, é que as coisas estão corridasmesmo.
    interessante essa coisa do mingau, das cinzas… não me imagino participando disto; mas compreendo o significado.
    no que tange a onça…. vc já pensou um usar pinico??
    um grande abraço e FELIZ DIA DOS PAIS,

    Hellen Rose

  6. Maria Lucia disse:

    Que delicia de ler suas impressões e hoje me distraíram um bocado.
    Além do mais as fotos…bacana. Mas.. Altamiro a onça da foto parece viva?!!
    Me conta um pouca sobre sua missão e opção. Com você anda em Boa Vista?
    Abraços,
    Maria Lucia

  7. Ricardo Coelho disse:

    Grande Altamiro,

    Me recordo uma feita! Precisei viajar a serviço para Natal (só a serviço,
    porque não tenho grana nenhuma para essa merecida viagem de lazer – viagem
    sem-vergonha: eu numa reunião até tarde da noite, num salão com AQUELA
    VISTA!!!!!), quando encontrei uma senhora, numa viagem, encalacrada.

    Ela estava voltando com a filha aos EUA e não falava português. Falava só
    Guarani e Inglês. Era uma índia de Aracruz que veio mostrar a filha
    norte-americana aos parentes e estava na viagem de volta. No Brasil, poucos
    realmente sabem falar inglês, mas nem eu, descendente direto do cacique
    Arco Verde, de Pernambuco, sei falar alguma coisa em linguagem Tupi ou
    Guarani…

    Salve a escola! Meu inglês serviu para alguma coisa!

    Sempre Alerta,

    Ricardo Coelho dos Santos

  8. José Roberto disse:

    OI MIRO .
    OBRIGADO PELOS NOTICIARIOS SAO DE GRANDE VALIA . PRA MIM. QUE PRECISO CONHECER MAIS . SOBRE MINHA GENTE . ABRAÇOS .
    DE SEU AMIGO . ROBERTO

  9. Marco Santana disse:

    Salve!
    Como sempre, seus textos estão sensacionais! Parabéns! Será que é possível você mandar um mapa com localização exata de onde está?
    Abraços e boa sorte!!

    Marco

  10. Norma Rocha disse:

    Oi Altamiro, saudades…
    Que bom saber noticias suas.
    Você vive conhecendo ese “pessoal” do Acre. kkkk, Só falta conhecer a cidade.
    Bjão pra toda familia.
    Norma.

  11. Danielle Cipriano disse:

    Olá Altamiro e Lídia. Demorei a chegar até o Blog mas cheguei e já vi que virei fã. Só falta agora te ver no Programa do Jô contando suas aventuras pela Amazônia. Adorei, parabéns!!!
    Abraços

  12. Debora Martins disse:

    Olá Altamiro!
    Mais uma vez, parabéns pelo trabalho!
    Esse “diário de viagens” um dia vai ser exposto como foram os de Darwin no MASP.
    Lê-lo é aprender e por que não dizer passar o tempo de uma forma produtiva. Conhecer novos povos (e muitos são BRASILEIROS), paisagens e “cenas” que jamais imaginei!
    Enfim é uma pausa na realidade e sonhar, e o melhor é que tudo que está alí nas fotos e nos escritos, existe!
    Espero um dia encontrar com vc e com tudo que li e emaginei através desse seu blog!
    Um grande beijo!

  13. naldiclei disse:

    Olá altamiro!
    Nossa adorei seu blog,parabéns!
    Fiquei muito contente quando vi as fotos da onça, elas foram tiradas na fazenda dos meus pais, Idelvides e Maria Luiza, e tudo relatado é a mais pura verdade, meus pais quase morreram de medo, mais como vc mesmo disse isso é o resultado do desmatamento desordenado… aquele é um pedacinho de chão longínquo que eu amo demais.
    Um grande abraço e fique em paz
    Naldiclei Gomes da Silva

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