Impressões Amazônicas 44

Yanomami no hospital

As vezes quando estou na unidade semi-intensiva com algum Yanomami meu pensamento viaja e fico imaginando que mundo é este, em que vivemos, aos olhos deles. Lembrem que muitos vivem em um mundo onde não há veículos, os sons são os da floresta e dos cânticos nos dias de festa e a luz se acaba ao mesmo tempo que o dia. As crianças são seres livres. Quando pequenos permanecem em tipóias, trançadas de lã ou feitas de entrecasca de árvore, sempre grudadas a seus pais (parêntese: nunca vi um Kaiapó homem carregando seu filho em uma tipóia, mas já vi os Yanomami várias vezes com esta atitude). Na medida que crescem ganham o espaço ao seu redor: as pernas das mães, a maloca, a aldeia e a mata, conquistando a liberdade.

Eis que um curumim fica doente. Chama-se o pajé para fazer “xapori” e soprar a doença da criança. Ele canta, sopra e enfumaça, o que pode em alguns casos até agravar uma pneumonia. A equipe de saúde inicia o uso de antibióticos, mas se o caso complica o resgate é acionado. Chega o avião ou helicóptero e a criança e sua família voam para Boa Vista. Pai e irmãos ficam na Casa do Índio. A criança é levada direto para um hospital. Nosso pronto socorro – como todo PS – é sempre cheio. Gente falando, criança chorando, barulho, luzes que nunca se apagam. Cores, formas, ruídos, cheiros. Tudo é novo para estas mães que ganharam uma roupa que tape suas vergonhas e que andam descalças e com um seio esquecido para fora da blusa após o seu filho dormir cansado. Entram na sala do médico. Já conhecem este procedimento, mas o diálogo é impossível ou mínimo, mesmo com a ajuda de tradutores que pouco falam do português alienígena neste país indígena. Nem sempre os profissionais dão a atenção devida, e pela gravidade com que chegam, logo se constata “índio sempre é trabalho”, não pelo sentido preconceituoso, mas pelo fato de que tem menor resistência a infecções respiratórias.

Logo vem a internação: criança deitada na cama, furada, com o precioso sangue indo parar em tubos. A cama em uma enfermaria, onde todos olham tentando entender as diferenças, por vezes difíceis de aceitar. Os olhos são curiosos dos dois lados. Mas o que eu escrevi? Criança na cama… curumim não dorme em cama e o sono não vem sem a curva da rede que imita a curvatura do dorso da mãe. A solução é simples: a mãe, pequenina, deita na cama junto com o pequeno e passa horas espremendo os seios flácidos dos muitos filhos, na boca que não consegue nem fazer esforço para sugar. Mas a criança continua cansada, e é enviada a outra enfermaria, agora semi-intensiva. Retiram-se os amuletos. Fios no peito, monitores apitando incessantemente, tubos e até um capacete de oxigênio no rosto. Inaceitável! Ansiosa a mãe tira fios e capacete, apenas para ver o filho ficar roxo e sem ar, levando a resignação de quem entende que a entrega é a única solução para a preservação da cria. Não é fácil quando a criança chora e ela pouco mais pode fazer do que sacudi-lo a maneira Yanomami, esfregando a mão no peito ou na cabeça da criança e gritando “shhhh, shhhh, shhhhh”.

As vezes o trabalho é difícil para a equipe, como quando uma criança de pouco mais de dez anos, mãe, não de uma boneca, mas de um bebê de verdade, em dois dias, por três vezes arrancou o cateter de uma veia profunda, colocado por um cirurgião chamado especialmente para este fim e que na terceira vez previu o trágico destino da criança vítima de uma desidratação sem fim. Aos poucos, com o amor das mães, a dedicação da equipe e as bênçãos de algum Makunaima Yanomami os pequenos se recuperam. Mais ativas, puxam os cabelos das mães que trocam as lágrimas por um sorriso de orelha a orelha, encantador como ver a vida brotando aos poucos. Melhores, as crianças são transferidas para a “enfermaria indígena”, onde os pais já podem acompanhar as mães em grandes redes e junto a parentes com quem podem conversar mais a vontade enquanto seus filhos se recuperam. Logo escuto: “Casai, casai”. As mães pedem para ir para a Casa do Índio, onde segue seu tratamento e onde a cantoria se repete, mas mudando o tom, pois o pedido agora é para voltarem para as aldeias, onde, ao redor da fogueira poderão contar deste estranho mundo dos napopo (não índios).

… pausa para a reflexão…

“… se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão a luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas a se parirem a si mesmos”. Gabriel Garcia Marques, em Amor nos Tempos do Cólera.

Pois é… mais uma vez a vida me obriga a me parir. De repente me descubro trabalhando em um pronto socorro, em uma enfermaria semi-intensiva e… pior… sendo convidado para coordenar o Pronto Socorro. Alguém que me conhece de verdade consegue imaginar isto?

Acho que nem eu mesmo… e este “novo parto” está me fazendo estudar muito, voltar no tempo dos meus quase quinze anos de formado e dos plantões no Getulinho e no Antonio Pedro… ai, ai…

Encaro isso como oportunidades de vida que Deus me dá, afinal, Ele me conduz, e eu entrego e confio. Que seja feita a Sua vontade!

Mas vocês estão lendo isso para lerem histórias, e não desabafos pessoais, não é mesmo? Então vou contar um pouco mais dos Yanomami, que sei que deixam todo mundo curioso.

Quando falamos em Yanomami, na verdade estamos falando de quatro grupos distintos, que partilham a mesma área geográfica, línguas do mesmo tronco (como o português, o espanhol e o francês) e hábitos parecidos: os Yanomami, Yanomáim, Sanumã e Xiriana.

Alguns laços unem todos estes grupos, um é o estranho hábito de usar fumo mascado na gengiva, de forma que vá soltando seu sabor aos poucos. As pessoas ficam com aspecto diferente, parecem que tem os lábios inchados.

As mulheres usam enfeites no rosto, espetos longos, que não são usados pelos homens. Elas também usam flores em lugar de brincos, o que é muito bonito. Usam muito menos enfeites que os Kaiapó e se pintam muito pouco. Recentemente atendi no pronto-socorro um indiozinho que vinha pintado, com a mãe pintada e com muitas miçangas, mas isto é bastante raro. Nada como as cores dos Kaiapó. Por outro lado, diferente do vestido Kaiapó, ela vinha com os seios de fora e somente uma tanga, bem mais genuíno.

Eles ainda praticam muito infanticídio, sendo esta uma importante causa morte. Se a criança é fraca, defeituosa ou com algum problema a mãe pode simplesmente parar de cuidar ou até objetivamente matá-lo. Parece algo cruel, mas vivendo em uma selva, com dificuldade de recursos, isso nada mais é do que instinto de sobrevivência. Por este motivo, como comentei, as crianças só tem nome quando “vingam”, isto é, ficam mais velhos. Até lá são tratadas simplesmente por “filhos”.

Descobri outra coisa interessante. Embora eles já tenham seus nomes “de branco”, a maioria tem outros nomes, que são “ocultos”. Isto porque uma das maiores ofensas para um Yanomami é ter seu nome proferido em voz alta. Quando o nome é falado, um espírito que esteja próximo pode se apoderar do nome e fazer mal a pessoa. Assim, eles só falam seus nomes em voz baixa e em situações especiais. Falar o nome de alguém alto é uma ofensa gravíssima, pior do que xingar a mãe. Por este motivo, quando os brancos lhes deram nomes, eles com certeza agradeceram, pois não precisaram usar seus nomes tão bem protegidos. Entre eles é comum chamarem-se de “amigos”, “irmão” e outros nomes carinhosos.

Vou indo… e lembrem-se de divulgarem o site, onde graças a você chegamos a mais de Dez mil visitas em menos de 3 meses: https://impressoesamazonicas.wordpress.com

Altamiro

Fotos:

Da Lídia em aldeia:

Maloca

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Menino arqueiro. Vejam o tamanho da flecha. E o pessoal todo de olho nele.

IA44 arqueiro

Menino na rede.

IA44 nomami

Crianças no Posto de Saúde

IA44 aldeia

Da Casa do Índio

A foto da mãe com os gêmeos é da Rosiclei, que trabalha comigo.

IA44 gemeos

Os dois meninos são fotos minhas. Aquela menina, para os parâmetros daqui está MUITO enfeitada. Para os Kaiapó está punura….

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8 comentários Adicione o seu

  1. Leo Lyrio disse:

    E aí Alta? Como vão as coisas? A curiosidade é: – Quando pretendes voltar ao centro urbano? A experiência deve ser única aí na selva mas por vezes, deve ser um pouco solitária,não? Abraços
    Léo

  2. Jussara Campos disse:

    Amigo, abençoada já sou , com certeza por ter conhecido você, um amigo eternamente especial.
    Sua capacidade de encantar e de produzir ciência contando estória, educar um filho aprendendo, entre outras tantas habilidades….às vezes tenho quase convivção que vc não pertence a este planeta, que é tão pequeno tamnha sua grandeza.
    Tenha certeza que em todos so lugares q passou deixou sua estória e , neste momento, abençoados são os Yanomami que tem vc para contar.
    Mais uam vez: PARABÉNS pelo ser HUMANO que vc é!
    Tudo de bom !!!!
    Beijos
    Juju

  3. Maria Beatriz Nogueira Ribeiro disse:

    Não sei se você se lembra de mim, sou a Bia, esposa do Pingo. Gostaria de aproveitar a carona e te pedir para incluir também o meu nome na sua lista de e-mails para poder receber diretamente suas impressões amazônicas tão ricas e bem escritas! Assim o Pingo não precisa me repassar seus e-mails.
    Como vai a vida em Boa Vista? Não conheço essa região, o máximo que fui foi até Manaus, mas tenho muita vontade de conhecer, especialmente os Yanomami. Lindas as fotos deles aliás.
    Bom, espero receber suas novas impressões em breve.
    Grande abraço!
    Bia

  4. Jorge LPF disse:

    Altamiro,
    Duas fotos eu achei as melhores de todas as que você enviou na séria IA:
    1) A do indiozinho na rede, sozinho
    2) A de indiazinha enfeitada
    Independente dos dois me darem vontade de adotá-los, as fotos são de uma clareza e equilibrio fantásticos.
    É, maninho, tu também bate um bolão nesta área, heim ?
    Abraços
    Jorge

  5. Samuel Menezes disse:

    Meu Amigo:
    É sempre agradavel ler suas impressões Amazonicas. Tenho absoluta certeza que Deus está contigo em cada ação que vc desenvolve. É lindo a delicadeza que vc se coloca frente as situções adiversas. Deus te ilumine e te proteja. Em
    relação ao proto socorro, utis, é sempre bom experimentar um pouco de tecnologia em um mundo sem tecnologia, onde as vezes é necessário. Cuide bem dos yanomamis, são filhos do Deus Altissimo, que com certeza está ao nosso lado quando fazemos o bem. Até………

  6. Debora Martins disse:

    Oi Altamiro!
    É uma viagem maravilhosa ler o IA, esse dos Yanomami, particularmente, pois recentemente estive em Belém do Pará, numa reserva chamada Parque dos Igarapés que foi um pedacinho da Amazônia que conheci, claro que foi uma atividade Bandeirante, coisa que se eu não fosse, eu talvez jamais teria tido essa oportunidade. Essa história te conto Eu por e-mail… aqui, quero deixar registrado minha admiração pelo seu trabalho e pela sua pessoa! Como disse uma outra pessoa nos comentários mais acima, você não deve ser mesmo desse mundo, a forma como vive e como conta pra nós, reles mortais, suas experiências, nos faz sentir uma paz, uma alegria enorme em saber que nesse mundo em que nós vivemos ainda existem pessoas como você e as que te acompanham, que são simples, amam o que fazem, que são serenas, verdadeiras, sensíveis, inteligentes e HUMANAS na mais profunda essência da palavra. Aprender um pouco mais sobre o nosso Brasil indígena me faz sentir uma pessoa privilegiada por ter a oportunidade de conhecer essa parte que talvez tenha sido “esquecida” pelos governantes e por nós todos que damos tão pouco valor, talvez até por desconhecimento de trabalhos como o seu. Insisto que esse trabalho todo deve ser exposto, hein, como os de Darwin… talvez ele não tenha visto seus diários e trabalhos expostos, mas quão importantes, valorizados e reconhecidos são hoje…
    Que o Teu Deus te acompanhe sempre!
    Um grande beijo…
    Dé (que não te conhece pessoalmente, mas pra ser fã e admiradora não precisa conhecer pessoalmente, basta acompanhar-te e saber que você existe.. rsrsrsrs)

  7. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Altamiro,
    Que belo depoimento.
    Se é desabafo é de “algo” glorioso que somente a “luz divina” nos concede. Você é um vitorioso para a “vida” que nos é dada para grandes coisas.
    O “desabafo” talvez seja em perguntar-se: “era isto que eu queria?”. Penso que Isto é o que lhe foi concedido e, por mérito, obra grandiosa de um grande “chefe” escolteiro? médico?cidadão? Mescla-se. Deus o ilumine e abençoe em seu caminhar pela preservação da humanidade.Fico orgulhosa por você existir.
    A amiga, admiradora,
    Daucy

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