Impressões Amazônicas 46

O Brasil tem cenas bizarras. Estou em plena aldeia Las Casas, a mais próxima, cerca de 50 minutos de Redenção, no meio de um terreiro rodeado de malocas, sob o sol tropical do meio-dia, sem a menor sombra, com o estetoscópio pendurado na mão, fazendo papel de arma contra cachorros atrevidos, acompanhado por uma técnica de enfermagem munida de uma vara (os cachorros aqui são mesmo bravos) indo ver uma índia com hemorragia. No meio do caminho toca o meu celular e atendo uma ligação do Rio de Janeiro. Tecnologia misturada às difíceis condições são uma contradição constante por aqui. As duas aldeias maiores, Gorotire e Kikretum, têm até telefone. Embora sejam orelhões, nas duas há gatos utilizados por alguns índios para conseguir ligações 0800. E eu já enfrentei fila enquanto escutava conversas para Brasília, São Paulo… índio é chique mesmo.

2007 03 Kikretum (36) 2007 03 lista tel KKT 0000kik

Aliás, os caciques são muito viajados. A maioria já viajou para o exterior, e alguns estão sempre viajando pelo Brasil. Na aldeia de Kendjan uma manhã o cacique se vira pra mim e diz: “Good Morning Doctor!” Eu fico perdido, sem saber o que responder e ele continua: “How Are you?” Aí respondi. “Very well” e ele disse… “Good”. No dia seguinte ele vem de novo: “Bon jour Doctor”. E eu respondi: “Cacique, francês eu não entendo”. Ele riu e continuou. “Pois é doutor. E eu estou precisando viajar para o exterior praticar outras línguas. Há muito tempo não viajo”. É para quem pode, né? Ou melhor… é para quem é índio!

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Este é uma foto da Residência Cacique Coronel Tuto Pombo, já falecido, mas que possuiu fortuna.

Gorotire – Texto é da minha primeira viagem a uma aldeia Kaiapó

Estou em Gorotire, aldeia-mãe dos Kaiapó. Novamente estranho a mistura de tecnologia com hábitos ultra-tradicionais. Cheguei de avião, após um vôo de 45 min de monomotor. No avião, de 3 lugares, vamos o piloto, eu, uma representante da ONG Indígena, o presidente da ONG e um secretário. Mas o avião não tinha 3 lugares? Pois é, um vai em um banquinho de dobrar e outro sobre um botijão de gás. O avião ia com pouca carga, e assim, mesmo com o vento e com a chuva, viajamos bem.

08 01 Amigos Voo GRT (2) Esta não é a foto da primeira viagem, mas dá para ter uma idéia de como é…

Após o pouso, em 5 min de caminhada chego na aldeia, a maior da nação Kaiapó. Surpresa…embora tenha uma apresentação circular e uma rua larga, como nas aldeias tradicionais, não há malocas. As habitações são todas de alvenaria, construídas por uma companhia cerca de 30 anos atrás, na época do boom da madeira. As casas são mal conservadas e na maioria sujas e borradas por fuligem. Não há como dizer que o índio não tem higiene, mas seus hábitos são bem distintos dos nossos. Busco latas de lixo em uma procura vã. Dá para entender: no passado eles não produziam lixo inorgânico e o orgânico, mesmo que jogado no chão era todo eliminado pelos animais que viviam ao redor das casas, assim não havia lixo algum.

Não há asfalto, mas há orelhão, energia com placas solares, um bom posto de saúde, uma boa escola e estão reformando a “casa do guerreiro”, centro de reuniões de toda aldeia.

Na aldeia a forma de vestir não é nada diferente das que atendo na Casa do Índio. Alguns muito pintados, outros sem pintura, outros todo enfeitados e as mulheres com os mesmos vestidos multicoloridos em modelito único.

As crianças andam peladas, com calcinha ou short.

08 02 PKR (44)

Os dentes são terrivelmente cariados; acho que nunca vi uma criança com os dentes íntegros, o que é de se lamentar. Farinhas, doces e mamadeiras são introduzidos muito precocemente.

07 10 mkk (51) Esta é a Dra. Dalila, uma odontóloga que faz o melhor trabalho em toda área Kaiapó.

Os bebês menores andam sempre a tiracolo, carregados em tipóias trançadas, muito bonitas, mas responsáveis por parte da dor nas costas que todas vem reclamar quando ficam mais velhas. 07 08 Aukre (16)

Carregar os muitos bebês que tem e todo o peso da aldeia realmente acaba com qualquer coluna. E carregam o peso literalmente: lenha, mandioca, banana, tudo é levado pelas “niras” em faixas que passam pela testa e prendem pesados cestos.

08 04 GRT (53)

Outra coisa curiosa é que os Kaiapó não tem cílios. Você está conversando com eles em suas casas e nota que as mães possuem pinças que usam com uma agilidade surpreendente para arrancar os cílios inferiores e superiores das crianças que de tão habituadas, levam um pequeno susto mas nem reclamam.

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Esta mesma habilidade é usada para arrancar penas das araras. São três animais que vi muito por aqui: cães magrelos e sarnentos; galinhas bem nutridas e araras peladas. Acho que as araras, mesmo não ido para a panela são as que mais sofrem.

Atendi uma senhora careca. Me explicaram que ela raspou a “krãn” (cabeça) porque sua filha havia morrido. Eles morrem de medo dos fantasmas e, supersticiosos, fazem tudo para agradar o falecido, inclusive se auto-flagelar. As mulheres se socam, se batem e várias queixam-se que começaram a sentir dor após se baterem com facão na cabeça por ocasião da morte de um parente próximo. Loucura, loucura! Na verdade, o lamento faz parte da vida dos Kaiapó e as mulheres recebem um verdadeiro “treinamento” com mães, tias e avós. Dentre as habilidades necessárias a uma mulher está saber cozinhar, cuidar da roça, pintar e… chorar. Uma boa mulher deve saber como chorar e em qual situação. Quando levantei vôo de Gorotire, ouvi uma mulher chorando como uma carpideira, uma verdadeira ladainha aguda e ininteligível ( por sua mãe que foi viajar ). Depois assisti, ou melhor, ouvi, cenas semelhantes por reencontros na Casa do Índio.

Hoje levei um grande susto. Havia atendido uma senhora com dor de garganta e prescrito alguns remédios simples. Eis que após o almoço chega o marido dela e diz: ela morreu! Peguei minhas coisas e corri para casa dela onde a encontrei simplesmente desmaiada. Para morte eles usam o termo em kaiapó, e “morrer” é sempre “desmaiar”.

Quando cheguei a mulher estava sem roupa, cercada por cerca de 30 pessoas, entre mulheres e crianças. Acenderam um fogo onde queimavam algumas folhas, esfregavam outras em seu peito, pernas e rosto, inclusive enfiando folhas no nariz da senhora. Espaço para eu passar? Nenhum. Foi duro chegar perto. Em compensação, quando o pajé chegou, todo mundo abriu espaço para ele “baforar” a mulher, que já estava melhor. Dura a vida de médico de aldeia…!

Hoje vi também como se inicia o aprendizado com as crianças. Vi algumas bonecas,todas com o rosto e as pernas pintadas, da mesma forma que as pessoas são pintadas. Além disso atendi um menino de cerca de cinco anos chamado Pajé. Depois descobri que lhe chamam Pajé por já estar sendo treinado pelo seu avô, pajé principal sa aldeia.

Por fim uma história que passou-se com uma índia. Os Kaiapós costumam perguntar meu nome, e ao saber comentam que é “nome de cidade”, tendo como referência a cidade de Altamira, uma das maiores do estado. Outro dia a índia não teve dúvidas e me chamou de Dr. Marabá, nome da maior cidade do sul do Pará. O raciocínio estava certo, ela só trocou a cidade.

E já que estou falando de nomes dos Kaiapó, alguns nomes que descobri recentemente em Boa Vista. Atendi três pacientes com nomes “bíblicos” que não conhecia: Habacuque, Sofonias e Êxodo.

Atendi também uma menina chamada Maclynny. A mãe me contou que havia feito ultrasonografia que mostravam ser um menino, que ganharia nome de artista: David Maclynn. Como nasceu menina, saiu o David e virou Maclynny.

Por fim atendi Vorkman, que imagino ter saído de algum filme de ficção científica!

Abraços a todos,

Altamiro

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17 comentários Adicione o seu

  1. Grande Altamiro…
    Muito bom receber teu email….. muito bom o hábito de relatar experiências convividas com o povo da amazonia.
    Gorotire é um lugar peculiar com suas histórias e tradições este povo já esta em tua alma….
    Saudações aos que tem coragem.

  2. Gero Pestalozzi disse:

    Oi, Altamiro,
    ou posso chamar de Macapá? Adorei a história da associação dos nomes de cidades…
    Abraço,
    Gero

  3. Maria Beatriz Nogueira Ribeiro disse:

    Olá Altamiro!!

    Como sempre é uma delícia ler as suas “impressões”! Aliás, hoje eu me vi em muitas das situações descritas por você… a fila no orelhão de Kikretum, as índias tentando arrancar de surpresa os meus cílios, o sol escaldante enquanto eu ia fazer as minhas entrevistas sobre castanha (grávida!), segurando a vara para os cachorros não me morderem, o “conforto” dos aviões, etc etc etc. Inclusive a índia que tá na foto carregando o bebê é uma das minhas irmãs de A’Ukre! Aliás, sobre as tipóias (aim) de carregar bebês, sabe que eu descobri que a posição que o Davi mais gosta de dormir no colo é exatamente a posição que os bebês ficam quando estão no aim? Descobri quando estava usando o meu aim que uma índia do Pukararankre fez!! Muito legal, dou o maior apoio para a publicação do livro!!!!
    Um grande abraço e aguardo as próximas impressões!
    Bia

  4. Angelita disse:

    Oi querido !

    Só você mesmo !

    Adorei e vou repassar sim “!

    Espero que quem leia isto não se atreva a dizer que eles são uns boa
    vida e não querem fazer nada, não é mesmo ?
    Bjão !

    Angelita

  5. Fábio Conde disse:

    Fala Alt,

    São muito maneiras suas impressões, me divirto e me emociono muito com elas. O livro vai ficar muito bom!!!
    Abração,
    Fábio Conde

  6. Luciana Lindgren disse:

    Altamiro,

    Estou aqui encantada com suas histórias e coragem!!!!!
    Você deve sentir uma mistura de fascínio e medo ao se deparar com esse mundo que nós da cidade pouco conhecemos.
    Deve ser fantástico viver todas essas experiências com essa natureza linda e toda essa cultura indígena.
    Adorei receber as atualizações do seu blog!!!
    Tudo de bom pra vc!

    beijinhos
    Lu

  7. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Altamiro, querido!
    Estou torcendo pelo livro. A cultura índígena mistura-se, e você a conta muito bem.
    Você acaba de lançar moda: a dos cílios. Apesar de acreditar que o pessoal daqui não tenha a coragem em tirar os cílios, o que acha?
    Parabéns! Que Deus o abençoe nestas terras que tem de tudo.
    Sua amiga e grande admiradora, Daucy

  8. Amigo da paz altamiro, boa noite.
    mais uma vez parabéns.
    valorizar essa diversidade cultural é de fato exercitar sua espiritualidade.
    muita paz
    everardo
    http://www.movimentoamigosdapaz.blogspot.com

  9. Marco Santana disse:

    Olá!
    Como sempre, o blog está sensacional! Sobre o projeto de fazer um livro, me coloco à disposição desde já para colaborar no que for preciso (você vai facilitar o trabalho de qualquer revisor, pois escreve muito bem…).
    Abraços,
    Marco Santana
    Santos – SP

  10. Inacio Guimarães Brito disse:

    Aqui é o Inacio de Niterói,
    Tenho recebido seus informes e são muito interessantes mesmo.
    Fico sempre pensando nos anormais que provocam as queimadas na região amazõnica e o nosso governo nada aparentemente faz pelo fato. Eles só falam nas árvores mas esquecem dos animais e do ecossistema como um todo que sofre um abalo seríssimo com este absurdo. Como podemos ajudar aqui da cidade ?
    Um grande abraço amigo,
    Inacio

  11. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, é sempre muito interessante ler as suas Impressões.
    É uma vivência que chega com histórias do dia a dia de pessoas com vidas tão diferentes, é um aprendizado fascinante.
    Aguardo o livro no ano que vem ( sem risos).
    Um grande abraço.
    Cris

  12. Silvana Benzecry disse:

    Altamiro obrigada pelas fotos , salvei seu blog.
    um beijo Silvana

  13. Inácia Freitas disse:

    Altamiro seu sumido, demorou mais saiu o impressões 46, e olha o impressões está cada vez melhor. A propósito, aquela nira com o bebê na tipóia é a Ngrenhrôrôti com sua filha Pãnhkô lá do Aukre. Vcs precisam ver o quanto ela está bonitinha, bem gordinha e com uma pele bem lisinha é de dar inveja.

  14. Vilmar Andrade disse:

    Oi, meus parabéns pela leitura, mutissimo divertida e principalmente instrutiva.

    Estou buscando dados da comunidade Gorotire, para uma pesquisa sobre educação indigena, caso voce tenha fotos, ou outras informações, gostaria muito de poder usa-las com sua permissão em meu trabalho cientifico.

    obrigado e boa noite.

    Vilmar Andrade.
    Tucumã-Pará-Brasil

  15. tayline disse:

    nossa isso e uma barbaridade
    como uma pessoa consegue
    fazer isso?
    e horrivelllllllll!!!!!!!!!!!!

  16. iara kaiapo disse:

    amo os kaiapos

  17. iara kaiapo disse:

    ser o meu pai estivesse entre os vivos os kaiapos teriam uma historia diferente pois tuto pombo kaiapo era sim um homem guerreiro coronel pombo assim que gostava de ser chamado pai te amo muito lembranças eternas….

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