Impressões Amazônicas 50

Acabo de chegar do plantão. Estava em uma enfermaria de pediatria semi-intensiva. Mordo a língua ao pensar nisso e percebo que mais uma vez eu me pari, nascendo novamente. Vida nova! Quem me conhece – e fico triste de saber que o Clévio, meu ex-chefe não está lendo este texto, pois sempre disse a ele que não faria plantão por nada na minha vida – sabe que hospital terciário não é a minha cara. Pois é, mas acho que devemos estar sempre prontos para tudo. Então saí direto da aldeia e acabei na referência infantil de Roraima. Ai, ai… Estou aqui, voltando a estudar equilíbrio de ânions, reidratação, medicação para HIV. Enquanto não consigo algo com a minha cara, vou metendo a cara e tentando, de outra forma, ajudar as nossas crianças. Afinal, para isso existem os médicos, não é mesmo?

Estou há nove meses em Boa Vista. Alguns odeiam a cidade: “não tem nada, é longe de tudo e a família está distante”. Outros a amam: “terra de oportunidades, próximo ao Caribe e a saudade fortalece”. É terra de gente de fora. Sulistas, nordestinos, amazônidas de todos os cantos vem tentar a sorte e fazer a vida. Alguns serão eternamente turistas, pois carregam consigo o casulo de seus mundos (como diz Werner Zotz no prefácio do excelente livro Laowai da Sônia Bridi) e estranharão a amplidão do lavrado, o calor equatorial e a falta de pizza feita em forno a lenha. Outros descobrirão o banho as margens do rio Branco, a paçoca com banana e a caminhada na Praça das Águas “sem medo de ser assaltados” e não irão mais embora.

08 12 Recanto do Dede (7)Recanto do Dedé

 08 07 Boa Vista (16) Portal do Milênio – na Praça das Águas

Neste tempo descobri que Boa Vista tem várias atrações fotogênicas como o mercado do produtor, diversas igrejinhas, o monumento ao garimpeiro – o homem que desbravou o estado em busca da riqueza fácil que se mostrou muito mais dura do que se poderia imaginar – a ponte dos Macuxi e o Portal do Milênio.

09 02 Praia Grande (15) 09 02 (8)

Muito calor aqui. Na época de praias… vamos as praias. Na época de seca… vamos aos banhos. Aliás, este é um hábito de toda região norte. Além das praias serem periódicas, muitos dos rios são enormes, e não dá para simplesmente “dar um mergulhinho”. Assim, qualquer rio menos barrento logo é transformado em um pequeno balneário. Quem tem mais dinheiro para investir monta uma estrutura maior: piscinas, toboágua, bar molhado, quadra de vôlei… A regra é sempre a mesma: cheinho no sábado e lotado no domingo. Quem não tem carro ou não quer gastar tem outra opção. São vários balneários municipais nos bairros, com piscina infantil e guarda-vidas. E para os que preferem “tomar um banho de lua”, como diz a velha música, existe um que funciona somente a noite, aos finais de semana, com “banho de chafariz” e fica sempre cheio. Um refresco para um começo de noite quente.

Se quer comer, Boa Vista tem boas opções. Tudo bem que pizza só é pizza em São Paulo, mas há bons restaurantes de massa, carne e… peixe. Muito peixe e com bom preço. Tem até lingüiça de peixe. Uma peixada caprichada, para quatro pessoas sai na faixa de 50,00. As opções mais comuns de peixe local são o pirarucu (ah…. um pirarucu desfiado), tambaqui (ah… uma costelinha de tambaqui assado!), dourado e filhote. Como acompanhante, sempre farinha e molho de pimenta, que não podem faltar em qualquer prato da região.

Para quem quer ver farinha, a melhor opção é ir a feira do produtor. Além de diversos vendedores de farinha fresquinha, muitas vezes produzida pelas comunidades indígenas, cada vendedor tem umas dez variedades. Para mim a divisão seria somente em cor (branca ou amarela) e em tamanho (pó, areia, bolinha e bola de gude), mas para os “iniciados” na arte da farinha há nuances importantes no cheiro, consistência, paladar e até mesmo variação do tamanho dos grãos na mesma farinha. A farinha que chamo “bola de gude” é a maior alegria dos dentistas (amigos odontólogos, importem esta farinha para sua região!!!), pelas múltiplas fraturas dentárias que causam. O segredo, segundo quem entende, é dar uma molhadinha na saliva e engolir com tudo. Come-se de colherada mesmo! Vai entender… no norte farinha se come igual a ostra!

2008 10 Mercado do Produtor (6)

Por lá encontramos várias barracas de polpa com o saco de 1 litro vendido em média a quatro reais. É um espetáculo de cores, pois as variedades de polpas ficam expostas formando um arco-íris de frutas. Vejam só: o marrom do tamarindo, buriti amarelão, açaí cor-de-vinho, abacaxi pálido-desbotado, acerola vermelho-sangue, murici e maracujá amarelo-ouro, goiaba rosadinho, bacaba rosa-acinzentado (sim, existe este tom!), cupuaçu branco-amarelado. Uma delícia de cores e uma beleza de sabor.

2008 10 Mercado do Produtor (23)

As mesmas frutas que refrescam já ensacadas em polpa são encontradas fresquinhas na feira, junto as “importadas” como maçã, pêra, laranja e melão e as de produção local, como o mamão, melancia e a…. “uva”. Sim, porque o gaúcho antes de tudo é bravo, persistente e gosta de vinho tanto quanto de chimarrão. Assim, além de trazer a erva e o arroz da confusão com os índios, trouxe também a uva, que dá bem certo por aqui. Já acontece inclusive o Festival da Uva, com suco, geléia e vinhos de produção local. No setor de frutas consegui até encontrar o tal do noni, a tal da “fruta mágica”, que segundo os naturebas é a “fruta da vez”, a atual panacéia para os males de tudo e mais um pouco. Para quem não conhece, segue a foto. Noni: amigos. Amigos: noni!

2008 10 Mercado do Produtor (9) 2008 10 Mercado do Produtor (14)

Reencontrei no mercado também a paçoca com banana, que mescla a paçoca nordestina (feita de carne do sol com farinha bem pilada) com a banana nortista; e o pé-de-moleque. Tinha descrito a confecção do pé-de-moleque quando estava no AM, mas aqui ele já é vendido embalado na folha da bananeira. Para os recém-chegados às Impressões, aqui o pé-de-moleque não é de amendoim, mas sim de banana (sempre ela!), de macaxeira (sempre ela também!) e ovos.

2008 10 Mercado do Produtor (4)

Na feira, como em outros mercados públicos na cidade e em alguns restaurantes, a opção para manhã é um “café regional”. Tapioca com ou sem recheio, bola (pronuncia-se bôla, como um feminino de bolo e não como em bola de futebol), bolo de leite, queijo coalho assado, cuscuz de milho (aliás, nestas andanças descobri que só no Rio mesmo que o cuscuz é doce de tapioca com coco). Neste mundo globalizado, a opção favorita para este café regional é feito por um suíço! Ele tem um haras onde se pode provar as delícias locais e depois andar a cavalo ou simplesmente passear vendo a criação de búfalos, os avestruzes, sobreviventes de uma tentativa de criação local e as antas. Antas para criação comercial? Segundo o capataz local estas estão lá somente “pela boniteza”, mas como disputam a comida com os avestruzes, chegaram e ficaram. São muito simpáticas e gostam de carinho, o que as faz favoritas do pessoal em relação aos engraçados mas anti-sociais avestruzes.

08 12 Haras (15) 08 12 Haras (20)

Boa Vista tem também muitas figuras interessantes, que fundem sua história à cidade, como o maluco beleza daqui, o Profeta da Pas (com S mesmo).

09 02 (37)

Mas quem é este profeta? Qual a linha que, muitas vezes separa a insanidade da completa lucidez? Lembro do Gentileza, considerado louco por muitos e gênio por outros, imortalizado na voz de Marisa Monte e cujo principal mote levo tatuado em meu braço: “gentileza gera gentileza”.

Em Boa Vista não temos o profeta gentil, mas encontramos o Profeta da Pas, que recebeu a mensagem de Deus e, sem esperar algo além de que alguns minutos de atenção, faz apologia do amor e da paz.

O nome com que se apresenta, é até difícil de guardar, e ele mostra tatuado no braço esquerdo – “do coração”: Deeus Ommy Geezus – O Profeta da Pas.

Logo que cheguei em Boa Vista, encontrei o profeta andando pelas ruas do centro. Sempre com roupa branca com várias frases escritas no que chama de “português correto” – “É sempre como se fala, e não como se quer”, acompanhado por um violão elétrico e com um sorriso cativante emoldurado por sua careca morena e por uma barbicha fina, que lembra tanto um monge chinês quanto um bode adolescente.

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O encontro é fácil, a fala é agradável, as boas vindas com um beijo em nossa mão e a declaração: “eu te amo”. O profeta gosta de conversa e logo mostra as frases espalhadas por sua roupa: “Eu ti amú”, “Polìssiàl Fédêéràl Séléstiàl”, “Ezércitu de Deeus”.

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Não me conta a origem da sua missão. São várias histórias que se escuta em Boa Vista. A mais consistente conta que ele era um policial, que matou uma criança com um tiro, o que fez com que saísse de si e ao voltar se encontrasse transformado e consciente de sua tarefa divina: ajudar a transformar o homem através da paz e do amor.

E como quem é da paz não se nega a uma fotografia. Consigo várias enquanto escuto “Com uma máquina desta já sei que vão para o exterior. Pode levar! Leve a mensagem da Paz e do Amor!” E é isso que fiz. A mensagem é para vocês.

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17 comentários Adicione o seu

  1. Edith Chevalier disse:

    Obrigada pela partilha das noticias Edith

  2. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Olá Altamiro!
    Como tens histórias e todas muito lindas.
    Senti saudades do Cupuaçu. Sorvete é uma delícia. Em Feira de Santana (BH) experimentei os sorvetes naturais mais deliciosos possíveis. Dá saudades.
    Beijos desta apreciadora de sua obra,
    Daucy

  3. Regina Müller disse:

    Oi Altamiro,
    muito legal o seu relato das impressões amazônicas. Dá realmente vontade de te visitar por aí. Quem sabe, um dia…
    abraços da terrinha,
    Regina

  4. Brison disse:

    Desculpe Altamiro, sei que sua vida aí não é moleza. mas sinceridade, sinto é inveja de ti, podendo desfrutar desta maravilha. Estou pensando no fim do ano que vem me mandar para estas regiões também.
    Abraços e mande sempre estes textos, pois adoro. É uma forma de poder conhecer um pouco mais desta região.
    Brison

  5. Everardo Lopes disse:

    amigo da paz altamiro, bom dia.
    o melhor lugar do mundo é aquele que você mora. Parabéns pelas definições de cores e frutas maravilhosas, a farinha é fundamentl. Criar é sempre uma arte.
    muita paz
    Everardo

  6. Marcio Alberto Carvalho da Silva disse:

    Olá Dr. Altamiro,
    Bom vc já sabe que admiro muito seu trabalho.
    Realmente vc honrou seu juramento.
    Precisavamos ter mais Dr. Altamiro espalhados por esse nosso Braisl!
    Que Deus te abençõe e te de bastante saude pra continuar com sua caminhada.
    Estamos trabalhando em Altamira na enxurrada que destruiu parte da cidade.
    Um grande abraço.
    Da Silva

  7. Silvana Sabbag disse:

    Ô, Altamiro…é de dar água na boca! Se o Mestre Maior me permitir, um dia irei até aí! Vi no teu blog o Sai Baba…amei!
    Bjo., Silvana.

  8. Felipe Prandini disse:

    Bom dia, Altamiro.
    Sou o Felipe de Jundiaí, interior de São Paulo que estava na equipe da atividades por subcampo no Jamboree.
    Só agora tive a oportunidade de responder às suas impressões amazônicas. Mas antes tarde do que nunca! rsrs
    Vou te contar que é sempre um prazer receber seus e-mails contando suas andanças por esse país tão grande e cheio de singularidades. Às vezes agente fica preso no dia-a-dia aqui das nossas cidades(principalmente para nós de São Paulo) e acaba esquecendo a imensidão cultural e a diversidade geográfica do Brasil.
    E confesso que os seus e-mails vêm sempre como um oásis no meio da rotina de e-mails que assolam a minha caixa postal! Cheios de detalhes, cores, cheiros e gostos os seus e-mails sao quase uma sinestesia. rsrsrsrs
    Aliás, foi impressão minha ou a dica da farinha “bola-de-gude” é um conselho pro Beto? rsrsrsrsrs
    Bom .. espero que a canção da promessa cumpra novamente a sua função mística e que bem cedo, junto ao fogo, em alguma atividade escoteira, nós tornemos a nos ver.
    SAPS,
    Felipe Prandini da Silveira
    Clã pY Avalon, G.E. Judiá 082-SP.

  9. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, como sempre é muito bom receber seus relatos e vivências tão interessantes.
    Com isso conheço um pouco de lugares e pessoas tão distantes e bonitos.
    Espero que vc ache logo um trabalho com a “sua cara”.
    Um abraço.
    Cris

  10. Francineide Maria Ipuchima Marinho disse:

    Altamiro, amiguinho! Nossa ! Você já está em Boa Vista? Pelo que estou vendo, você vai andar o Brasil todo, sempre com esse seu jeito cativante levando uma mensagem de paz a todos. Gostei muito das fotos, são lindas mesmo! E que bom que você teve essa incrível idéia de escrever suas impressões amazônicas. Ah, o “Santo Noni” também já chegou por aqui, até no quintal de casa já tem um “pé” de noni. E ele industrializado é caríssimo: há dois anos, um litro custava quase duzentos reais. Hahahahaha! abraços saudosos! Franci.

  11. Erina disse:

    Vc é mesmo um eterno adarilho!!! Um adante aventureiro com espírito desbravador de escoteiro!!!
    Boa sorte nesse seu novo “acampamento”!!!
    Bj
    Erina

  12. Varejão disse:

    Ola Altamiro,

    Que bela experiência você esta vivendo por ai.
    Gostaria de um dia poder estar vivenciando tudo isso também.
    Mas como não posso, já fico feliz em poder desfrutar dessas belas imagens.
    Forte abraço.
    Fique com Deus!

    Sempre Alerta.

    Varejão

  13. Carol Meneses disse:

    Ai Alta…
    Suas impressões me deram uma vontaaade de experimentar…
    Saudades… ausência muito sentida no Congresso…
    um bjo enorme
    Carolzinha 🙂

  14. Ricardo Loureiro disse:

    Fotos magnificas, como sempre!!!!
    Keep the good work!!!
    Abração,
    Ricardo Loureiro

  15. Ruben disse:

    Como sempre, me encanto com as tuas mensagens e tua sensibilidade para extrair tantos significados das coisas aparentemente simples do cotidiano. Não posso negar que sinto inveja destas possibilidades que a vida te proporciona; ainda que vc ache que a medicina hospitalar não é a tua praia, lembra que sempre podemos, atraves desta pratica, reconhecer as falhas da atençao básica, e ai o nosso poder de critica, ou de fazer coisas se temos a opção de colaborar com gestores, aumenta muito. As fotos, belissimas…
    Um abraço grande, força e sorte e até qualquer momento…carinhos para Lidia e Pompom
    Ruben

  16. Inácio Guimarães Brito disse:

    Um grande abraço amigo Altamiro,
    No grande espaço da divindade cabe todas estas diversidades e muitas outras mais neste planeta extraordinário a que denominamos Terra.
    Inacio

  17. Marco Aurélio disse:

    Saudades meu velho…adoro seus textos.
    Abraços,
    Marco

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