Impressões Amazônicas 54 – da Raposa Serra do Sol

Aguardo o vôo rumo a área indígena Raposa Serra do Sol. A organização aqui parece boa. O vôo sai no horário e tudo é ágil. Apesar disso sei que no começo vou estranhar, pois tinha grande confiança na PEMA de Redenção. Quantos vôos com Everardo, Mário, Fernando, Marcelo, Júnior e com o Yuri, que voava conosco no monomotor da Funasa.

Vamos a Comunidade Mapaé. Para os que seguem as IA no Google Earth:

N 05º07’48.2
W 06º03’51.34

Está tudo seco. É a primeira impressão que tenho do vôo. O solo é monocromático com buracos escuros onde haviam lagoas.
O céu, fechado, abre uma janela oferecendo a visão do rio Uraricoera. O piloto me informa que vamos pousar próximos do Monte Roraima e começo a rezar para o tempo abrir. Nos aproximamos das serras e me sinto como vendo google earth… em uma poltrona que balança um pouco mais.

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Época de chuva x Época seca… quanta diferença!

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Pousamos, mas o Monte Roraima não abriu… Sem fotos : (

De Mapaé vamos a Comunidade Área Única

Do alto vejo as 4 casas da pequena aldeia da etnia Ingarikó. Descemos e somos saudados pelo tuchaua Benedito, pelo agente de saúde Ralmundo e por outras pessoas. Não é como a confusão que acontecia quando pousávamos nos Kaiapó.

Todos ajudam a levar as coisas ao posto de saúde que fica em uma das casas que, como percebemos foi reformada para nos receber: palha nova no teto e barro novo tapando buracos. Ganhamos melancias e nos mostram o sanitário recém-construído.

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A comunidade se prepara. Uma semana após nossa ida os “parentes” vão chegar para ajudar a subir um malocão para dançar Aleluia. As mulheres já preparam o caxiri. Vão até abater um bezerro.

O bezerro abatido logo é retalhado e pendurado na porta de uma das casas que se torna o açougue. Logo a carne vai para o fogo. Literalmente pois fica sobre as chamas e se torna negra de tão tostada. Após algum tempo a janta está pronta e todos se reunem: carne, damurida e éêki (beiju). Antes de comer todos de pé fazem um circulo e oram. Uma senhora faz a oração e o clima é de atenção total. Até as crianças param as brincadeiras. Nós participamos indiretamente, pois ganhamos um belo pedaço de fígado.

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Após o almoço um pequeno descanso e iniciamos o atendimento. O agente de saúde, que estava de bermuda surge de tênis, calça e blusa limpa. O mesmo acontece com o tuchaua e algumas outras pessoas. Logo me envergonho de não estar tão arrumado, o que nunca havia sentido numa aldeia.

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Pergunto ao tuchaua porque a comunidade chama Área Única e ele explica que estava em uma reunião em SP por causa da demarcação da Raposa Serra do Sol e gritou que a reserva tinha que ser em “área única”. Depois disso resolveu criar a nova comunidade que ganhou este nome original.

Começo a aprender algumas palavras em Ingaricó. Diferente do Kaiapó, que é simples, falar coisas básicas neste idioma do tronco karib não é nada fácil. Bom dia é algo como maapaakarupé. Perguntar o nome soa como aanu é êsse. E tudo pronunciado sem quase abrir a boca, de dentes semi-cerrados.

Escurece e em pouco tempo todos se recolhem. Silêncio total sob o céu sem lua. Estrelas? Tantas que seu brilho ilumina a noite escura. Sinto-me ao mesmo tempo minúsculo mas com o espírito imenso de alegria.
A vida tem várias nuances e esquecemos do valor da simplicidade. Aqui o simples me recorda do tanto que tenho e do muito que na verdade nem necessito. Hoje vou dormir mais leve.

Aqui os galos vivem frustrados. Eles não conseguem acordar ninguém, pois bem antes do nascer do sol os Ingaricó já acordam eles. Assim, mais cedo do que eu gostaria meu sono foi interrompido.

Pela manhã todos se reúnem em uma área central. Homens trabalham na palha e na madeira. Mulheres cuidam do fogo e tecem fios. São animados. Crianças fazem tudo que toda criança gostaria de fazer se pudesse. Se arrastam pelo chão, lambem sandálias, comem frutas, perseguem os plntos, brincam com os facões que encontram no chão. A matriarca com mais de 80 anos senta ao pé do fogo. De uma pequena sacola que tira nem sei bem de onde, dentro de seu vestido sai um frasco de perfume. Depois sai um pote de onde suas mãos ágeis tiram um creme ou óleo que aplica no cabelo. Falam e riem muito e tenho certeza que fazem piadas sobre nós quando nos aproximamos. Já as crianças não riem. Não sorriem. Mas não é um não sorrir de tristeza, nem mesmo de dor. É simplesmente um não sorrir de não sorrir. E só.

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Povo daqui fala espaçado. Acho que é porque vive espaçado. Sempre que encontrei povo que vive espaçado, falava espaçado. Muito espaço entre as casas, muito espaço entre as palavras.
Se o vizinho é sempre o mesmo, logo acaba a fala. Sabe-se tudo. De tudo. Sem fofoca ou novidade. Aí se habitua a falar o quase-nada indispensável.
Cidade é diferente. Um colado com outro, mil coisas acontecem, fala rápida sem pausa. Tanto a contar, fofocar, explicar que nem dá tempo de escutar.

Tenho que aprender a me espaçar.

É isso,

Altamiro

PS – Sempre tento não falar mais dos nomes, mas atendi no hospital Charle Brall Junior. O nome era exatamente este, sem contar o sobrenome! Será que os irmãos chamavam Jota Quest e Los Hermanos???

30 comentários Adicione o seu

  1. Damiana disse:

    Deus abençoe a tua missao… Muito obrigada

  2. Edmea disse:

    Caro Altamiro,

    Como sempre, apreciei muitissimo sua narrativa bem como as lindas fotos de um mundo tao estranho que poderia ser ate outro planeta. O que mais tocou foi o “falar espacado”e o “conviver espacado” – que de certo permite as pessoas viverem cada momento na sua maior intensidade.

    Entao, vou-me lembrar desta nova norma: FALAR ESPACADO e tentar desacelerar minha vida e curtir mais profundamente os anos que me restam.

    Que esta Nova Decada tenha chegado trazendo Muitas Bencaos Especiais para voce!

    Edmea McCarty
    Alexandria, Virginia, USA

  3. Jorge Pinheiro disse:

    Me ocorreu uma observação de “literatura comparada” – rsrsrs
    Você chegou a ler “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien ?
    Cara… você e ele têm o mesmo dom: pintar uma cena com poucas descrições, mas precisas… o que favorece a “viagem” de quem lê às mesmas paisagens que você esteve.
    Hahaha… Altamiro, mano véio… o prêmio Nobel da Literatura está à caminho.

    Abração,

    Jorge Pinheiro

  4. Everardo disse:

    amigo da paz altamiro, bom dia.
    que viagem! o olhar que você tem exercitado pelo seus caminhos, está
    ficando cada vez mais apurado pela simplicidade. muito legal. Parabéns.
    se tiver um tempinho acesse http://www.everardoaguiar.ning.com
    EU CANTO A MINHA MORADA!
    muita paz
    everardo

  5. Marta disse:

    Olá!
    Ferias, q delicia!!!
    Nova leitora do blog Impressoes Amazonicas.
    bju
    Marta

  6. Daucy Monteiro disse:

    Olá Altamiro!
    Um beijo para você também.
    Daucy

  7. Edna Dinelli disse:

    Altamiro,
    Você vai ficar especialista não só em saúde indígena, mas, em qualquer assunto indígena.
    Fico impressionada com as suas experiências e aventuras…
    Beijos
    Edna

  8. Mara Regina Midelli disse:

    Bem-vindo a saúde indígena de novo, Altamiro, e eu voltei para Boa Vista
    …estou na área 30 x 15.
    Qualquer hora a gente se encontra…
    bj
    Mara

  9. Maria José Foeger disse:

    Caro Altamiro,

    Fico encantada com seus textos e relatos. São experiências fantásticas! Que bom que as partilha conosco.
    Parabéns e obrigada!

    Maria José Foeger

  10. Glauce Alves Ferreira disse:

    Me emociona seu trabalho… vc, desde pequeno teve uma visão diferenciada da vida…
    saudades
    Glauce Alves Ferreira

  11. Anapaula Mendes disse:

    Muito bacana Altamiro que tenhas retornado a saúde indígena!Que vício é este que não nos deixa jamais…hehe!Sabes que quando sai do Amapá existia uma proposta para trabalhar com os indígenas da raposa Serra do Sol, mas era contratação pelo PSF do município, o qual não me recordo o nome, me recordo que meu contato era Vania Motta, se não me engano; mas não deu certo e fui pro Kayapó!Adoro suas fotos!realmente nos transportam ao lugar e às emoções deles!Especiais!Espero que tudo de certo!Grande abraço, Anapaula

  12. Fernando disse:

    Mas que interessante…gostei

  13. Arineide Guerra disse:

    Simplesmente incrível, vc se aprimora a cada “impressâo” uma gostosura de se ler!!
    Bjokas

  14. Daniela Roque disse:

    Ei Tamirooooooooo
    Td bom???
    Como ta a vida com os indios???
    Espero q esteja bem e mto feliz!
    Grande abraço, p esposa e PomPom tb
    Dani

  15. Waldir disse:

    As três primeiras fotos são real? Abraço brother muita felicidade pra você, espero que tudo esteja bem por ai.
    Waldir

  16. Silvana Sabbag disse:

    Oi, Altamiro!!!!!!!!!
    Eu já estava com saudades!
    Como vc é muito espiritualizado, sinta tb. as energias desse templo budista em Três Coroas-RS.
    Bem cedo junto ao fogo, tornaremos a nos ver…
    Um grande beijo paranaense!
    Silvana

    1. carlos colucci disse:

      Silvana Sabbag, desculpa perguntar, mas você já trabalhou e viveu em SP-Capital, especificamente na CACC-CC?

  17. Beto Basso disse:

    Altamiro, bem que poderia ser Vilas-Boas e não Vilhena!
    Lindas as fotos!
    Beto

  18. Regina Muller disse:

    Oi amigo

    Como é bom receber suas mensagens… lembrar que existe um mundo tão diferente deste de pressa, violência diária, contas a pagar que não terminam nunca, serviços pagos a peso de ouro e que não funcionam… numa cidade maravilhosa!

    Gostei do falar espaçado… acho que estou querendo encontrar esse espaço!

    Grande abraço, tudo de bom.
    Regina

  19. Andrea Augustín disse:

    Meu deus, Altamiro, tua descrição do éu estrelado me deixou toda emocionada. Realmente, não temos nada a pedir, sóa a gradecer.
    Obrigada pelos teus relatos de culturas tão distantes e no entanto, tão próximas.
    beijo grande no teu coração.
    Andrea de Porto Alegre

  20. Janaíne disse:

    Alt, boa noite!
    Acabei de ler suas impressões e não pude deixar de mostrar ao Pierre, que leu também. Digo que não pude deixar porque o que é interessante e nos acrescenta algo deve ser multiplicado – acredito eu.
    Não sei se acontece com as outras pessoas, mas suas palavras e fotos me transmitem grandes sentimentos, como carinho, cuidado, respeito…
    Fica com Deus!
    Janaine.

  21. Mariana Jordão disse:

    Oi Doutor,

    Como sempre, adoro ler suas histórias, saber mais da cultura indígena e acho que você já deveria começar a pensar em ESCREVER UM LIVRO, onde o título também deveria ser IMPRESSÕES AMAZÔNICAS, tenho absoluta certeza que será um SUCESSO!!!

    Estou copiando painho e minhas irmãs para lerem suas histórias e também ficarem sabedoras.

    Mari.

  22. Tetê Carvalho disse:

    Querido primo,
    E o seu livro???
    Alguma notícia?????
    Estou aguardando.
    Sua leitora fiel,
    bjos mtos
    Tete

  23. Manoella Kurre disse:

    Realmente muito interessante a narração dos fatos sob o ponto de vista do Dr. Altamiro. Já passei para meus colegas daqui da USP e o blog já recebeu vários elogios!
    Beijos em todos.
    Manu

  24. Dione disse:

    Altamiro
    Gosto mais de receber via e-mail do que visitar o seu blog, eu me perco. Fotos que parecem a mesma, sendo que vc deu um tratamento e cores diferentes, nao eh?
    Fotos tiradas de longe, sem q o objeto (pessoas) perceba. Muito bom, adoro, parece de profissional e vc eh apenas (!!!) um medico. Nd como ter um excelente equipamento.
    Saudades,
    Dione

  25. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, continuo “vivendo” suas maravilhosas narrações tão ricas e bonitas.
    Abraço, Cristina

  26. Vânia Dewes disse:

    Aadorei sua fotos ficaram lindas, amei o artigo também. Vc é muito criativo.
    Vânia

  27. Jussara Campos disse:

    Amigo….sem dúvida essa foi uma das impressões que mais me marcou!estou aqui em casa sentindo e vendo todos os detalhes dessa viagem….VC È MTO FEEEEEEEEEEEERA!!!!!!!!
    LITERALMENTE um DINOSSAURO O PTEROSSAURODASTUCIAESABEDORIA TDB TDB Sacou? kkkkkk
    Quero sempre receber notícias!
    Um grande beijo
    Jubysyourfriendforever

  28. Carolina Zanon Rocha disse:

    Dr. Altamiro, quero agradecer o envio de suas “impressões amazônicas” para que as possa desfrutar.

  29. Daianebreu disse:

    OI Dro minha colega recomendou seu Blog, mais achei que estivesse exagerando, porém seu blog foi além do que imaginei…Parabens pela visao..seu olhos veem o invisivel aos policos e lideranças…E lindo olha o mundo com sua visão Parabéns…

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