Impressões Amazônicas 59 – Rondõnia

Tô na fila do cinema no shopping em Porto Velho, capital de Rondônia. Não pensem que é só um “amontoado de lojas” como temos em Boa Vista. Aqui o estado já está globalizado com direito a McDonald’s, Americanas, Chilli Beans e Cacau Show. Bem, mas vocês me conhecem e sabem que não vim aqui atrás de modernidades, mas para descobrir o que Rondônia tem e deixa escondido.

O dia de hoje foi rodando para conhecer a capital. Não é grande e deu pra ver as principais, e na verdade únicas atrações turísticas… Decididamente Porto Velho não é uma cidade para turistas. Não há um centro de informações turísticas no aeroporto e pelo jeito em lugar nenhum. As pessoas são sempre simpáticas e atenciosas mas a cidade nem tanto, com pouco para se ver, pouco verde e muito calor.

Tudo é muito corrido, agitado, prédios subindo, gente andando ligeiro. Se digo que Palmas sonha em um dia ser como Brasília, Porto Velho sonha em ser São Paulo. Como ainda não é, parece um adolescente, já grande, mas por vezes ainda perdido com tanto corpo. Ruas bem asfaltadas convivem com a ausência de calçadas e com muita poeira. Prédios surgem onde há pouco tempo não havia nada. O shopping onde estive logo será superado por outro ainda maior e já em construção. Da floresta amazônica, nem sinal e a ausência de árvores é uma surpresa em uma cidade erguida no meio da floresta.

A floresta selvagem era repleta de perigos para os seringueiros, nordestinos que fugiram da morte pela seca para encontrá-la nas doenças tropicais. Malária, disenteria e febre amarela ceifaram a vida dos “soldados da borracha”, recrutados à custa de muita propaganda do governo e de sonhos dos cearenses. Cidadãos de todo o mundo, pseudo-construtores de uma estrada no meio da floresta que nunca chegou ao seu fim foram “devorados” pela “ferrovia do diabo”, onde sob cada dormente descansam um cadáver.

Mas o estado corre. E em sua correria não há espaço para o que existia ontem.

IMG_3983 Igreja de Santo Antônio. Daqui do alto se tinha a visão da outrora terrível corredeira de Santo Antônio, terror domado da navegação.

Adeus floresta.

Adeus Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, hoje relegada a um museu-memorial que está para ser reinaugurado até a próxima eleição e que é a única grande atração para os turistas.

 IMG_4143 Memorial Madeira-Mamoré. Bem bonito, vale a visita!

IMG_4101 As “Três Marias” são as caixas d´água que serviam a Madeira-Mamoré.

IMG_4031 Galpão da Madeira-Mamoré, este esquecido pelo tempo…

Adeus mercado público. A função do antigo mercado público foi “empurrada” para a periferia e em seu lugar, reformado, o Mercado Central, conhecido como Cai n´Água, se tornou um mercado asséptico, limpo e organizado como não pode ser um típico “mercadão público” . Bom apenas para turista ver, com preços de turista e não de mercado público.

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Adeus mirantes. Os mirantes do rio Madeira, que abraçava sereno Porto Velho após ser sacodido na Cachoeira de Santo Antonio ainda estão lá. A cachoeira, na verdade uma grande corredeira, não está mais. Alguém percebeu o potencial energético na montanha-russa de águas que tornava o rio não navegável e que já foi submersa pela usina hidroelétrica em construção. Hoje só se miram as gigantescas obras, cartão postal do futuro. Mas quem quer ter a vista de uma usina hidrelétrica em sua grandeza de concreto quando poderia ter a vista de um rio encachoeirado em sua concreta grandeza?

IMG_4119 Mirante do Madeira. Ao fundo a usina em obras. Cheguei a ver botos rosa  e tucuxi.

Como um é pouco e dois é bom, não são apenas as corredeiras de Santo Antônio que vão submergir.

IMG_4003 Obras da Usina Santo Antônio.

Rio acima se encontram as Corredeiras do Teotônio, também fadadas a permanecer apenas na memória dos mais velhos. Como a usina ainda não engoliu o Teotônio, pude desfrutar de uma tarde preguiçosa a beira-rio. Para os moradores que vivem do peixe – da venda do pescado e dos turistas que vem pescar e comer – o futuro é uma incógnita. Uma nova vila foi construída pela empreiteira responsável pela usina, com tudo novo: casas, comércio, igreja, associação de moradores. Tudo padrão, tudo igual, sem a personalidade das casas-bares de palafita a beira-rio. Pergunto se vai ser melhor a senhora que me serve um Guaraná Dydyo (sim, Rondônia tem sua marca de refrigerante local, com os sabores guaraná, cola, laranja, limão, uva e… framboesa!!!)
– Tem que ser… Não temos outra opção – disse com um muxoxo. O que vai ser dos peixes ninguém sabe. As casas são mais bonitas e confortáveis, mas é aqui que a gente cresceu e vai ser triste ver tudo embaixo da água.
E peixe não deve faltar mesmo, pois logo a seguir chega um rapaz encomendando 150 kg de peixe para depois de dois dias. Haja pescaria!

IMG_4172 Corredeira do Teotônio. O nível marca os 22 metros que o rio atinge quando cheio. Vai ficar tudo debaixo da água.

IMG_4246 Parte da vila que vai ficar submersa.

10 07 RO (123) Trinta-réis grande, na Corredeira do Teotônio.

IMG_4256 Modelo de “casa-padrão” construída na Nova Teotônio, onde irão viver os moradores da beira-rio.

Vai ser mais energia para uma cidade já elétrica, agitada, no ponto para quem sonha em construir, quem ousa e quer empreender. Para isto Rondônia é o local certo, em ebulição. Fervendo dinheiro.

Se para descansar não vamos mais ter praias nas corredeiras de Santo Antonio e Teotônio, o que fazer então por lá? Brasileiro não fica sem uma aguinha, não é mesmo?

A melhor opção é Fortaleza do Abunã, pequena vila com praias que ficam metade na Bolívia, metade ainda em Porto Velho, mas em um pequeno distrito, distante 260 km da sede municipal (imagine que é mais que a metade da distância Rio x São Paulo, de 429 km). Esta é a praia favorita para o verão tanto dos Rondonenses quanto dos Acreanos. Imaginem um lugar escondido, vinte quilômetros de terra a partir da estrada, e onde você chega e encontra pousadas e bares, exatamente como em qualquer povoadinho de beira-mar do Nordeste. A diferença é que a água é doce, que forma um lago após descer agitada por uma corredeira enorme. E não é pouco rio não, como podem ver nas fotos. Como chegamos próximos ao por-do-sol os pássaros cantavam animados e os piuns aproveitavam os turistas, que se espalham nas pousadas e acampados a beira-rio, esperando o tempo passar sem pressa e tomando as bebidas favoritas: dydyo, cerveja Crystal e Pau de Burro, espécie de chup-chup (sacolé) feito com gelo raspado, adoçado com mel e misturado com suco ou, se for para adultos, com um pouquinho de cachaça.

IMG_4971 Esta praia, de frente para a praia da Fortaleza já fica na Bolívia. Turismo internacional… risos…

IMG_4954

IMG_4969 As pousadas são simples, mas muito simpáticas.

Outra opção são os refúgios ecológicos, que normalmente ficam em áreas de preservação dentro de fazendas ou plantações , ou seja, naquelas áreas onde toda natureza se refugia em um pequeno espaço, qual ilha de verde no meio do oceano do agrobusiness. Assim fica fácil vermos diversos animais, e no Cacoal Selva Park, 470 km de Porto Velho, em uma pequena trilha de 1 km fotografei três espécies de macaco, araras e diversas outras aves.

10 07 RO (355)

10 07 RO (386) Macaco Cabeludo, Parauaçu ou Monk Saki –

Pithecia monachus

Mas viajei tanto só para fotografar animais? Na verdade não. Queria conhecer mais este estado único. Percorri algumas das maiores cidades: Ariquemes (saudades do Fernando!), Jaru, Ji-Paraná. Todas, juntamente com Cacoal são cidades tão vibrantes quanto a capital e me surpreenderam muito. Movimento intenso, lojas grandes, comércio animado, pessoas prevendo futuro brilhante e construindo. Esta foi a impressão que tive de Rondõnia. Impressão de um futuro rico e próspero. Espero que de alguma forma encontrem também espaço para a natureza que resta!

18 comentários Adicione o seu

  1. Mariana Jordão disse:

    ALTA,

    Vc só não foi na MELHOR CIDADE de Rondônia … VILHENA, ou pelo menos não falou dela que ao meu ver é a mais graciosa … dava-me a impressão de estar no sul do país com tantos gauchos e catarinenses nas calçadas no fim das tardes com seus chás quentes ou gelados, só no chimarrão, sem contar com a beleza daquele povo, louros dos olhos claros …o clima também é parecido, a cidade é bastante fria no fim da tarde e tiveram noites em que eu tinha que ficar toda agasalhada kkkkkkk.

    Deveria ter-lhe dito para visitar o GUAPORÉ, um rio MARAVILHOSO que faz a divisa BRASIL x BOLIVIA … ficamos num hotel fazenda que o pessoal da região vão para fazer a prática de pesque e pague … o local é simplesmente FORA DO COMUM, ali vc tem a certeza de que DEUS existe, de tanta beleza e natureza que é o lugar. Me atrevi a atravessar o rio e escalar uma montanha … só para chegar no topo das pedras e ficar olhando para o horizonte … peeeeeeense numa subida, cheia de aventuras e muuuuuuuuito suor e calor … noooooossa, mas no fim, VALEU A PENA!!! Tenho fotos beliiiissimas de lá, a cidade é COLORADO, fica ao lado de Vilhena, muito próximo …

    Eita, tô quase escrevendo uma impressão amazônica kkkkkk … mas olha … amei mais esta edição, me fez remetr ao passado de 4 anos atrás onde vivia trabalhando nas unimeds de porto velho, ariquemes e vilhena e fazia todos os meses esta peregrinação, atravessando o Estado de Rondonia de ponta a ponta de “bus”, levando 12h para chegar no destino final 🙂 mas valeu a pena, conheci pessoas maravilhosas que até hj mantenho contato…

    Mari.

  2. Vandira Pinheiro disse:

    Caro Altamiro,

    Obrigada pelas fotos e pela oportunidade de conhecer outras realidades do País. Parabéns pelo seu trabalho. Por aqui está tudo bem espero que esteja bem e feliz.Saudades.

    Abraços,
    Vandira Pinheiro.

  3. Inácio Brito disse:

    Altamiro,
    Não sei aonde vc está exatamente agora, em que paralelo ou meridiano de nosso vasto território, mas sempre me questiono porque não temos aqui no eixo Rio -São Paulo quaisquer informações ou fotos ou qualquer fato que demonstre a nossa grandeza continental. Parece que existe um interesse real ou subjetivo de não integrarmos a nossa cultura e o nosso território .
    Porquê será que é assim ?
    Nosso país deveria ser cortado em todas as direções por ferrovias para sua efetiva integração com custos muito mais reduzidos do que rodovias.
    Um abraço do amigo de sempre,
    Inacio

  4. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Altamiro, querido,
    Cheguei agora da UNIVERSO e não me contive em ler suas Impressões. Prazeirosa leitura. Como é delicioso saber que os escritos são de pessoa que se conhece. como vejo amadurecida a idéia que tinha de ver você autor-pesquisador-“estiloso”. Parabéns, me sinto envaidecida realmente em lhe conhecer como conheço.
    Beijos
    Daucy

  5. Norma rocha disse:

    Oi amigo!
    Eu não tinha a noção o quanto vocês andaram. É isso mesmo, só assim é que a gente conhece nosso país.
    Saudades. bjão

  6. Maria José Foeger disse:

    Oi Professor Altamiro,
    Que belo texto e que fotos maravilhosas!
    Fico muito honrada em receber essas notícias e desejo que sua missão no norte de nosso Brasil seja de muito sucesso!
    Abraços.
    Maria José Foeger

  7. Eric Guaraná disse:

    Fala Altamirinho..
    Já estive em Porto Velho… Faltou vc falar sobre a Igreja Universal. Vc viu o tamanho?
    E no mais? Como vão as coisas?
    Abraços e saudades.
    Guaraná

  8. Preta disse:

    sabe nosso país é muito rico não so em mineral + em historias e
    paisagem , devemos cuida do que é nosso, mostrar para nossos filhos e
    amigos com é lindo. bjs…….

  9. Ricardo Coelho disse:

    Na foto 10, me senti lá!
    Maravilhoso! Nosso Brasil é maior que Rio, São Paulo e Paraná!
    Sempre Alerta,
    Ricardo

  10. Joelcio Silva disse:

    cumprimentos
    belas fotos
    abraço…
    Joelcio Siva

  11. Edna Dinelli disse:

    Altamiro, bom dia.
    É impressionante as observações que você faz a respeito dos lugares que conhece.
    Para um bom escoteiro, é sempre uma grande aventura.
    Amigo, como não vai ter o curso, estou viajando amanhã a Maués ( meu berço esplêndido ), fazem nove anos que não vou lá.
    Abraços
    Edna

  12. Vitor Augusto da Silva disse:

    caro amigo vc esta bem . ?
    fica com deus , qu ele ilumine seus caminhoss . grande abraço..

  13. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, é triste sentir o que vc viu de Porto Velho.
    Ainda bem que ainda tem lugares agradaveis como a Fortaleza do Abunã que como vc contou ainda é um povoadinho agradavel.
    O Rio de Janeiro continua lindo apesar das suas dificuldades.
    Fique com Deus, um grande abraço.
    Cristina

  14. Edith Chevalier disse:

    Obrigada abraços Edith

  15. André Souza disse:

    Bom dia Altamiro.
    Parabéns pelo texto meu amigo! Mesmo tendo morado em Rondônia tanto tempo, nunca havia lido nada igual. Fiquei emocionado com seu relato e agradecido por ter escrito com tamanha clareza e riqueza de detalhes as impressões que tivestes quando lá passou, demonstrando toda sua sensibilidade e percepção. Um forte aperto de mão esquerda e espero em breve poder revê-lo. Fique com Deus!

  16. Jorge Pinheiro disse:

    … se a NatGeo resolvesse fazer das tuas IAs uma série mundial você pensaria em classificar TUDO por temas ? …
    É MUITA coisa junto – hehehe

    Jorge Pinheiro

  17. Adnan disse:

    Gostei, pode continuar mandando.
    Abraços.
    Adnan

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