Impressões Amazônicas 62 – Ainda nos Waiwai

Manhã

São seis e meia. Estou sentado na varanda da casa, tomando capuccino e pensando em passar sete anos aqui. A música se confunde às cores e imagens que tento reter. O som grave do rio é a música de fundo que flui serena. Os agudos vêm de todos os lados numa polifonia em estéreo e com som surround. Traduzindo: ouço cantos para todo lado. A ariramba gargalha na beira do rio. Bem-te-vis, andorinhas, cardeais, sabiás e curiós espalham seus sons misturados a piu-pius, tem-tens, fi-fis, viu-vius, pi-pis, tiu-tius, tu-tus e ti-tu-tirrrs que não me foram apresentados. Dois papagaios passam conversando em voz alta. O japiim sozinho já é uma banda: apita, grasna, grita, assobia, faz brrr. Uma garça atravessa meu olhar. Um mergulho no rio. Outro. Peixe, jacaré, tartaruga? Quando vejo, já nada vejo. Andorinhas coriscam os céus. Pec-pec-pec. O pica-pau martela e resolvo procurá-lo. Vejo um mico-de-cheiro. Dois. Três. Depois do vigésimo perco a conta da família que atravessa o rio sobre um tronco de árvore enquanto sinto falta da câmera. Fotografei na retina. Beija-flores zumbem e brigam pela flor mais cheirosa. Já não sei o que vejo, o que ouço. Sons e imagens são um só. Se fundem. E o melhor, estou lúcido.

a cardeal da amazonia

Mais tarde seguimos para a Aldeia Jatapuzinho. Agradeço o tempo fechado que alivia o calor. Garças de diferentes tipos, araras, andorinhas e martins-pescadores nos acompanham. De longe parece vir chuva. De perto tenho certeza. O piloto pede para esticarmos uma lona sobre nossas mochilas e também nos cobrimos. Arrependo-me de ter deixado a capa de chuva na mochila. Logo o arrependimento passa, pois a lona não deixa passar água. Os pingos são grossos. Lembro quando enchia uma big-coke com água da chuva em 5 minutos no Amazonas. Tá igual. Chove muito. Quando muda o ritmo chove mais ainda. Uma hora assim. Agradeço não ter pego minha capa que protege a roupa na mochila. Já estou todo molhado, pois mesmo sem passar pela lona ela escorre pelo meu pescoço. Pela beira do barco ela chega ao banco. Tento tirar a água com a mão. Não adianta, logo já estou sentado na água. Chove mais forte. Troveja. As garças continuam bailando. Devem ser a prova d água. Também devo ser, ao menos não sou de açucar. Não paro de olhar a margem. É neste momento que aparece a onça no Globo Repórter. Quero ver a onça. 90 minutos de goteira no céu. O barco para. Chegamos. Não chegamos. Pit stop apenas. Paramos para colocar combustível. O barco segue. A chuva também. Cada vez que mudo de posição um rio escorre pelo meu pescoço. Logo viro um oceano. Tudo cinza. A chuva cai sem pausa. Me sinto muito feliz. Meus pés estão quentes. E secos. Duas horas de chuva. Um barco na beira. Outro. Uma caixa d’água. Chegamos. Não vi a onça do Globo Repórter. Descemos do barco enquanto cai a última gota de chuva que lavou meu corpo e minha alma.

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Nesta aldeia vou a casa de Seu Edvaldo e Dona Alaíde. Ele sofre de Parkinson e vou ver como está. Quando chego sou transportado a um universo paralelo. Um senhor que aparenta pouco mais de 60 anos, cabelos fartos e pretos como a graúna sentado em sua rede. Ele não sorri, a doença o impede, mas é clara sua alegria em nos receber. Ao seu lado grandes potes de barro, um jamaxi, algodão colhido e pronto para fiar, fogo de chão e trançados de buriti para um novo telhado. O jacamim correndo entre os frangos e as crianças “montando” na anta como se fosse um bezerro mostram que realmente estou em um universo maravilhosamente paralelo.

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Aldeia Samaúma

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A comunidade mais próxima fica a duas horas de distância de voadeira, quando o tempo está bom. Se o motor espanta as aves, não impede de vê-las bailando em sua fuga pelos céus. O reflexo das matas e do azul do céu nas águas castanhas me faz rezar e agradecer por cada instante que quero que se prolongue para sempre em minha memória.

No caminho passamos por uma cachoeira onde os barcos não passam na época de seca e onde hoje vemos somente as pedras mais altas. Após cerca de mais uma hora o rio se alarga e surgem várias pedras em um remanso. Crianças tomam banho e ao alto vejo uma pequena casa. Descubro que o paraíso tem várias moradas quando paramos e percebemos a fartura. Mamão, laranja, ingá, coco, limão, urucum, goiaba, cana, batata, mandioca, manga, algodão, abóbora, melancia… pode plantar que dá. E também dá criança. Como tem criança! Sinto-me em um mundo isolado e único.

10 08 waiwai l viagem para sumauma

A terra é bem preta, alta, por cima do rio. Estarei em uma das “terras pretas de índio”? Assim são conhecidas as terras em que as antigas populações brasileiras viviam. O resto de suas fogueiras, seus enterramentos, seus alimentos e cerâmicas pouco a pouco ao longo de centenas de anos criaram estas terras onde são encontradas tanto a fertilidade quanto testemunhas de nosso passado. Fico imaginando como devia ser o mundo nesta época, longe da influência de nossa cultura. Caçar, pescar, comer, ter filhos. Um dia após o outro, sem preocupação maior do que a de viver. Cuidado com a onça. Respeito com as orientações do Xamã. Não infringir os tabus. Assim se vivia bem e muito.
Hoje a terra está reocupada, com uma aldeia de poucos anos. Samaúma é o nome, e da árvore, gigantesca, não resta nem o tronco. Virou passado como o que a terra preta oculta. Uma igreja hoje substitui o pajé no conforto da alma.

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Igreja Evangélica Indígena de Samaúma, está na placa da grande casa que serve também de escola.
– Mas vai mudar o nome – explica o Tuchaua Cláudio. Afinal, a igreja não é dos indígenas. É dos homens, e são bem vindos todos que querem ouvir a palavra de Deus. Pode ser índio, branco ou preto. Por isso tem que mudar o nome.

Depois disso, não preciso dizer mais nada.

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21 comentários Adicione o seu

  1. Fátima Reis disse:

    OI ALTAMIRO, parabens, e as fotos estao lindas, BOM NATAL E UM 2010 COM MUITA SAUDE, PAZ E PROSPERIDADE BJS

  2. Lídia Pantoja disse:

    Muito bom marido!!!
    Mas muito reflexivo também… se essa foi a sua intenção, conseguiu alcançar!
    Beijos com amor e saudade!

  3. Edson Sampaio disse:

    Oi Altamiro! Obrigado pelo e-mail, texto bem escrito e lindas fotos. Um abraço

  4. Luiz Quintino disse:

    Altamiro,

    A Amazônia Oriental foi o lugar mais interessante que conheci,
    Terras das águas
    Águas que brotam da terra
    Águas que caem do céu
    Águas que viram rios ,
    Que parecem mar…

    Mas é uma área pouco conhecida,
    A não ser por algumas “ONGs”
    Ou por imagens de satélite…

    Terra rica de gente pobre,
    Que se equilibra na beira do rio,

    Ribeirinho vive de peixe e açaí,
    Mas se alimenta de esperança,
    Que vem do rio
    No toque- toque do motor diesel…

    Também, vi muita novidade
    Parabólica, celular e gerador
    Afinal, mesmo no “fim do mundo”
    Não dá para ficar desconectado…

    Realmente a Amazônia é realmente um lugar muito interessante…

    Forte abraço,

    Luiz

  5. Marcelo Moraes disse:

    oi meu amigo como estas q saudades de vc
    Marcelo

  6. Marco Santana disse:

    Olá, Altamiro!

    Quem escreve é seu amigo jornalista de Santos (SP) e fiel seguidor de suas impressões amazônicas. Quero avisar que em fevereiro estarei na região Norte. Chegarei em Boa Vista no dia 2, para em seguida partir até Santa Elena de Uiarém (Venezuela), de onde irei até o Monte Roraima.
    Caso seja possível, seria um prazer cumprimentá-lo pessoalmente pela qualidade do seu trabalho, na Medicina e no blog, quando eu estiver em Boa Vista.

    Abraços,
    Marco Santana

  7. Jussara Campos disse:

    Ei amigo…..quero saber quando vc vai publicar essas maravilhas!
    Beijinhos,
    Saudades
    Xuxubadabadu

  8. Dianne disse:

    E aí, moço? Você, nessa pequena pausa que fiz pro almoço, me fez viajar e sentar ao seu lado nesse barco…acho que sonhei olhando as fotos lindas…
    Eu moro em um sítio, mas nem por isso os sons da civilização, deixam de invadir meus ouvidos e às vezes sonho com um silêncio só quebrado por rumores de pássaros.
    Fica na Paz, um abraço,
    Dianne

  9. Irene disse:

    Suas impressões estão viajando o mundo…
    Reparto com muitos amigos e colegas até de outros países, o que vc escereve e retrata!
    Vc é um ser raro e valioso: fico daqui acompanhando suas aventuras, orgulhosa como se fosse sua mãe,
    pelo jovem médico e já escritor, que temos o prazer de “conhecer!”
    Um abraço
    Irene

  10. Maria José Foeger disse:

    Altamiro,
    Cada vez que leio uma mensagem sua fico imaginando como vc deve estar feliz nesse lugar. Suas palavras transmitem isso. As fotos maravilhosas completam o sentido das palavras. Parabéns pela escolha de fazer da sua profissão um grande ideal de vida!
    Paz e Bem!
    Maria José Foeger

  11. Joani Lyra disse:

    Acho que vou transformar suas impressões amazônicas em objeto de estudo.

  12. Carlos Moura disse:

    Faltou só uma foto das crianças com a anta. Sabia que os Tukano usam a mesma palavra para anta e vaca/boi, weku (ú cortado).

    Abraço na família!

  13. Daucy Monteiro de Souza disse:

    E via o nosso Brasil, visto por um escolteiro Sempre alerta apra servir! Médico e dedicado e, Meu amigo. que felicidade me tra ler estes encantos.
    Beijos!!!!!!!!!!
    Deus o proteja.
    Daucy

  14. Marco Pereira disse:

    Tatá,

    Seu blog é demais..acabei de colocar no meu como um dos que sigo!
    Parabéns cara…um dia quero ser como vc.

    Abraços

  15. Alzira disse:

    Tá fotografando cada vez melhor hein!
    bom finds
    Y

  16. Cisa disse:

    Tamirim,
    Tá mais famoso do que nunca! A Raquel me trouxe o jornal do conselho com a reportagem sobre o seu trabalho. Show de bola!!!!
    Botas essa e as outras igreja pra correrem dai.
    abração
    Cisa

  17. Aline Lima disse:

    Parabéns Altamiro. O trabalho que vocês fazem é fantástico e absolutamente necessário. Um abraço a cada um por mim. Seria um sonho se todos tivessem um olhar tão atento, respeitos e admirado.

    abraços

    Aline Lima

  18. Carmen Barreira disse:

    Muito demais,
    Você esta ficando famoso amigo…
    Feliz Natal e nos vemos em Curitiba em 2011,
    Beijos,
    Carmen

  19. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro, mais uma historia tão gostosa de se ler, alias esta de hoje parece uma poesia com descrições tão bonitas.
    Um grande abraço, um Natal com muita paz.
    Cristina

  20. Adnan disse:

    Muito legal. Sobre os isolados quero mais noticias.
    Um forte abraço.
    Adnan

  21. Iza Cordeiro disse:

    Muito legal…. quero ler mais de suas historias assim conheço um
    pouquinho mais dessa pessoa encantada que é vc…. beijos

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