Impressões Amazônicas 64

Amigos, a tragédia do Rio de Janeiro não tem como passar despercebida. Uma semana antes, logo após o Ano Novo estive em três dos lugares mais afetados: Nova Friburgo, Teresópolis e São José do Vale do Rio Preto, onde a vida transcorria serena, sem intercorrências apesar dos rios cheios. A chuva veio forte, os rios subiram mais e aconteceu o que todos sabemos. Esta semana escutei uma história que explica o que aconteceu. Partilho com vocês antes de contar um pouco do que vi na Aldeia Maturuca em dia de festa. Ah! No blog (https://impressoesamazonicas.wordpress.com ) vocês encontrarão a descrição do Motitsuki, tradicional festa de ano novo da colônia japonesa.

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Minha esposa está dando aula para indígenas que fazem parte do curso de graduação específico para eles, que acontece na Universidade Federal de Roraima. As aulas são ligadas a questão alimentar. Durante uma aula de Segurança Alimentar discutiam a questão da preservação da natureza quando um dos alunos, que é professor em aldeia, contou o que aconteceu na semana passada quando conversava com uma criança que havia visto a calamidade do Rio na televisão.

– Professor, já sei porque a chuva matou tanta gente lá no Rio de Janeiro.
– Porque – perguntou ele?
– Porque a Natureza foi falar com o Deus da Natureza e contou o que estava acontecendo com ela, como estava sendo maltratada. Disse que os morros são sagrados e não poderia haver tanta gente morando naquele lugar. Isto deveria ser respeitado pelos homens.

O Deus da Natureza ficou triste e começou a chorar. Mas ficou tão triste que chorou muito e suas lágrimas desceram com muita força derrubando tudo e enchendo os rios lá embaixo.

Uma pequena curumim já conseguiu entender… nós talvez também já tenhamos entendido… Mas quando será que agiremos?

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O rio Branco quando sobe alaga muitas casas e a cena é esta… apenas os telhados de fora… Calamidade como no Rio de Janeiro

ALDEIA MATURUCA – Nov 2010

Ônibus e vans não param de chegar. A aldeia está cheia de parentes que se acomodam em pequenas malocas (que no sul poderíamos chamar de quiosques) onde atam redes coloridas e crianças brincam sem preocupação. Atendi um bebê de dois meses febril. Mesmo tão pequeno havia viajado cinco horas na caçamba de um caminhão – impossível estar bom.

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Amanhã é dia de festa em Maturuca, a comunidade politicamente mais importante da região da Raposa Serra do Sol. Em abril o presidente Lula esteve aqui para, após o longo processo judicial, homologar a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, terra ancestral de macuxis, wapixanas, ingaricós e patamonas que lutaram muito para ter seu direito reconhecido. Nesta luta “contra cachorro grande”, ouviram mentiras, tiveram seu povo dividido por meio de intrigas e sofreram até atentados terroristas como o que colocou fogo na velha igreja da comunidade.

10 11 maturuca g igreja nova _ velha _ cemiterio

Mas amanhã será dia de festa e de inauguração da nova igreja (Igreja Sagrado Coração de Jesus Arabath) desta comunidade de população predominantemente católica. Agora à noite acabamos de nos apresentar a população juntamente com outros convidados. Somos uma equipe de dois médicos, dois enfermeiros, dois dentistas, técnicos de enfermagem e de laboratório que irão atender em um moderno posto de saúde, construído há dez anos com fundos italianos e que garante boas condições de trabalho. Ecologicamente correto, tem máximo aproveitamento de energia solar para iluminação e geração de energia, feita por grandes painéis solares. Estaremos prontos para assistir quem precisar por qualquer problema de saúde, inclusive aqueles goles a mais de caxiri.

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Fotos do Posto de Saúde, doado por uma ONG italiana.

O caxiri, bebida fermentada de batata ou mandioca, é a bebida tradicional da região. Pela manhã tivemos uma reunião com o dinâmico tuchaua Dejaci, preocupado a questão do consumo de álcool, inclusive o caxiri, nas comunidades. Segundo ele, no Maturuca o problema é controlado, mas nas comunidades vizinhas a questão é séria. Contamos inclusive com representantes do Ministério da Saúde, vindos de Brasília para o encontro.
– Aqui não temos muito problemas – afirma o tuchaua. Mas para darmos o exemplo, quero elaborar um programa de combate real do álcool, para depois podermos falar nas outras comunidades. Por aí o pessoal não toma só caxiri, toma também muita cachaça.

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Reunião com o Tuchaua Dejacir.

O tuchaua está certo, mas não vai ser fácil, pois o hábito da bebida está tão arraigado entre eles quanto a nossa “cervejinha de final de semana”, com a diferença de que o caxiri eles fazem em casa mesmo – e muito. A bebida é tão importante que uma das competições da festa é de “quem toma mais caxiri”. Não será um belo exemplo.

Outras competições, igualmente tradicionais, serão mais interessantes de se assistir: quem come mais damurida – o infernalmente quente caldo de pimenta -, quem agüenta nos olhos mais mangarataia por mais tempo (planta ardida que ajuda a “limpar os olhos”, trazendo boa visão para o guerreiro), quem suporta mais ferrada da enorme formiga tucandeira, quem faz fogo mais rapidamente sem fósforos, a melhor pintura corporal, além de eficiência em ralar mandioca, raspar buriti, fiar algodão e fazer tranças. Para equilibrar o tradicional com o moderno, futebol masculino e feminino, corridas a cavalo, corridas de resistência e cabo de guerra.

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Pela manhã acordo com o galo. Questiono-me se a festa realmente começará tão cedo, ao raiar do sol. A preguiça é grande, mas a curiosidade é maior e resolvo levantar, tomar um rápido café e ir ao pátio central. Cheguei atrasado. Crianças e jovens já estão dançando com suas roupas típicas em frente ao palanque onde diversas lideranças indígenas, políticas e espirituais discursam.
Começa o Hino. Entra uma atleta de futebol com a bandeira nacional. A emoção é grande e nítida, e aumenta quando o Hino é repetido, desta vez em Macuxi. Uma afirmação clara de que, diferente do que insinuam cartas inventadas que circulam pela internet, todos são orgulhosamente brasileiros.

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Ainda sob a emoção do hino uma liderança assume o microfone e afirma que todos querem contribuir para fazer um Brasil forte, e para isso trabalham duro. Como num ofertório de suor e labor, o tuchaua pede que seja trazida à frente do palco a produção local: macaxeiras enormes, carás, bananas, batatas, mel, melancia, abóbora, cana, laranja, mamão, cana, tapioca, farinha, muita farinha, carne de sol, leitão, frangos, patos, ovos e até redes, artesanatos e roupas confeccionadas pelo Clube de Mulheres. A comunidade é próspera e todos se orgulham. Como a formalidade é menor que a nossa, uma professora corre com um bebê no colo até o palco. Prosperidade de crianças também.

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Hora de comer. Todos agora tem oportunidade de provar os alimentos que a terra sagrada de Makunáima deu em troca de tanto suor. O caldo da melancia escorre pelos rostos, adultos se acotovelam em uma mesa comprida, a tapioca é partilhada de mão em mão. Os produtores, orgulhosos, posam ao lado de seus produtos. Posam? Sim, pois não somos somente nós, não indígenas que queremos registrar o momento. Máquinas fotográficas, celulares com câmeras e filmadoras… Vale tudo para registrar o momento e levar para casa imagens desta festa viva da cultura Macuxi. Assim os que não puderam vir se sentirão ao menos um pouco presentes e cada comunidade terá oportunidade de fazer a sua própria festa. A incorporação de tecnologia se transforma não em uma agressão aos costumes, mas uma ferramenta no resgate, preservação e estímulo a tradição.

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Barriga cheia a festa recomeça com a dança tradicional parichara.

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Os dançarinos não se cansam. Dançam em círculo, comandados por um ancião. Para animar os espíritos – mostrando que o tuchaua terá muito trabalho em seu programa de redução do álcool – um jovem passa a cuia de caxiri entre os mais velhos.

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No centro do círculo, despreocupadas, duas crianças se espalham pelo chão, alheias a confusão ao redor. Se em nossa cultura isso seria inadmissível – crianças rolando no chão, no meio de um círculo de dançarinos em uma grande festa, e longe de suas mães!!! – aqui é normal. Dentro do círculo, envolvidas pelo calor dos parentes, os pequenos estão certamente protegidos, abençoados pelos antepassados e descobrindo o prazer de ser indígena na Raposa Serra do Sol.

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24 comentários Adicione o seu

  1. André Werneck disse:

    Fala Alta!
    Pelo que entendi, vc vai fixar residência nessa aldeia central.Abraços e sempre!
    André Werneck.

  2. Denise Guerra disse:

    Querido amigo, por incrível que pareça os curumins sabem mais da vida que muitos adultos da cidade. adorei estas suas postagens, nem parece que é no Brasil. Bjs!

  3. Edmea disse:

    Altamiro, como seria maravilhoso observar uma festa destas – e deliciar-se com tantos produtos naturais purinhos! E’ louvavel ver-se o respeito dos jovens perante a bandeira e o hino nacional – e tambem a alegria das dansas!
    Repassei seu e.mail para todos os brasileiros da minha lista de enderecos eletronicos, incluindo os daqui e os dai, pois e’ importante que aprendamos mais sobre o nosso pais e os “verdadeiros” brasileiros, os que estavam na terra antes de chegarem os imigrantes do mundo todo!
    Parabens pelo seu trabalho sem preco e que Deus lhe continue dando energia!
    Abracos,
    Edmea McCarty
    Alexandria, Virginia

  4. Raquel disse:

    Adorei o relato da sua esposa e da festa que vc participou. Muito legal a gente reverenciar as tradições e dar as boas vindas à modernidade sem maiores preconceitos, né? Por que não? Por que não aliar saudavelmente? Taí, começando a mudar algum paradigma meu. Fui educada por uma vó conservadora e por incrível que pareça, atrás de minha existência rebelde, descubro que sigo sempre o mesmo ritual em certas coisas (poucas, tudo bem). Mas é tão incentivado o preconceito qto a aliar tecnologia e tradição que parece até heresia um índio filmando.

  5. Wallace disse:

    Parabens Vilhena!! vc é um felizardo por poder vivenciar tudo isso!
    excelente as imagens e texto
    ABÇ
    Wallace

  6. Martha Barrozo Maldonado disse:

    Meu querido amigo,
    Vc não imagina a felicidade que tenho quando recebo notícias suas e de onde vc vive!!!! É algo tão diferente do que vivemos …e me orgulho de ter um amigo que é tão sutil em seus relatos.Fiquei emocionada quando vi a foto 7 realmente no mastro!!!! rsrsrsrseles querem levantar a bandeira , tem algum significado ????
    Fico por aqui ….com muitas saudades!!!! Te esperando para aquela Pizza em Nikiti!!!
    bjusssss
    seus amigos de sempre
    Martha e Flavio

  7. José Carlos Azeredo disse:

    Caro amigo Altamiro:
    Emocionante ver a fotos.O civismo demonstrado pelos indígenas!
    A alegria estampada nas faces!
    Que magnífico o trabalho de vocês!
    Fico-lhe grato por compartilhar esses momentos tão importantes.
    Abraços.
    José Carlos

  8. André Julião disse:

    Salve, Altamiro!

    Bela festa, belo relato e belas fotos.

    Abraço

  9. Carol Meneses disse:

    Alta,
    mais do que me deleitar com suas formidáveis impressões fiquei muito feliz com o relato da curumim. feliz de saber que em algum lugar as pessoas compreendem que quem faz mal ao homem é o proprio homem… colocar a culpa na natureza e nao perceber o absurdo que nos humanos fazemos com ela é muito fácil…

    penso que mais que cobrar apenas o poder publico, precisamos mudar o modo global de ver o mundo…
    um bjo enorme com saudades
    Carolzinha 🙂

  10. Pery disse:

    Sempre Alerta Altamiro,
    Mais uma vez vejo o belo trabalho que você, e agora tomo conhecimento que sua mulher também, faz aí em Roraima. Parabéns!
    Acenderei um incenso para o Deus da Natureza e também o homem branco, para que possamos chegar a um acordo…
    Abraços meu irmão.

  11. Olair Rafael disse:

    Olá
    Alt
    (amiro)
    Saudações!
    parabéns!!!

  12. Deolinda Franco disse:

    Parabéns, que Festa linda !!!!!!!!!!!!!!! Tudo tão organizado. Beijos pra vc e a Lídia

  13. Roberto Basso disse:

    Até que enfim mandou uma foto para provar que as índias não tem estrias ou celulite. Lindo par de pernas!
    Beto

  14. Padilha disse:

    Olá Miro,
    Espero que tenha feito boa viagem de volta a Roraima, fico no aguardo da informações sobre trabalhar como Tecnico de Enfermagem na Amazonia, e vamos nos falando gostei muito da historia da pequena Curumim.
    Mande fotos da Conferencia, e se precisar de algo aqui em São Paulo é só dar um grito.
    Abs
    Padilha

  15. Chang Yen-Li Chain disse:

    Olá Altamiro:
    Tudo bem?!!, que bom receber essa reportagem tão interesante e fotos, cadê você e sua esposa? tem que aparecer.
    Beto está pensando em vir.Eu vou. Um grande abraço. Chang

  16. Lavínia Resende disse:

    Olá,
    Olha, cada dia me surpreende mais com suas fotos e estórias.. lindo demais…
    Fica com Deus.
    Felicidades sempre!!!
    Bjos…

  17. Dianne disse:

    Oi TATÁ. Adorei as fotos e como não podia deixar de ser, amei seu relato. Dá mesmo pra fechar os olhos e me imaginar aí, com vcs. Bjs.

    Dianne

  18. Jussara Campos disse:

    Ei amigo…arrasando com sempre!!
    Um beijão,
    Ju

  19. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro
    Participar mesmo de longe desta festa no Maturuca e saber que os indígenas vivem em paz na Raposa Serra do Sol me faz feliz. As fotos são ótimas.
    A historia do que aconteceu nas serras do Rio foi bem explicada pela criança, pena que nós adultos ainda teimamos em não respeitar a natureza a nossa volta. É triste.
    Um abraço da amiga.
    Cristina

  20. Marcelle Rebelo disse:

    Alta,

    Incrivel! Que dádiva poder viver e dividir conosco tudo isso. Agradeço a mensagem!

    Beijocas,

    Marcelle Rebelo – Kisa

  21. Marcos Silva disse:

    Olá, Altamiro !
    Achei suas fotos muito bonitas e fabulosa a versão sobre o motivo da enchente na Região Serrana: qdo chegar em casa vou contá-la ao Tiago (meu filho).
    E o mte Roraima ? Já foi lá ? Tenho bastante vontade de ir lá tbem. Quem sabe um dia ?
    Qdo possível ,manda notícias.
    Um gde abraço

  22. Regina Muller disse:

    Ói Altamiro

    tenho certeza de que o pequeno curumim estava certíssimo sobre a tristeza da mãe natureza… quantas vezes passamos pela serra vendo a favelização das cidades (não só lá, mas em tantas outras áreas, como Minas Gerais, por exemplo), e pensamos que isso não pode dar certo…
    Será que esse povo aprende a lição?

    Mas, mais uma vez seus relatos são uma delícia de ler, e a gente voa e se sente dentro da festa e da viagem, nas aldeias e nos rios.
    Um grande abraço
    Regina

  23. Cora Araújo disse:

    Oi Altamiro,

    Talvez não lembres mais de mim, mas isso não é muito importante. Acompanho com enorme prazer a tua trajetória pela Amazônia. Gosto tanto de tudo que nos conta que tomei a liberdade de compartilhar estas últimas “Impressões” com uma colega e uma amiga muito especial, Marilda Neutzling. Tenho certeza que ela e o marido vão apreciar muito tudo que escreves.

    Desejo que 2011 seja muito especial e cheio de novos conhecimentos e realizações junto ao povo indígena que é a tua população de trabalho por opção.

    Agradeço imensamente a tua generosidade em dividir conosco tua rica experiência entre os indígenas da nossa querida Amazônia.
    Um grande abraço.

  24. Arthur Gevaerd Neto disse:

    Altamiro, bom dia
    Me emocionei ao ler teu relato, e, me emocionei duplamente ao ver as imagens.
    Você é uma das poucas pessoas que têm a oportunidade de vivenciar o que há de mais puro e lindo em nosso país, a alma de nosso povo mais antigo.
    Por séculos só ouvimos falar da “preguiça” de nossos povos indígenas, ouvimos críticas pesadas sobre o consumo de álcool, e outros absurdos. Só que nos esquecemos que uma grande parte das mazelas enfrentadas pelos brasileiros P.O. (porque puros, só eles) foi implementada pela cultura branca.
    Nossos índios, em suas culturas milenares, são sábios desde a mais tenra idade, e, nota-se isso pelo depoimento da curumim.
    Quiçá consigamos trazer para nossos jovens 1% da consciência ecológica e naturalista que têm nossos povos indígenas, temos trabalhado muito para isto, mas, as dificuldades são enormes.
    Parabenizo-o pelo excelente trabalho de divulgar essas maravilhas da nossa Amazônia, espero poder receber novos depoimentos e assim realimentar a vontade de continuar lutando por um mundo melhor.
    Abraços

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