Impressões Amazônicas 72

O arco-íris forma um anel completo sobre a aldeia. O final de tarde é abafado em Santo Antonio do Pão, uma das comunidades da região de Caraparu, onde estou para investigar possíveis causas de morte em crianças menores de cinco anos. Nunca há uma única causa: dificuldade de acesso, baixo peso, falta de medicamentos, descontinuidade de práticas de cuidados tradicionais são alguns dos fatores envolvidos.

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Conversamos em cada comunidade para que os próprios indígenas auxiliem na identificação dos problemas.

IMG_3001 Reunião em Caraparu IV

Escuto opiniões bastante lúcidas:
– A religião atrapalhou a gente, pois os padres e pastores diziam que o pajé “era coisa do diabo”. Aí o que aconteceu? Em muitos os lugares ninguém sabe mais como fazer para curar o parente.
– Nós não podemos comer estes alimentos congelados, este frango “que já está morto há tanto tempo que a gente nem sabe”.
– A “sacolinha” não resolve a questão indígena. O beneficio que queremos é incentivo a agricultura.
– Tem alguns parentes que bebem muito. A pessoa que bebe se mata pela boca igual peixe. Quando está “na bebida” tem palavra forte para falar, aqui na reunião não fala nada.

IMG_2871 Depois das reuniões, toda atenção durante as orientações.

Estranho o arco-íris sem chuva. Aos poucos se aproxima uma assustadora nuvem cinza-chumbo. Com ela vem o vento. Muito vento, daqueles que formam redemoinhos, bons para pegar saci. O barulho sacode as árvores e logo toda conversa tem que ser aos gritos. Mas… cadê a chuva? Do galpão onde estamos vemos pouco mais que algumas gotinhas. Amazônia… nome que só entende quem vive. Em menos de um minuto o que eram gotinhas se tornam chafarizes derramados do céu.

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Chuva + vento = vamos tirar correndo as redes que vai encharcar tudo!
Todo mundo se esconde no meio do galpão, mas o vento é grande. Só está protegida a minha barraquinha… Ledo engano, pois a chuva encharca o chão e logo ela está sobre um colchão de água. Vamos ver se ela é mesmo impermeável. O único consolo é que com o vento os carapanãs e piuns desaparecem.

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IMG_3480a Barraquinha “boiando” na água

Tão rápido quanto veio, em pouco menos de quinze minutos a chuva que veio se foi. Logo surge seu Vitalino para ver se estamos bem. Portando um vistoso guarda-chuva de margarida, sorriso no rosto moreno vincado, os cabelos brancos não escondem a idade. Ele é bom de papo e conta como fundou a comunidade, onde todos são filhos e netos. Reclama do beribéri, doença carencial comum na região devido a dieta monótona e o alto consumo de caxiri e que o deixou fraco e sem ânimo para nada, misturando os sintomas da doença com os dos mais de 80 anos. No final pede desculpas pela comunidade não estar tão bonita quanto no tempo que ele era “o cabeça”.
– Meu filho tenta, mas ainda tem muito que aprender comigo.
Pois é… segundo seu Vitalino “Barba-Negra ainda é o rei dos sete mares”.

 IMG_3497 Olhem o detalhe do guarda-chuva com a imensa margarida.
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Atendimento na Aldeia Caraparu 4.

IMG_311120 min de “perna” levando a balança… assim que mantenho a forma.

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Estou avaliando as crianças quando o Agente se Saúde me chama.
– Doutor, minha mãe está aí fora passando mal, tendo uns “tremeliques”.
Corro para ver o que aconteceu e encontro uma daquelas avozinhas com todos os cabelos brancos que indicam sua quase centenariedade tendo crises de convulsão focal – um provável AVC. O que fazer? Soro para hidratação na veia e oração. Não há mais opções. A pressão está boa e ela logo melhora reclamando apenas de uma leve dor de cabeça.
Dona Ana veio andando debaixo do sol equatorial de onze horas. Quente? Não. Escaldante. E veio sozinha.
– Mora aonde? – quero saber.
– Ah doutor, logo ali naquela casa.
No final da tarde libero Dona Ana para casa e ela, tão logo se vê livre do soro aperta a mão de todos e se despede. Pega um bastãozinho e sai andando. Vou seguindo com os olhos. Não era “aquela” casa que imaginei. E nem a outra, nem a outra. Ué… Cadê a casa de Dona Ana? É mais de dez minutos de pernada até o pontinho de adobe se tornar um casa de verdade. E ela veio sozinha debaixo do sol. 96 anos.
Quando crescer quero ficar igual a Dona Ana.

 IMG_3293 Eu atendendo Dona Ana.

IMG_3311 Dona Ana, de branco, já se mandando sem esperar ninguém.

Agora estamos em Waromada, palavra Macuxi que dá nome a uma pequena rã que mora nas árvores. Esta é a última aldeia que vamos visitar nesta viagem. Estamos em um posto de saúde de adobe, com dois cômodos. Em um ficam as redes das meninas e em outro está minha barraca e a rede do Aldelino. Estou na barraca para escapar dos últimos carapanãs quando escuto um grito:
– Uma cobra!

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Enquanto alguns correram “da” cobra” eu corri “pra” cobra, com a câmera na mão. Eu sempre enxoto as cobras, mas esta não teve perdão, afinal estava em uma fresta dentro do posto e saindo do lado das cordas das redes. Uma pazada e a cobra descansou em paz. Jararaca. Ainda filhote, mas com belas presas.
Alívio. Voltei para o computador, para contar a história.
– Uma cobra!
Ai, ai… será mesmo? Onde tinha uma, tinha outra. E lá fomos nós tentar dar fim de mais uma jararaca. Meus brios de ecologista ferrenho estavam manchados, mas… o que fazer? Lá se foi outra cobra.
Todo mundo perdeu o sono e resolvemos fazer um café.
– Uma cobra!
Já estava ficando mais repetitivo do que desenho do Pica-pau, mas não é que tinha outra? Só a cabecinha… Só que ela ia e voltava, não dava para pegar. Para podermos dormir a solução seria “desmontar” o ninho das cobras, que era exatamente a parede do posto. E lá fomos nós desmontando a parede até chegar a cobra, desta vez maior que as outras e… menos outra cobra na face da terra.
Onde tem três cobras tem mais? Não sei, mas na dúvida não vamos mais ficar aqui e a noite vai ser no malocão, que é aberto e não tem perigo de cobra nas frestas.

IMG_3755a A última cobra e a parede já sem tijolo.

— XX – XX – XX – XX

Para finalizar uma historinha do hospital, onde atuo em unidade semi-intensiva quando não estou viajando. A vaidade é uma característica de todas as mulheres. As Yanomami adoram se pintar, usar enfeites, se maquilar, o que é muito difícil quando estão nas aldeias. Assim, no hospital elas pedem de presente batom e esmalte. A alegria de estarem todas enfeitadas é enorme, e não perdem a oportunidade de mostrar para as amigas. É uma folga de prazer em meio a dor do hospital.

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Abraço no coração,

Altamiro

30 comentários Adicione o seu

  1. Glaucia Pimentel disse:

    Dureza….mas gratificante!!! :))

  2. Fátima Reis disse:

    OI Altamiro dessa vez teve 2 fotos do arco=iris, gostei .Mas as ultimas fotos nao abrem apresentam erro bjs

  3. Continua maravilhoso!

    Sempre Alerta,

    Ricardo

  4. Andhressa Fagundes disse:

    Querido Amigo! Saudades!
    Parabéns!
    Fico com muita saudade tb do trabalho com saúde indígena..
    Obrigada por compartilhar de forma tão intensa!
    Bj pra vc e família.

  5. Maurício Moutinho disse:

    Como dizia nosso “velho marinheiro” Benjamin Sodré: “se vem chuva e depois vento, monte guarda e toma tento…”

    Obrigado pelos deliciosos relatos desses recantos do nosso Brasil e, infelizmente, das vicissitudes dos brasileiros dos mais longes rincões.

    abs

    Mauricio

  6. Maria José Foeger disse:

    Amigo querido,

    Encantada com seu email, suas histórias, suas fotos! Já pensou em escrever
    um livro e publicar essa experiência fantástica que está fazendo aí? Seria
    uma forma de socializar o que é ser médico por vocação.
    Peço autorização para repassar seu email aos meus alunos da Pós Graduação
    Especialização em Atenção Primária à Saúde, pois nas rodas de discussão
    sempre vejo muito pessimismo e comodismo em muitos deles. Talvez seu texto
    possa dar-lhe um pouco de alento para que consigam visualizar o que é de
    fato ter dificuldade para cuidar da saúde das pessoas.
    Desejo que vc tenha muita paz e todo bem nessa missão tão linda que
    escolheu!
    Abraço fraterno.

  7. Carmen Sampaio disse:

    Altamiro,
    você me emociona.

    Carmen

  8. Telma disse:

    Altmiro, interessante as histórias e lindas as fotos.
    Vejo o seu trabalho e lembro do seu avô, saudades dele, cheio de histórias para contar… Tenho certeza que de onde ele estiver ele olha por voce e tem orgulho de tudo o que vc faz.
    Parabéns mais uma vez.
    Telma

  9. Pery disse:

    Sempre Alerta Altamiro,

    Gosto muito de receber suas mensagens.
    Não somente receber notícias tua, como também conhecer a realidade desse nosso Brasil tão heterogêneo.
    Abraços meu irmão.

    SAPS

  10. Elena disse:

    Querido, amigo:

    Sabia a muito que você não era desse mundo. As mensagem que me envia só confirmam minha percepção de criança a respeito de você.

    Beijos,

    Querida amiga

  11. Erina Y disse:

    Olá Altamiro, tudo bem?

    É sempre bom receber seus e-mails! E conhecer um pouco de parte de nosso país!
    Bj

    Erina

  12. Wallace disse:

    Grande Altamiro
    não vãpo faltar histórias p vc contar1!!!!!!!!!!!!
    Aqui na Republica Rib Preto, só o mau do século, stress e mais stress,
    qdo vc percebe faz uma semana q não olha nem p o céu.
    Abç
    Wallace

  13. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro
    Sempre muito interessante suas historias e fotos.
    Um grande abraço da amiga.
    Cristina

  14. Edna Dinelli disse:

    A sua profissão é mesmo um sacerdócio, oxalá, todos os médicos exercessem a
    profissão com o mesmo amor que você…seria uma benção.

    E o livro vai sair ??? Nem pense que vou esquecer…risos.

    Beijos

    Edna

  15. Olair Rafael disse:

    Olá
    ALTAMIRO

    Saudades!

    Amigo do
    cor(AÇÃO)

    Ainda bem q temos vc a nosso favor, pelo tanto q vc faz PARA TODOS NÓS quero q sempre QUE PRECISAR DE QUALQUER COISA q eu possa te ajudar do lado de cá da margem do mesmo rio… por fv, NÃO ME ECONOMIZE; mais por conta do relato (sic):

  16. Franciane disse:

    Adorei esse post! Ai que saudade disso tudo!!! Um abraço apertado e grato pela linda história…

  17. Irene disse:

    Bom Dia Doc!
    Que belo relato pra se ler domingo de manhã…Lindas fotos! Vc ” atira” bem!
    Continue nos mostrando qta coisa boa vc faz por aí.
    Um abraço.
    Irene

  18. Ambrogio disse:

    Altamiro,
    Acabo de ler o último relato de Impressões Amazônicas. Você diz que tem 41 anos mas se você vive sempre assim, uma vida tão diferente e tão intensa é como se tivesse 90! Espero que de vez em quando passe um tempinho tranquilo na sua casa!
    Um abraço e obrigado pelos seus relatos!
    Ambrogio

  19. Renato Piccolo disse:

    Dr. Altamiro,

    Depois de tantos anos, não dá pra dizer que está tirando fotos melhores…
    Mas dá pra dizer que desta vez Deus fez a natureza se superar!
    Caramba, que fotos!!!

    Saudades, abração apertado, blá-blá-bla… bem, você sabe que não preciso dizer nada.

    Dr. Renato T. Piccolo

  20. Luis Henrique disse:

    Caro Altamiro,
    é ótimo receber os seus posts. Adorei os da Índia, foram demais. Mandei alguns comentários recentemente mas acho que vc não recebeu. Abraço e parabéns pelo trabalho e pelas fotos.
    Ontem postei no meu blog – sobre os Yanomami e Tiradentes- MG. Dê uma olhada e diga se gosta.
    Abç. Luis Henrique e família.

  21. Andreza Oliveira de Souza disse:

    Adoro suas histórias, ficam lindas, sempre espero a próxima, você é um ótimo escritor, um abraço!!!

  22. Edmea disse:

    Boa tarde, Altamiro!

    Ja’ estava com saudades das suas “impressoes” e assim fiquei super feliz ao recebe-las.
    Gostei especialmente das razoes dadas para os problemas enfrentados no dia a dia da vida, bem como da fortitude da quase centenaria. Que Deus a conserve assim para que possa celebrar seus 100 anos.

    Como sempre, repassarei estas I.A. 72 para amigos e parentes aqui e ai, pois de certo modo o que se ve/le na midia sempre parece meio artificial, mesmo nao o sendo. O que voce descreve e fotografa tem uma autenticidade imperdivel e todos precisamos de continuar aprendendo sobre este Brasil “misterioro”.

    Fique com Deus para que seu trabalho se multiplique sempre!

    Edmea

  23. Irene disse:

    Lindo relato…lindas fotos! Parece roteiro de filme de aventura!!!
    Só não vou salvar as 17 e 18, pois tenho medo de cobra até em fotos!
    E o livro, qdo sai?
    Um abraço
    Irene

  24. Carlos Moura disse:

    Primorosa a foto do Seu Natalino… que figura.

    Tomei a liberdade de brincar um pouco e torná-la atemporal. Coisas do GIMP 2.6.

    Abraço na família!

    Saravá!

    Carlos

  25. José Carlos Azeredo disse:

    Caro colega:
    Agradeço-lhe o envio dessas notícias.Quando as recebo,leio e me sinto feliz.É uma verdadeira aula de Brasil.
    Esse Brasil que nós,aqui doSul ,não conhecemos.
    Parabenizo-o pelo seu excelente trabalho junto aos nossos irmãos indígenas.
    Abraços.
    José Carlos

  26. José da Mota Leite Neto disse:

    Prezado amigo Altamiro Vilhena, mais uma vez sinto imensamente grato por receber um e-mail seu, e, mais uma vez lamento não estar podendo corresponder com o mínimo que seja de auxílio à sua luta social, à qual, todos nós humanos lhes devemos gentileza e gratidão.
    Espero, o mais breve possível, poder de alguma forma auxiliar com no mínimo uma humilde divulgação quando retornar à atividade blogueira, o grão de areia que me seria possível mover no momento.
    Desejo-lhe cada vez mais sucesso em sua jornada, com Deus lhe concedendo cada vez mais merecimentos e força para continuar tanto tratando os que tanto necessitam, quanto levando à tantos uma realidade as vezes abafada por uma série de motivos.
    Luz, paz e amor,
    de seu grande admiridor,
    José da Mota Leite Neto

  27. Diana Rios disse:

    Querido Altamiro,
    Adoro as suas histórias e as fotos.
    Eu também quero ser como a Dona Ana quando crescer e já sei o que pedir para o menino Jesús: Um guarda-chuva de margarida!!!!
    Beijinhos no coração,

  28. Adnan disse:

    Amigo Altamiro, fantastico.
    Vou usar suas impressões em meu curso de Antropologia da Saúde. Assim que
    tiveres um tempinho preciso ver aquela apresentação que você me falou sobre a
    saude indigena.
    Abraços.
    Adnan

  29. Mariana Jordão disse:

    ADOOOOOORO, ADOOOOOOORO, ADOOOOOOORO, SUAS HISTÓRIAS … PARABÉNS E SAUDADES ALTA.

  30. Jose wilson disse:

    Foi maravilhosa vcs tr participado dessas dificuldades q nos cmo eu sou indigena do caraparu 3 santo antonio do pao.. Foi maravilhoso gostei. Ver se voltm mas vezes … Vnham compartilha cm nos essas maravilhosas aventuras naturais cmo chuva relampago cm a historia do bixo canaime e mae do campo ..rsrsrsrsrrsr ss he isso ai .. Voltem sempre vcs seram todos bm vindo… Abraços e boa sorte p todos q vieram pra essa aventura em rr.. Valeu!

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