Impressões Amazônicas 74

Estou na Aldeia Mapaé, bem próximo da base do Monte Roraima. Dizem que a vista é maravilhosa, o que ainda não pude conferir, pois chegamos sob tempo encoberto e desde então não para de chover. Esta é a aldeia Ingaricó mais distante, e onde é maior o índice de desnutrição, conseqüência mais do uso continuado e disseminado do caxiri do que da falta de recursos. A área é de floresta e caça não pode faltar.

11 05 Mapae (8) Todo mundo ajudando a carregar nosso material, até as crianças.

A terra parece tão fértil quanto as mulheres. Escura. Promissora. Encontramos abacaxis, bananeiras, pés de manga, de goiaba, disto e daquilo. Isto é “uiui”, planta com jeitão de cuia e da qual comemos as sementes, cozidas. Aquilo parece um tomate ou um caqui duro. “mucru” pelo que pude entender, mas pode ser outro nome. Cozido não parece com nada que conheço. As crianças também comem insetos. Caçam tanajuras com a mesma fome com que caçam piolhos. Provo formigas, mas piolhos me provocam certa resistência. Culpa de minha mãe e minha avó. Por influência da bisavó índia que nunca conheci, talvez provasse feliz. Talvez.

11 05 Mapae (127) 11 05 Mapae (130)

Uiui e “mucru”. Seria um cubiu?

11 05 Mapae (201)Servidos?

Da pista para a aldeia se atravessamos uma pequena mata de árvores altas. A mata acaba e surgem as malocas, bem tradicionais. Em uma maloca circular pequena, tipo que só encontrei nas aldeias Ingaricó, usadas tradicionalmente para depósito de material e alimentos, as mulheres ficarão abrigadas: nutricionista, dentista e técnica de enfermagem. Embora seja comum o uso de redes, as meninas começaram a trazer barraca como eu costumo fazer. A diferença é que usam grandes colchões de ar, cobertas e edredons floridos, além de tudo que uma mulher não consegue viver sem: batom, esmalte e maquiagem. Dizem que tem equipe que leva até secador de cabelo. Mesmo no mato não podem perder o charme e o local onde estão já foi batizado: “Maloca de Caras”.

11 05 Mapae (21) A “maloca de Caras” é a redondinha, menor. A “dos caras” é a maior, mais bagunçada. Na das meninas tem até liquidificador. Chique!

11 05 Mapae (296)

Iniciamos o trabalho de vacinação. É impressionante. As crianças escutam seus nomes e vão sozinhas para o “banco da vacina”, onde sentam e esperam, sem cara feia, sem pio e sem choro. O vacinador chega, elas levantam a manga da blusa e assistem a aplicação. Nem uma lágrima. Bem diferente de nossas crianças, que as vezes precisam de mãe, pai, avó e todo o time de enfermagem para segurar. Aí que a gente fica pensando… nem mesmo a dor é sentida igual. Tudo que vivemos é um reflexo de nossa cultura e está diretamente relacionado a ela.

11 05 Mapae (42)

São 16:00h agora. O agente de saúde vem informar que no domingo (há cerca de 72horas) um indígena de uma comunidade próxima foi picado por uma cobra e não quis vir para cá. Próximo por aqui significa quatro horas de caminhada e com esta chuva até um pouco mais. Não adianta sair agora, será o programa para amanhã cedo, saber de fato o que aconteceu com o indígena e o que pode ser feito. Por hoje, a fazer somente rezar!

Dia seguinte: Ou a cobra não era tão venenosa ou o veneno era pouco. Sorte. Ou destino. O fato é que após passar o dia fora o enfermeiro voltou com a notícia de que o paciente estava bem. No caminho recrutou algumas famílias para participarem das atividades de educação em saúde. Aqui as soluções de saúde de forma alguma podem se resumir a atendimento no posto. Há que fazer educação, tentando entender seus conceitos e de que forma podemos efetivamente auxiliá-los. Fazemos uma encenação sobre acidente ofídico: o que fazer e o que não fazer. Depois escovação coletiva e prática de uso de fio dental. Todos, adultos e crianças, prestam atenção e escovam seus dentes com entusiasmo. Por fim uma roda de conversa sobre problemas nutricionais. Porque tantos desnutridos? O que falta? O que pode ser feito? Não há uma única resposta, mas temos que encontrar caminhos.

11 05 Mapae (231) Acidente ofídico.

11 05 Mapae (259) Escovação.

Ao final o agradecimento com o canto do Aleluia e uma oração. Que Deus possa abençoar esta comunidade e que faça nosso trabalho frutificar como frutificam as mulheres daqui. Haja criança.

A chuva realmente não dá trégua e sem opção vou tomar banho. Antes de chegar ao rio já estou alagado. A água do rio é fria. Gelada. Eu “adoro água gelada” ou ao menos tento me convencer disso. Estranhamente me sinto mais vivo e me delicio com o arco-íris que surge ao longe. As cores quebram a monotonia cinza do céu e nos fazem prever uma noite agradável. Logo os últimos raios de sol banham o Monte Roraima e a orguestra de sapos e grilos começa a tocar.

11 05 Mapae (145)

— xx – xx – xx – xx

11 05 Mapae (53) Chuva.

Com a aldeia feita em lago e a pista de pouso um sabão, o avião não vem nos buscar… Já é o segundo dia que isso acontece, estou aqui dois dias a mais que o previsto. A vontade de viajar nó não é maior do que a preguiça e desisto de montar novamente a barraca. Durmo em cima de uma maca no posto de saúde. Não é tão ruim. Ao menos é melhor do que ir ao banheiro com chuva… As paredes de lona não protegem do vento e a falta de teto, embora permita o arejamento do sanitário, torna a experiência desagradável… papel molhado, corpo molhado… Melhor segurar um pouco mais. Nem tudo é doce na terra de Makunaima.

11 05 Mapae (126) Isso é um banheiro… acredite se quiser.

Finalmente o tempo melhorou. Temos que levar todo o material para a pista por uma trilha de cerca de 2km em ladeira, atravessando até rio por pinguela.

11 05 Mapae (83) Monte Roraima ao fundo, assim iniciou nosso dia.

Se os indígenas não ajudassem seriam varias viagens.

11 05 Mapae (114) Levando material para a pista. Trabalho infantil? : )

Na metade do caminho começa a chover novamente. A chuva não atrapalha tanto o vôo, só o vento e a cerração. O problema é gue não estou enxergando muito além do meu nariz. Se o piloto tambem nao enxergar, ele não pousa e aí é mais um dia aqui. Tento me proteger da chuva gue aumentou. Corro para a mata, mas não é grande vantagem, pois os muitos pinguinhos logo se transformam em poucos pingões. Molham menos mas o efeito moral é pior. Pouco a pouco a chuva passa e ouvimos o ronco do avião. Todo mundo volta para a pista, inclusive os três pacientes que irão comigo. Um deles é seu Cretácio, patriarca da aldeia: aqui quase todos são filhos ou netos, a caçula tendo cerca de 10 anos. Nada mal para quem tem 94 anos, nem um unico fio de cabelo branco, veio descalço para a pista e ainda chegou rindo. Quando crescer quero ser igual ao seu Cretacio.

11 05 Mapae (315) 

Seu Cretácio, o patriarca. Gente boa e só cabelos negros.11 05 Mapae (331)

— xx – xx – xx – xx

Por aqui as vezes a solução é o curador ou pajé. Eles trabalham de uma forma diferente da nossa e conseguem resultados que nossa medicina não consegue explicar. Dona Vanilza conta sua história. Tinha diabetes e o açúcar era sempre alto. Foi em um “curador muito bom”. O curador “fez os trabalhos” e disse que o problema na verdade era que ela estava “quase” com câncer no útero. Preparou uma garrafada e mandou ela tomar junto com sulfa e ampicilina, dois tipos de antibióticos que, teoricamente não servem nem para diabetes e muito menos para câncer de útero. Resultado: a mulher ficou boa e há seis meses não toma remédio o açúcar não sobe. Como diria Cid Moreira: “Isto é incrível”.

11 05 Mapae (125)Até a próxima pessoal.

20 comentários Adicione o seu

  1. Vânia Maria Vellozo Damasco disse:

    Fantástico acompanhar este mínimo de experiência de educação em saude que pratica aí na Amazônia.
    Lindíssimo trabalho!
    Despojado de conforto e inundado de vida.
    Me emocionei.
    Sinto-me capturada por tantas ilusões de precisar além do que necessito ou tenha capacidade de desfrutar…
    Estranho o que neste texto me laçou… Será que um vislumbre de viver por um período atuando como educadora em saúde na Amazônia?
    Agradeço, precisava de uma sacudida desta… Algo me instigou…Sigo em frente.
    Parabéns! Deus os abençoe. PAZ E BEM!

  2. fatima-reis@predialnet.com.br disse:

    Amigo suas fotos estão otimas, é bom acompanhar as Impressoes Amazonica, bjs Parabens.

  3. Glaucia disse:

    OI Altamiro,
    Sempre que leio seus posts lembro de um livro que li no meio da faculdade chamado “O Físico”(a tradução errada de “the Physician” pegou e ficou!).
    Neste último relato , quando vc colocou suas aspirações (escritor, fotografo e médico), vi nitidamente a figura da personagem principal…
    Creio que vc já tenha lido este livro e entenderá o que estou falando…se não, vale a pena…
    Um beijo grande!
    Sua admiradora,
    Glaucia

  4. Diana Dors Dias disse:

    VOCÊ É incrível. Um dia, quem sabe, você não me convida a participar de uma “viagem” dessas?? Só não sei se seria útil…com tanto aparato moderno que nos cerca…rs. Mas o bom e velho parto…eu dou conta. Bjs, Tatá.

  5. José Carlos Azeredo disse:

    Matéria muito legal!
    Exercício de Saúde Pública excelente!Um verdadeiro sacerdócio!”
    Meus parabéns!
    Abraços.
    José Carlos

  6. Bácila disse:

    Obrigada pela viagem que fiz ao ler teu relato. Parecia estar aí, entrei pra dentro das fotos.
    Parabéns pela perseverança, sempre quis fazer algo semelhante.
    Abraços.
    Bácila.

  7. Valerie Cristina disse:

    Nossa tatá , que loucura que e suas viagens….ainda bem que vc foi escoteiro e tira de boa as dificuldades.Novamente te dou meus parabéns por tanta dedicação ao seu trabalho infelizmente são poucos que tem essa garra ,essa dedicação .Que Deus te proteja sempre,para continuar fazendo o bem a tanta gente que precisa….e são muitos né !!!! Um beijo no seu coração .

  8. George disse:

    Hoje ao meio dia terminou um congresso que participei sobre HA eDM, professores da usp (SP) unicamp UFMG etc. Bem mais o bom mesmo talvez seria estar aí, acredito.
    Um forte abraço
    George

  9. Luizinho disse:

    Grande Altamiro!!
    Estou encaminhando seu email (Impressões Amazônicas) para o “Lulu”, Luiz Carlos, ex-Mestre Pioneiro do 33ºGEAr
    Ele trabalha muito no amazonas (tb é médico), com tribos indigenas e vai adorar ler seus relatos.
    E parabéns pela premiação!

    Sempre Alerta!!!!

    Luiz Alexandre F. Ferro (Luizinho³³)

  10. E. disse:

    Querido Amigo,

    É simplismente delicioso receber suas histórias! Mas quanto mais flash da sua vida recebo, mais me preocupo. Você já sabe que você não vai mais conseguir morar aqui. Isso pode trazer graves consequências. A primeira que o seu lugar na turminha do buraco, jogo que estamos marcando para daqui a 30 anos, vai ficar vago, ou vamos ter que levar para a Amazonia parte da temporada de jogos.

    Mas aqui, ou ai, vamos me comprometo a manter um convivio pessoal com meu amigos mais queridos, naquela fase de nossas vidas em que os dias passarem a ter 48h.

    bjin,

    amiga

  11. Marco Santana disse:

    Obaa!!
    Puta fotos, ein?? A do velhote no avião e as crianças “mexendo” uma no cabelo da outra estão sensacionais!! Estou esperando vocês aqui, hein??

    Saudades!!

    Abs,
    marco

  12. Edna Dinelli disse:

    Amigo, bom dia.

    Parabéns !!! Pela premiação, como você é chic, não ?
    E o livro, quando vai sair ?

    Beijos
    Edna

  13. Carmen disse:

    Altamiro,
    Gratidão por enviar notícias.
    Você é uma das pessoas que gostaria de conhecer pessoalmente, você é GENTE QUE FAZ.
    Enfim, Gratidão infinita.

    Carmen

  14. Daniel Carvalho disse:

    Parabens companheiro… fico muito feliz por seu reconhecimento.

    PS. o livro o Rio, este eu quero comprar q maravilha d livro e as fotos entao, o cara é uma fera na fotografia.

    um grande abraço.

    Daniel Carvalho

  15. Sayonara Medeiros disse:

    Muito legal…quem sabe não estarei na proxima…adorei…

  16. Jussara disse:

    Amigo do lado esquerdo do peito……

    Se Saudade fosse sinônimo de asas estaria com você nessa aventura!Vi e senti tudo (ou perto disso) lendo seu relato!Que lindo! E como aumentou a saudade de nossas conversas……Mais uma vez você arrasou ao contar essa experiencia magnifica!
    Bjs e abraços saudosos e de sua ETERNA AMIGA E FÃ!
    Jubyssara

  17. Ivan Nascimento disse:

    Altamiro,

    Belas histórias de um Brasil que não conhecemos ou pensamos que não existe. Parabéns pelo seu trabalho e da sua equipe.
    Só uma pergunta, as crianças também bebem o caxiri?
    SAPS!
    Ivan Nascimento

  18. Thatianne disse:

    ola!!!!!!!!!!!! inicialmente parabens pelas fotos e pelo merecido premio, como é bom ter amigo assim, isso muito me enobrece,heheheheh
    aguardo um sinal de fumaça seu, milhoes de xerinhos thati

  19. Marcelo disse:

    Oi, Altamiro!
    Muito interessante a sua narração! Os dados do cotidiano que vc escolhe nos dão uma boa idéia da vida em área indígena.
    Abs,
    Marcelo

  20. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro
    Como sempre é muito interessante ler suas vivências ilustradas com belas fotos.
    Muita saude e um grande abraço.
    Cristina

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