Impressões Amazônicas 77

Aldeia Sapan

(da língua Macuxi: Ksaban xpin = areia branca)


N 04 34 30.8
W 060 44 30.0

Assim que pousamos desce uma chuva que transforma o chão em uma liga grudenta que logo dá a sensação de carregarmos quilos em cada pé. As crianças correm descalças entre nós, formando minhocas de lama entre os dedos a cada passo. Um menino, o menorzinho, cai de bunda no chão e suja a roupa limpa. O pai o ajuda a se levantar, tira sua calça e sem alterar o tom de voz diz: "não vai mais por ali que cai". O menino, sorrindo, vai brincar do outro lado. Sem nossa preocupação, sem nosso estresse. Simples assim. E eles não tem máquina de lavar nem mesmo água encanada.

10 03 Sapã (86) Esta é a fera que caiu no chão… Bochechas irresistíveis!

Acampo em um galpão grande, sob o telhado de cavacos e que faz as vezes de igreja, centro de artesanato e casa de pouso para visitantes. Quando levantamos começam a chegar várias famílias trazendo frutas, mingau, leite, farinha e caxiri. Toda quarta como hoje, eles fazem o café comunitário e depois se dedicam ao artesanato. Antes do café, a oração, o Pai Nosso e um pedido para que possamos ajudar a cuidar do corpo e que o Pai ilumine o espírito.

10 03 Sapã (21)

10 03 Sapã (4) Detalhe do telhado, todo com telhas de madeira.

10 03 Sapã (63) O malocão

Noite na barraca. O vento soprando assobia e embala meus pensamentos.

Me vem a mente o trecho de uma música do meu irmão Rogers "a noite vem e me faz pensar, o que me trouxe aqui. Sair em busca de um ideal e assim eu sou feliz, porque eu vivo a vida que eu quis…" A música está faz coro com o susurro do vento gelado entre as telhas de madeira que protegem minha barraca. A lembrança do dia que se finda me traz novamente a sensação de estar realmente no paraíso em vida.

10 03 Sapã (30)

Hoje fui atender uma criança na Ponta da Mata, comunidade que fica na esquina da ponta da serra com o começo do céu. São cinco minutos de vôo ou duas horas de perna. Fui ver uma menina de 11anos, com paralisia cerebral, que havia parado de comer há 4 dias. A menina não anda, não fala, pouco interage com o meio, mas é visivelmente bem tratada: está limpa e tem bom peso. Seus pais não querem levá-la a cidade. Já foi uma vez. Ficou meses: fez exames, tomou remédios, passou por vários médicos e ninguém deu solução ou remédio. Desistiram. Buscaram um pajé, dois, três. Foram até em a Venezuela, pajé “internacional”, mas todos foram unânimes: foi quebra de resguardo. Com menos de uma semana a mãe saiu para andar, o que é coisa perigosa. A serra tem muito bicho ruim: Mariuá, Ma-urí, Kalauái. Pegaram seu espírito e agora só esperam ela fazer 12 anos. Neste dia, quando deve menstruar pela primeira vez, sua alma ficara mais frágil, como de toda moça nova e então irá os acompanhar de vez. Com esta convicção conformista os pais aguardam. Até o dia que Deus quiser. Ao menos já estão próximos do paraiso, onde a ponta da serra se encontra ao céu, tendo somente as nuvens e o sol por testemunha.

10 03 Ponta da Serra (12)

______ XXXXXX ______ XXXXXX ______ XXXXXX

Constantino é Placa. Pedra Branca é São Francisco. Funasa é Truaru. Funasa é Truaru. Placa, é Constantino na escuta. Funasa é Truaru. Constantino, aqui é o enfermeiro de Placa. Queria que fizesse uma ponte com a Funasa para saber da remoção da gestante. Barro é Lago Verde. Fala Barro. Queria a confirmação da vinda do tuchaua na semana que vem. Placa, é Constantino. A Funasa está aguardando a liberação do helicóptero para a remoção da gestante. Água Boa é São Mateus. A Neuza tá por aí? Alguém copia Espera Feliz?

IMG_0694 Meu amigo Rafael, infectologista que agora trabalha comigo na saúde indígena.

Você não entendeu nada, né? Pois é exatamente desta forma confusa que funciona o sistema de comunicação entre as aldeias. Na radiofonia todo mundo fala (ou ao menos tenta) ao mesmo tempo. Não há privacidade ou “linha direta”. O siléncio só é obtido por alguns poucos minutos através dos gritos “Deixa eu modular (falar) com a Funasa! Tem paciente para remoção aqui”.Todo paciente grave que precise ser removido (ocorre principalmente por problemas de parto, fraturas e mordidas de cobra), depende deste sistema de comunicação, que funciona mal a noite e com tempo ruim. Já vi paciente aguardar até três dias para ser removido pois dependendo do tempo, além da dificuldade de transporte, na época de chuvas, nem avião pousa.

Hoje a história que acompanhei pelo rádio foi ainda pior. Gestante sangrando desde ontem em uma comunidade a 30min “de perna” da aldeia Feliz Encontro. Época de muita chuva. Carro não chega. O agente de saúde pede helicóptero. Conseguir é difícil e custa cinco vezes mais que avião. Mandam então um avião que sobrevoa a aldeia para ver se consegue pousar. O tempo firma e o comandante pousa. Ou tenta. Pista molhada, escorrega e o avião acaba literalmente de cabeça para baixo. Saldo final = técnica de enfermagem com fratura de clavícula + gestante aguardando o helicóptero amanhã. Por sorte nada mais grave.

Imagem 289 Samã é o morro pontudo ao fundo, a direita da foto.

Aldeia Serra do Sol


Voos, rádios, armar e desarmar redes, barracas, transportar remédios, equipamentos. Esta é a rotina dos profissionais que passam 30 dias nas equipes aéreas, visitando em média 7 a 8 comunidades. É bastante cansativo, um pouco arriscado, mas plenamente compensador. Saber que estamos onde pouca gente vai e, mais ainda, estamos contribuindo efetivamente com a população mexe com a gente.

E vem as compensações… Ontem meu final de tarde foi dentro da melhor hidromassagem natural que já experimentei, formada pelas diversas quedas que o rio forma por trás da aldeia. A noite o pio da coruja, mau agouro para uns, não consegue antecipar quão boa seria a manhã de hoje.

Foi manhã de acordar preguiçoso, ouvindo o barulho da chuva. Hoje é dia de reunião e seguimos cedo para o malocão. Obra de arquitetura e tanto. Da estrutura central, sustentada por dois grandes troncos pendem 66 toras que apoiam o teto que abriga sem aperto mais de 300 pessoas. O grande malocão, que retirou a proteção de parte da floresta, agora oferece proteção espiritual e física a este povo. Oásis de frescor em meio ao calor equatorial. Espaçoso. Amplo. Fresco. Vale de paz.

IMG_6117

Somos recebidos com dança. Aleluia. Mulheres dançam e cantam abraçadas com passo e cadencia sincronizados. Aleuia. O agente fala. Nós falamos e ele nos traduz. Higiene. Alimentação. Preventivo. A manhã se transforma em um saudável bate-papo, mas logo o canto volta e a dança encanta.

"Areeeruuuuuiaaaa………………. Areeeruuuuuuuiaaaaaa……………Areeeruuuuuiaaaa………………. Areeeruuuuuuuiaaaaaa……………

Areeeruuuuuiaaaa………………. Areeeruuuuuuuiaaaaaa……………"

A única palavra que entendo é o Aleluia que nomeia a dança, mas consigo compreender tudo. As mulheres pedem a proteção de Deus para suas famílias, suas roças e acima de tudo pedem as graças do Senhor.O ritmo hipnotiza, e pouco a pouco junto com elas me aproximo a Deus em uma única prece que não quero que acabe.

Diferente dos Macuxi e Wapixana que tentam resgatar suas tradições, hoje ainda relegadas as salas de aula e exibições em dias de festa, os cânticos e danças dos Ingaricó fazem parte do seu dia a dia, estão tão vivas quanto antes.

IMG_6210 IMG_6226  Todo mundo junto!

Aldeia Barreirinha

Cenário único onde os rios se dividem pelo lavrado e contornam enormes pedras que nascem aqui e ali, certamente plantadas por irmãos de Makunáima. Aldeia bilingue, aqui é onde encontro mais gente que fala bem macuxi e português, ainda que com um forte sotaque que não consigo descrever. O ‘é ‘ é aspirado, o ‘ó ‘ meio soprado e uma afirmativa pode ser uma simples respiração mais forte.

11 06 Barreirinha (188)

11 06 Barreirinha (117)  Pesquisa de tracoma

11 06 Barreirinha (77) Tudo alagado.

A noite é a primeira estrelada após dias de chuva e a última na comunidade. O tuchaua oferece o jantar e a natureza nos dá a música ambiente. Após a refeição tento identificar cada cantor na serenata. Sapos, grilos, rãs e pássaros se alternam em um alegro sem fim. Tuu… Tuu… Coach, coach, coach. Tuu… Tuu… Ti-ti-ti-ti. Criii.Tuu… Tuu… Ti-coach-cri-tuu-DOMINÓ. Dominó? O tuchaua, o agente de saúde e enfermeiros começam uma animada partida de dominó. Nada do tradicional vence-quem-acaba-primeiro. Tem regras, pontos e duplas que se provocam como em uma batalha de truco. 
11 06 Barreirinha (251) Nossa dupla: Hilton e Sales contra os AIS de Barreirinha


Me retiro para a barraca, onde escrevo para vocês, agradeço por mais um dia e só sou ninado pelas canções da natureza.

boa noite

11 06 Barreirinha (156)

6 comentários Adicione o seu

  1. Wilson disse:

    Meu amigo Altamiro,

    Vc é o cara,abraçou mesmo a saúde indigena…sou assinante numero um das impressôes Amazonicas,e falo pra todo mundo que conheço o artista deste saite…rsrsrr

    Desde já te agradeço..

    Abraço,mestre…

  2. Juliana Sallum disse:

    “a noite vem e me faz pensar, o que me trouxe aqui. Sair em busca de um ideal e assim eu sou feliz, porque eu vivo a vida que eu quis…”. Acho que isso expressa bem seu trabalho aqui Alt, parabéns! Exercer a medicina de uma forma única e que lhe dê satisfação profissional e profissional,isso é um privilégio!

  3. Edmea disse:

    Caro Altamiro,
    So’ leio seus e.mails antes de ir dormir, para que algum evento ou alguma imagem fiquem na minha alma e penetre meus sonhos.
    Neste 77 o primeiro paragrafo ja’ disse tudo, pois nos transporta a um outro mundo, com a receita do “ante-estresse”.
    Que este seu Novo Ano seja ainda mais enriquecedor do que o que passou. E que Deus o continue abencoando para ajudar ao proximo!
    Um grande abraco,
    Edmea

  4. Cicero disse:

    Muito bom, muito,muito, muito bpm.
    Cícero

  5. Luiz Pantoja disse:

    Admiro muito seu trabalho e dedicação aos que realmente precisam. A última fotografia realmente é uma das mais lindas que já vi. Meus parabéns, pelo trabalho e pelas fotos.

  6. Alessandr Santos disse:

    Que belo trabalho vc faz, cuida com tanto amooor dessas pessoas que tanto necessintam!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s