Impressões Amazônicas 80

Estou na aldeia Pedra Preta. Adoro quando chego mais uma vez ao “lugar mais bonito que já vi”. O rio Cotingo serpenteia entre as serras, traçando sua trilha entre buritizais e corcoveando pelas cachoeiras. De um lado, mata fechada. Do outro, pedras. A tal da pedra preta nasce do lavrado, busca o céu e domina meu olhar. Quero subir, chegar mais perto das nuvens. Pena que meu tempo é curto e além dos pacientes daqui, vem vários indígenas das comunidades vizinhas, aproveitando uma carona do rio. Alguns hipertensos, uma senhora diabética e muitas crianças. Muitas, muitas. Muitas, muitas, muitas mesmo.

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A seta aponta a cachoeira, “marisco” entre a rocha e o rio.

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Quer banhar? Que tal a cachoeira..

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Apresento a Pedra Preta em pessoa.

Ser criança aqui deve ser bem divertido. Correm, pulam, se empurram, rolam no chão, correm atrás de passarinho, tomam banho de rio, sobem na mangueira.
Agora o sol começou a baixar e tingir o mundo de dourado. Estou com vontade de parar de atender e sair correndo com eles. Para fotografar as crianças brincando? Não! Para brincar mesmo, parece tão divertido…
 

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Hoje é sexta-feira. Sexta-feira cultural. O malocão está cheio de alunos do ensino fundamental, médio e EJA (educação de jovens e adultos) e suas famílias, ou seja, quase toda aldeia. O tema é qualidade de vida. Crianças da segunda série acabam de apresentar um jogral vestidos de vermes e falando da prevenção, e o entusiasmo é o mesmo em cada turma. Músicas, danças, teatro, jogral, declamação. Todos querem mostrar o seu melhor possível, pois são ao mesmo tempo protagonistas e espectadores, ensinando e aprendendo juntos, não importando a idade. Isto me impressiona. Não há vergonha, não há feio, não há mico, não há porque não estar lá na frente. Independente se é um adolescente com “cabelo Neymar”, uma jovem gestante ou o próprio tuchaua, que além de aluno do EJA é professor de língua materna.
Um professor filma quando os jovens entram com vários tipos de feijão, milho, mandioca e pimenta que colorem a mesa junto com as frutas. Cada um se apresenta: “sou a pimenta trudjó, rica em vitamina C”. “sou o feijão-preguiça, fonte de energia”, “sou o milho vermelho, fonte de fibras”. Todos aplaudem mais intensamente quando o Agente de Saúde Eduardo, ele também aluno, entra com uma galinha viva: “sou o frango, e sou muito gostoso”. Não há como não dar risada.

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Todo mundo atento.

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Crianças cantando e dançando. 

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Atenção total.

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Até saúde bucal teve na apresentação.

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Comida farta na comunidade. E as garrafas dançarinas.

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Variedade de sementes.

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Olha o Frango aí!

Aqui não existe telefone. Estradas são os rios e o céu. Energia, só a noite, de gerador, que ilumina o estudo dos alunos de ensino médio. Estamos isolados do mundo, mas uma parabólica solitária aproveita a luz da escola e nos traz cenas do resto do mundo: novelas, noticiário, futebol. Fujo disso tudo. Quero o canto dos grilos e sapos para embalar minha noite e a luz das estrelas e vaga-lumes para impressionar minhas retinas. Aproveito para me desintoxicar da cidade.

Boa noite!

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Aldeia Barreirinha

A partida está animada no campo de terra batida. Os jogadores, mais empolgados do que habilidosos correm muito e os chutões fazem com que a bola viaje para todo lado. Em uma dividida mais dura a bola sobe alto e cai direto sobre uma cruz, derrubando-a. Cuidadosamente o atleta pula alguns montinhos de terra, pega a bola e volta para o jogo. Ao lado do campo está o cemitério da comunidade. A morte é tão presente na vida que espíritos podem aparecer uma noite qualquer. Para que descansem em paz são bem tratados, mas nada de chegar muito perto das coisas do morto. Se o dono da casa morre, a casa é abandonada. Fica lá, de pé, mas é um corpo vazio, sem vida e sem alma. Aos poucos o tempo a derrota. Se vão os telhados como nossa memória, se vão as paredes como nossas lembranças. Enfim, pouco a pouco nada mais sobra. A impermanencia permanece e o morto pode então descansar em paz. A não ser que uma bola caia sobre ele.

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Campinho com arquibancada, cemitério e… vestiário…

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Para olhar mais de perto… As pedras que viram arquibancada, logo adiante do cemitério.

Uma coisa que sempre me surpreende é a criatividade dos indígenas. Uma das tarefas mais difíceis na aldeia é ralar mandioca. Na verdade não que seja tão difícil assim… até crianças conseguem. O problema é que é um trabalho duro, sacrificado. Em alguns locais o pessoal usa raladores movidos a motor, cujo único problema é empurrar o dedo junto com a mandioca… e ficar sem dedo. Na Barreirinha descobri um ralador movido a motor… humano. O pessoal acopla a bicicleta e onde entraria a corrente passa a correia do ralador. O cara se exercita e rala a mandioca ao mesmo tempo. Praticidade juntando tecnologia a receita ancestral.

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Bicicleta acoplada com ralador de mandioca.

1202Piscina0259 Vendo de perto. 

1202Piscina0260  Fica assim…

1202Piscina0279 Cozinha…

1202Piscina0273 Caxiri…

Aldeia Leão de Ouro

IMG_0271  Posto de Saúde

Dona Eleonita vem para consulta com quatro filhos.  Um bebê de colo, um maiorzinho, uma princesa de lindas tranças na lateral dos cabelos e um pequeno Neymar, os últimos com uniforme escolar impecável.  Os traços indígenas são os únicos diferenciais de qualquer família humilde brasileira. Apenas aparentemente. Dona Eleonita fala bem o português, com leve sotaque. Pergunto se fala a língua materna e ela responde que em casa, com as crianças, só fala em Wapixana. Pergunto onde nasceu e me responde que é "pra lá de Lethem", ou seja guyanesa.

Me atrevo a perguntar:
– So, do you speak english?
Me responde sem pestanejar.
– Of course doctor. My children understand but don’t speak because they are shy.
Onde mais eu encontraria uma dona de casa trilingüe? Tem coisas que só mesmo em Roraima…

IMG_0295  Enfermeiro André atendendo.

3 comentários Adicione o seu

  1. Suely disse:

    DÁ ORGULHO DE UM DIA TER TE CONHECIDO É MUITO BONITO TUDO O QUE VOCÊ NOS MOSTRA NAS FOTOGRAFIAS E NO QUE ESCREVE MEUS PARABÉNS Dr. ALTAMIRO

  2. Valentina de Araújo Vieira disse:

    Olhando estas fotos voltei no tempo em que meus pais já falecidos, Mariano Vieira e Valdeti Vieira nos levavam nas férias quando crianças para curtir as cachoeiras do Mirandão, Onça e outras maravilhas que a natureza oferece no município de Uiramutã. Parabéns pela reportagem.

  3. Benicio disse:

    Estou na fase final de planejamento de uma viagem a Uiramutã de moto. É possivel ir até A Pedra Preta, seria bem recebido.
    Desde já agradeço.
    Benicio Braga
    Manaus – AM

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