Impressões Amazônicas 88

Quando Johnson Raposo saiu de sua aldeia numa manhã de novembro, sabia que sua vida não ia ser como antes. Ou melhor, sabia que sua vida iria voltar a ser como era antes do véu azul da catarata cobrir lentamente seus olhos e deixá-lo dependente da ajuda da família e dos amigos.

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Estou de volta ao Caracaranã, lago sagrado dos antigos habitantes do lavrado roraimense. O lago foi invadido por um grupo diferente dos que costumam frequentar suas águas transparentes, emolduradas por montanhas e suas amplas malocas, onde as lideranças indígenas se reúnem para discutir os problemas do seu povo. Desta vez, voluntários dos Expedicionários da Saúde, ONG que nos últimos anos vem realizando cirurgias por toda região amazônica, montaram acampamento na terra de Makunaima. Aliás, montaram acampamento, enfermaria, ambulatório e um centro cirúrgico inteiro, com duas salas onde oftalmologistas e cirurgiões se revezam para realizar mais de 300 cirurgias em cerca de uma semana.

IMG_0101 Pacientes chegam para o atendimento e se cadastram.

IMG_0389 Centro cirúrgico. 

A equipe do Distrito Indígena onde trabalho está aqui em peso, ajudando, oferecendo a estrutura e apoio necessários para que tudo corra bem: farmácia, refeitório para mais de quinhentas refeições por turno, com dietas especiais para pacientes internados, transporte de ida e volta para indígenas que vem de todo o Estado em busca da cirurgia que a burocracia da saúde local impossibilitava.

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Alojamento

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Noite. Fila da janta.

Atendo na pediatria, em companhia do Teixeira, professor da Unicamp. A qualidade técnica dos voluntários me impressiona. Todos são ótimos. Enfermeiros, médicos, engenheiros, biólogos que deixam salas de aula, clínicas e hospitais em São Paulo, Brasília, Rio e Minas para passar o dia trabalhando. Se os médicos atendem e operam e os enfermeiros organizam, a ação não poderia dar certo sem o time de voluntários que chega antes e sai depois dos outros para fazer tudo acontecer: a montagem de toneladas de equipamentos, de material cirúrgico a geradores, de iluminação a computadores – sim, todos os atendimentos são registrados por prontuários eletrônicos, com computadores em rede, espalhados por todos os ambulatórios. E vem até engenheiro para passar a semana carregando caixa e fazendo a manutenção dos equipamentos.

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 O movimento é frenético. Todos se comunicam por radiotransmissores. Um cajueiro se transforma em rodoviária, tal o movimento de carros. “As vans acabaram de chegar trazendo os Waiwai” – anuncia o rádio. A equipe de nutrição esquenta as panelas, pois os “parentes” já chegam com fome. Um enfermeiro acompanha o grupo até a maloca onde ficam hospedados. Logo as redes colorem o ambiente e as crianças correm de um lado para o outro, jogando os “sapatos-de-festa-e-viagem” para longe e fazendo novos amigos com os pequenos da maloca ao lado.

IMG_0569 Cajueiro “rodoviária”. Cheio. 

Ansiosos, os pacientes se dirigem a recepção. Cadeiras se espalham diante dos computadores – tecnologia de ponta, novidade para muitos. Intérpretes indígenas ajudam os mais idosos, que muitas vezes não compreendem o português. A equipe tria para onde irão se dirigir: ginecologia, pediatria, cirurgia, oftalmologia, ultrassom, odontologia.

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Ginecologia. Detalhe das sandalinhas do lado de fora.

Os cirurgiões examinam, os anestesistas liberam. Agora para seu Johnson e vários outros indígenas, a alimentação está suspensa. Todos estão na maloca do pré-operatório, sob supervisão da enfermagem. A rotina é a mesma de qualquer hospital. A noite, as últimas orações – “Deus existe, e se me trouxe aqui, vou me curar” – fala uma senhora de rosto enrugado olhando para o céu.

IMG_0366 Olha a vovó depois da cirurgia.

Manha. As pernas bambeiam, e não é apenas de fome. Todos tiram suas roupas e vestem aventais azuis. As crianças e mais velhos tem prioridade – são operados primeiro. O proseado é pouco. Os parentes não são de muita fala e agora menos ainda. Puxo conversa na ala da oftalmologia.
– Todo mundo animado?
Os muxoxos são positivos, mas não me inspiram confiança. Em cima da hora todo mundo amarela, não tem jeito. Insisto na conversa.

IMG_0588 Todos de azulzinho. A ansiedade é grande. Sabá, a técnica de enfermagem não deixa ninguém desistir em cima da hora.

IMG_0354Olha o seu Johnson, do começo de nossa história.

– Fiquem tranquilos, que trouxe minha mãe do Rio de Janeiro só para operar aqui! – falo eu, provocando olhares suspeitos? Escuto os pensamentos e todos dizem que não acreditam.
Mostro a foto da mamãe na rede, com curativo no olho. Olham a foto, olham a maloca de pós-operatório, onde foi tirada a foto – aquela senhora branquela não pode ser indígena. Os sorrisos começam a brotar e um brilho de confiança lacrimeja em seus olhos .

IMG_0196 Olha mamãe aí. Animadíssima no pós-operatório na rede.

– Ela operou aqui? – um pergunta o que todos querem confirmar.
– Isso mesmo. O equipamento é o melhor do Brasil, só tem igual em 3 hospitais de São Paulo, e os cirurgiões são os melhores também. Nem no Rio tem nada igual.
A animação conquista o grupo.
– E é para ficar bom que a gente veio aqui! – exclama feliz Dona Natalina, sonhando com o céu azul que quer ver novamente.

IMG_0417 Dr. Fábio Paganini em ação. Ele é cirurgião-plástico e viaja para operar hérnia nas aldeias.

– Eu também vim para ficar bom! – me fala seu Joaquim, na sala de espera ao lado.
Ele veio de longe para resolver o problema da “hérnis” que atrapalha o trabalho. Diz que apareceu há muitos anos, quando carregava “um peso grande”. Já havia tentado resolver o problema no Hospital Geral de Roraima, mas a cirurgia foi adiada várias vezes. Recorreu ao pajé, que logo identificou o “problema de branco”, e também recomendou cirurgia. Após cinco anos, chegou a oportunidade de dar fim a hérnia que lhe atrapalha na roça. O pequeno Matheus Lucas, sentado ao seu lado, esperou menos, até porque só tem três anos. Lado a lado o senhor demonstra tanta animação quanto o pequeno curumim, que acha engraçada a touca azul que está vestindo.

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Independente da idade, todos querem ficar bons. A roupa é uma mistura de cogumelo com smurf…

O sucesso não é fácil. Sincronizar atendimentos, voluntários, cirurgias não é tarefa para uma única pessoa. Assim, pelos Expedicionários, o ortopedista Ricardo Ferreira e a coordenadora de logística Márcia Abdala se multiplicam em vários. Vão de um lado para o outro. Perguntam, falam, estimulam, cobram. Quando você procura por eles por aqui, já foram por ali. O pessoal do Distrito Indígena, coordenado pela administradora Ivanilde, está todo no mesmo pique.Todos estão motivado, e até as ondas do rádio estão livres para que o pessoal possa comunicar o sucesso das cirurgias e o retorno dos pacientes para casa.

IMG_0387 O enfermeiro chama… é a hora.

IMG_0451 A cirurgia é como em qualquer outro hospital.

IMG_0663 No pós-operatório o paciente também sai de maca. Só não tem rodinha.

IMG_0463O repouso é na rede.

As boas novas se espalham, e os parentes continuam a chegar. Da aldeia Xumina chega uma van com alunos da escola. Eles querem ver o movimento, mas aproveitam para se cuidar. Um vai no médico, a professora na ginecologista, dois fazem exames de vista e vários tentam conseguir passar pelos dentistas, que trabalham sem parar. Os dentistas do Distrito, Alë, Rangel e Josvaldo, são os últimos a almoçar e os primeiros a voltar a atender. Logo recebem a notícia que, junto com dois colegas de São Paulo, bateram o recorde de atendimentos e procedimentos odontológicos em Expedições – e ainda temos mais dois dias de trabalho pela frente. O sorriso da equipe é tão grande quanto dos pacientes após o atendimento.

IMG_0143Alojamento dos “parentes”
IMG_0189Alojamento da equipe. Rede, barraca, vale tudo.

IMG_0252 Tomara que não chova…

Tanto trabalho tem sua compensação. A comida é farta e gostosa e depois da janta é hora de brincar de hipopótamo, de molho no lago, só com os sorrisos de fora. Para relaxar piadas e histórias dos pacientes, como a senhora que ao tirar o tampão da vista começou a correr de um lado para o outro e dizer que estava vendo cores que náo conhecia mais. A conversa é despreocupada. No céu, a lua tímida dá lugar as estrelas infinitas, que se multiplicam refletidas na água.
O corpo relaxa, mas a cabeça está a mil. Amanhã temos mais trabalho, vão chegar os voos da serra. Teixeira, o pediatra, agora é o violeiro, e embala as últimas canções. Pouco a pouco as barracas vão sendo ocupadas. Grilos e sapos me acompanham até minha barraca. O dia vai ser longo, mas sei que vai valer a pena. Muito a pena.

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9 comentários Adicione o seu

  1. Manu disse:

    Relatos assim sempre renovam minha fé no ser humano!! Ler textos como este teu sempre renovam minha fé na escrita, no poder que as palavras possuem de mudar vidas, semear sonhos e abrir novos caminhos… E q lindas fotos!!! Essas duas últimas então são verdadeiros cartões postais… Que céu estrelado!!! Em cada estrela, há um sonho guardado, um segredo enviado, um olhar esperado, uma vida que pulsa distante e, ao mesmo tempo, pulsa bem perto, ali, ao alcance dos olhos de todos aqueles que souberem olhar pra cima, admirar e ouvir as estrelas!!

    Obrigada por presentear todos os seus amigos com textos assim!!!

    Super abraço!!
    Beijos pra dezembro,
    Manu

  2. Paulo Frias disse:

    Meu querido Altamiro
    Eu, Sara e Luísa nos deliciamos com o seu relato….e ainda conhecemos sua mãe! …. o mundo tem jeito!!!!
    E o relato visual acompanhado do escrito atingiu o clímax com a foto do céu estrelado e a finalização….
    Que beleza. Até BSL
    Abraço
    Paulo Frias

  3. Claudete disse:

    Dr. Altamiro,

    Que trabalho lindo e como sempre digo, sou muito grata por nos presentear com belas fotos e palavras. Admiro sua vida de trabalho e ainda a maneira do tratamento dos nossos parentes. Realmente são pessoas que precisamos ajudar sempre e continuamente necessitam de ajuda de tds.
    Esse lugar chamado “Lago do Caracaranã” realmente é um lugar muito belo e abençoado e que tds possam aproveitar bastantes esse momento que foi unico com nossa população indígena, fiquei maravilhada com tudo.
    E agradeço realmente pela equipe do Leste e foi maravilhosa em td que foi feito.

    Abraços,

    Claudete Ambrosio

  4. Hermes Berguerand disse:

    Está é a galera do bem!!! Sucesso a Todos, envolvidos neste grande projeto!!!

    hermes Berguerand

  5. Marina disse:

    Parabens dr. pelo seu trabalho! Que no mundo tenha mais pessoas como vc e os participantes dessa ONG. Sucesso!

  6. Irene disse:

    A vontade é largar tudo por aqui e ir fazer parte desta equipe que muda vidas e reescreve histórias…Um abraço de mãe para vc. Doc Tatá!

  7. Kezia Lima disse:

    Eita tamiro….ótimo texto. Bj grande pra vc kíssila srsr

  8. Parabéns. Há muito acompanho o trabalho de vcs. Estudei com Doutor Ricardo A Ferreira ainda ainda meninos em Campinas. Já vi reportagens especiais em Tv. E divulguei a outros profissionais da imprensa o trabalho maravilhoso que realizam. Digo a quem posso não é só além fronteiras que há carências de assistência, conheçam essa equipe de médicos brasileiros que fazem um excepcional trabalho aqui mesmo num lugar tão distante com nossos brasileiros mais brasileiros que nos mesmos, os povos das nações indígenas. . Isso é Brasil maravilha.

  9. Sam disse:

    Parabéns Altamiro! Fico sem palavras pra descrever o quanto admiro vc e o trabalho que você realiza é simplesmente fantástico ver, conhecer pessoas que tem todo esse despreendimento em prol dos seus semelhantes. Me emociono muito com seus relatos, que Deus cubra a todos com suas bencãos. PAZ e LUZ. Abracos.

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