Impressões Indianas 68

Depois do casamento viajo a Puttaparthi, onde está Prashanti Nilayan, meu destino final. Nas ruas de Bangalore não vejo pichações nos muros. Em compensação há muitas pinturas que enfeitam a cidade.

11 04 India aa Bangalore (06) 

11 04 India aa Bangalore (11)

Percebo que não exagerei quando disse que se buzina para tudo. Até para as cabras, vacas e macacos que quase atropelamos. Não posso dizer que alguém desrespeita regras de trânsito, pois acho que não há nenhuma regra por aqui, no máximo semáforos, as vezes solenemente ignorados. Acho que lei de transito é: se o carro é maior, tem a preferência; se o carro é mais rápido tenta ganhar a preferência; se o carro buzina mais, conquista a preferência.

11 03 estrada indiana (41) Onde está a segurança?

11 03 estrada indiana (7) E como sempre está lá escrito… Sound horn – Toque a buzina

Antes da viagem muita gente perguntou se eu estava indo para meditar, como no filme Comer, Rezar e Amar. Aqui não é bem um lugar de meditação. Na verdade nem mesmo achei um local tranqüilo para isto. Este é um local de peregrinação, onde as pessoas vem para escutar ou simplesmente estar perto do guru, no caso Sai Baba, considerado por muitos uma encarnação de Amor. Apesar disso há quem medite em seu quarto ou mesmo debaixo de uma árvore.

No final da tarde há chance de Sai Baba aparecer no Mandir, o que todos esperam. Mandir é um grande espaço coberto decorado em estilo indiano. Milhares de pessoas se acomodam no chão. Ninguém sabe se Baba realmente aparecerá, mas todos esperam. Sentados. Ninguém se levanta sob pena de ser repreendido com gritos de “senta!” ou equivalente em alguma língua desconhecida. Quando alguém decide ir embora o de trás chega para a frente e todos avançam em seqüencia. É um amontoado de gente tentando chegar mais e mais a frente. Onde estou só há homens. As mulheres ficam sempre separadas. Há um grupo musical que canta e muita gente acompanha, embora a maior parte pareça apenas meditar, “pensar na vida” ou esperar a próxima oportunidade para chegar mais a frente. Depois de algum tempo surge o carro que trás Baba. Ele é pequeno, enrugado pela idade, mas fica enorme diante de nós que estamos lá só por este motivo. Baba se vai após o Arathi, cerimônia em que a cânfora é queimada, simbolizando que desejamos que quando nossa vida termine possamos subir diretamente aos céus sem deixar cinzas ou resíduos como a cânfora no fogo. Nada foi dito, sua presença já diz tudo. Seu corpo físico está visivelmente cansado, mas sua energia é inesgotável como seu amor. Estamos nos últimos tempos de Sua presença entre nós e por isso estou aqui.

21 de março
Acordei a noite, ainda desalinhado com o fuso e me forcei a ficar na cama até mais tarde. No ashran há dois tipos de alojamento: quartos e sheds, que são os coletivos, como no que estou. Os sheds para ocidentais tem beliches e para os indianos não tem nada. Eles dormem no chão com a maior naturalidade. No máximo uma esteira ou um papelão e pronto, já estão acomodados. O preço é irrisório – menos de um real ao dia. No banheiro não há saída para chuveiro, somente para uma torneira que alimenta um balde. O banho de balde é institucionalizado e a maior parte das pessoas, pelo que percebi, prefere esta forma. Até nas ruas vi gente tomando banho assim. Agacham-se perto da saída de água e vão se molhando e se lavando, de roupa mesmo.

balde Baldão, ainda no hotel em Bangalore.

No meu shed cabem 160 pessoas. No prédio onde estou há 6 sheds e há 6 prédios destes, a “ala nova”. Hoje estão vazios. No meu há umas 50 pessoas, de diferentes países. No prédio só estão ocupados o nosso e um feminino. Na época dos festivais as pessoas dormem até no chão por falta de lugar.

cel li (7) Dormitório

IMG_7251 Beliches no shed.

Tem gente de todo o mundo aqui. Alguns homens usam turbantes, outros usam fez, bonés e chapéus de marinheiro. Alguns usam calças boca-de-sino e blusa asa-delta com brilho que parecem ter saído dos Embalos de Sábado a Noite, mas a maioria usa camisas, saiotes, túnicas, fraldões ou largas calças brancas. O contraste é nítido com os sáris multicoloridos. Os homens são nuvens de branco e as mulheres arco-íris de gente.

IMG_7483 É assim… os homens de “fraldão” e roupa branca. Mulheres coloridas.

IMG_0919 Viva o colorido!

IMG_7381a Barba branca e fez na cabeça!

IMG_0871 Roupa branca e turbante colorido.

Indianas são charmosas e vaidosas. Todas usam piercing no nariz e muitas usam dois, um de cada lado. É comum o uso de tornozeleiras prateadas que chacoalham ao caminhar.

IMG_7299

Há sempre um anel no segundo dedo do pé. Ele pode ser um simples aro, mas pode ser enfeitado ou com pedras. Há mulheres que usam até três anéis em cada pé. O uso é sempre simétrico em ambos os lados. Meninas normalmente usam cabelo bem curto ou estão carecas e usam saias ou calça comprida. Estão normalmente enfeitadas como princesas e tem os olhos pintados de henna como bonecas. Depois, na adolescência deixam o cabelo crescer e fazem os piercings. Não vi nenhuma criança nem mesmo de brinco.

aaa Pai fotografando filha toda enfeitada.

aaaa Modelo de calça comprida.

Uma opção para as mulheres que não querem usar sári são calças largas, blusa de tecido fino e uma espécie de cachecol que não se enrola no pescoço, mas que se atravessa de um lado para outro, caindo pelas costas.

 IMG_7288 A careca não é vaidade, mas devoção. Tem muita mulher careca, mas não deixa de usar brinco, pulseira, piercing.

Os indianos são sempre morenos, mas alguns são realmente negros. A diferença é que os cabelos são lisos ou ondulados e sempre bem escuros, exceto pelos mais velhos, de cabelos brancos. Bigodes há para todos os gostos, mas paixão nacional são costeletas, sempre presentes, até em crianças.

00 a Bigodão e costeleta.

Enquanto observo a todos, também sou observado. Hoje duas vezes me pararam para perguntar de onde eu era. Brasil soa muito distante para eles que sorriem encantados. Depois duas meninas carequinhas vem falar comigo. A mais velha diz para a irmã me cumprimentar e ela estende sua mãozinha. As duas sorriem e me cumprimentam felizes. Toda a família sorri. E eu também.

As refeições no ashran são feitas em três restaurantes: há uma cantina indiana, mais barata, sempre lotada e com cozinha apimentada; outra com culinária do norte da Índia, que dizem ser “só pimenta”, e uma ocidental, com cardápio internacional. Os cozinheiros são voluntários de todos os países. Há quiosques onde tomo sorvete, caldo de cana, água de coco, suco de lixia, maçã e uva. Tem também iogurte e lassi, um tipo de iogurte misturado com suco. Além de gostoso é colorido: já tomei amarelo, rosado, creme – e nunca descobri o sabor original. Para os que preferem cozinhar há padaria, horti-fruti e mercado. Carne não há em nenhum momento e em nenhum lugar. Em todos os lugares até as filas dos caixas são separadas por sexo. No mercado nem o horário é igual: homens compram a tarde e mulheres pela manhã.

DSC00084 Venda de coco.

DSC00069 Cantina norte-indiana.

Noite. Enquanto escrevo as mulheres do alojamento a minha frente oram. Acabou a luz e o silêncio torna impressionante o coro. Não posso dizer que me sinto transportado para a Índia, pois já estou aqui, mas confesso que é uma experiência única, que gostaria de poder melhor compartilhar com vocês.

22 de março

Acabo de me mudar para um quarto. Estava bem no dormitório, mas chegou um senhor com um problema no pé e me convidou para dividir com ele por uma semana, pois é mais perto do mandir. Mais tranqüilo e com chuveiro. Gherardo, italiano já veio 18 vezes a Índia, sempre a Putaparthi. No quarto encontramos almofadas, travesseiros, produtos de limpeza e até roupas. Muita gente quando vai embora deixa objetos para os que vão ocupar o quarto a seguir. É solidariedade mesmo com quem não se conhece.

india 2 11 03 (43) Gherardo comprando um pote de aço. Não tem cara de gringo rico?

Não sei se a idéia é imitar um elefante, mas alguns indianos oram para Ganesha (deidade com cabeça de elefante) fazendo agachamentos sobre uma única perna enquanto com uma mão seguram a orelha oposta e com a outra o nariz. Outros oram dando voltas sobre si mesmo e um último grupo ora se abaixando e levantando. O mais comum aqui é orar circulando um altar, o que vi muitas vezes. Também é comum partir cocos adiante do altar, simbolizando o desejo de romper a nossa “casca” externa, permitindo que nos aproximemos de Deus.

DSC00106 Altar de Ganesha.

Que possamos também nos aproximar mais e mais de Deus! Fiquem em sua Paz!

Altamiro

Anúncios

4 comentários Adicione o seu

  1. Marcileide Barros disse:

    Olá Altamiro, fico muito feliz em receber notícias suas,
    em receber suas reportagens pois, as acho muito interessantes.
    Que Deus te abençõe em sua nova caminhada, e que abençõe também todos aqueles vítimas das enchentes.

    Não deixe de dar notícias. Fica com Deus.
    Abraços!
    Marcileide

  2. Pedro Erthal disse:

    Muito legal. Abração.

  3. Wallace disse:

    como vai? estava sentindo falta dos seus e- mails
    infelizmente não apareceu as fotos deste e-mail
    Abçs
    wallace

  4. Inácio disse:

    Altamiro,
    O que posso dizer para um amigo que busca o sagrado( em intencoes e atos) , prossiga na sua procura porque somente na sagrada montanha de sua Alma , no silencio e no aparente vazio Deus podera ser encontrado e vivenciado.
    Inacio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s