Impressões Indianas 69

23 de março
Impressionante. Puttaparthi é um vilarejo onde era para existir somente pobreza e espiritualidade como em boa parte da Índia. É muito diferente. Não falo de hotéis e comércio, mas de universidade, escolas, creches, conservatório de música, ginásio, planetário, museus, hospitais, rede de água. Gente de todo país vem não apenas em busca do espiritual, mas também de uma melhora de vida, pois tudo é de graça, oferecido pela Fundação Sai.

IMG_0878 Planetário

IMG_0909 Escola de Música

Na rua principal há cartazes com pensamentos escritos em várias línguas, entre elas o português. Por fora dos prédios tudo é muito bonito, florido. No pátio do primário ao lado de escorregas em forma de elefantes e girafas, meninas jogam badmington, um dos esportes populares aqui, embora não tanto como o cricket, mania nacional.

IMG_0598 Estudantes passam por placa com pensamentos em diferentes línguas.IMG_0612Em português!

IMG_0617 Elefante-escorrega.

É comum encontrar pessoas sentadas no chão. Sentam-se de todo jeito: pernas cruzadas, agachados, pernas viradas para trás ou mesmo escancaradas, inclusive as mulheres. Não há problema, pois o sári impede a visão de qualquer coisa. Na rua uma senhora agachada no chão oferece uma balança para que os passantes se pesem. Ela pede duas rúpias. Imaginem que isto é menos do que dez centavos… Pago e subo. Ela fica imensamente feliz e após me pesar começa a rir como criança. Seguro em sua mão e ela sorri mais ainda.

india 2 11 03 (39)a  Com o sári as mulheres podem sentar de qualquer jeito.

IMG_0846Olha a velhinha da balança.

Também é comum ver gente deitada no chão. Ontem havia um homem dormindo em uma ladeira. A perna dobrada fazia a segurança para que não rolasse. Hoje vi uma senhora deitada na rampa de acesso para um dos prédios. Ela não tinha necessidade de estar ali. Só achou o local fresco, devia estar cansada e deitou-se para “apreciar a vista”. Simples assim. Com certeza algumas pessoas que vejo deitadas na rua não são “sem teto”, mas gente que simplesmente está descansando. E não importa aonde: qualquer lugar é bom para dormir.

Vou ao Museu Chaitanya Jyoti. Como em todos os espaços internos (inclusive lojas) não se pode andar calçado. Entramos todos em fila e nos conduzem até uma sala onde sentamos no chão para assistir um filme que explica a origem do universo. As imagens são lindas. Após mais alguns corredores há outro filme que fala de amor e serviço. É nítida a emoção dos que estão ao meu lado, a maior parte formada por gente muito simples, alguns com toda a família.

IMG_0629 Eu no museu. Sem sapato!

A Índia está em festa. A seleção bateu o Paquistão no cricket, esporte nacional. No estádio ao lado do museu vários meninos jogam cricket, enquanto uns poucos arriscam chutes em uma bola. Não tem jeito: são pernas-de-pau. Por isso que gostam de cricket.

IMG_7371a Cricket… E foram campeões do Mundo em casa.

IMG_7377 Uma enorme estátua do macaco Hannuman está no alto da colina por cima do estádio.

Voltando resolvo me pesar novamente. A senhora me reconhece e sorri de longe. Faço que vou lhe pagar e não aceita. Insisto muito até que aceite. Sorri mais ainda. Feliz. Sua boca não tem dentes, mas ilumina toda a rua.

IMG_0849 Gente boa, até pose ela fez!

IMG_0850 A única mulher que eu abracei na Índia…

Jeera Masala Soda – Se alguém me contasse que eu iria provar um refrigerante salgado, eu não acreditaria. Mas existe. A garrafa era bonita e resolvia arriscar. Como quem vê cara não vê coração, ao provar o susto foi grande: salgado! Não consegui tomar nem meia garrafa. Depois é que descobrir que “mesala” é um tempero muito usado por aqui.

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No Mandir, esperando Baba percebo algo interessante. Embora todos queiram chegar para frente, se alguém sai de seu lugar para tomar água, ir ao banheiro ou mesmo voltar ao quarto, é só deixar um simples lenço para marcar o seu local que todos respeitam. Ninguém ocupa o lugar: é sagrado. No passado Baba costumava caminhar pela multidão. Hoje, com o corpo físico cansado, vem de carro e passa lentamente em frente aos devotos. Olha de um lado a outro, atento. Seu olhar é inesquecível, único. Todos tem certeza de que Baba olha diretamente para eles. É um olhar penetrante, repleto de atenção. É como se fosse todo atenção para cada um de nós.

Havia acabado de jantar e me perguntava como poderia ajudar no serviço, já que tudo aqui é feito pelos indianos. Quando me levanto escuto a pergunta: “Pode ajudar hoje? Precisamos de gente para arrumar o refeitório!”. Perguntei, a resposta chegou, e lá passei eu uma hora limpando cadeiras, varrendo chão, lavando esfregão. Sempre alerta para servir.

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Todo o trabalho – organizar filas, guardar objetos, controlar telefone, limpeza, portaria, cozinha – é feito por voluntários indianos. A maioria é gente muito simples que sorri quando pode ajudar. Homens e mulheres de todas as idades e religiões vem de toda Índia e tem que esperar muito pela oportunidade de passar duas semanas trabalhando.

 

Manhã
Estou na Árvore da Meditação, onde Baba muitas vezes falava a seus seguidores. Um barulho de pássaros me chama atenção. Não são pássaros, e sim morcegos. A árvore está repleta deles, que voam mesmo durante o dia e parecem não ser tão sensíveis quanto os brasileiros.

india 2 11 03 (11) Parecem frutas na árvore… são morcegos.

Hoje vi muitos macacos no ashran. Há um que deve ser o “macho alfa”, muito maior do que os demais e com diversas cicatrizes pelo corpo. Rosna como um cachorro e os menores fogem dele. Tem também uma mãe catando piolhos de um filhote pendurado em sua barriga, onde mama. Se ela anda ele continuava pendurado de cabeça para baixo. E cheguei a uma conclusão: se brasileiro tem medo de coco de pombo na cabeça é porque nunca viu um macaco fazendo caquinha do alto da árvore.

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Há pombos aqui, mas não são muitos. Comum é uma espécie de corvo com o pescoço cinza. Fazem barulho, imitam outras aves e roubam a comida que sobra no chão. A algazarra é enorme. Há também um tipo de sabiá com o bico bem amarelo. Como só há beija-flores nas Américas, aqui um pequeno passarinho o “substitui”. É pequeno como o beija-flor, tem o bico semelhante, cor metálica, mas o vôo… que diferença. É vôo de passarinho, e não de beija-flor.

25 mar

Aproveito a manhã para ir com Gherardo à casa onde nasceu Sai Baba, hoje transformada um pequeno templo fora do Ashran. Lá habita – literalmente – um monge que lhe dá “leite abençoado” por 10 rupias (nada em termos de reais, mas um absurdo por ser cobrança da fé).

DSC00980 O que era uma casa virou um templo.

Fomos depois a Árvore dos Desejos, uma velha tamarineira no alto de um morro de onde se tem a vista dos prédios, do rio que banha a cidade e algumas plantações. No caminho subimos por ruelas onde o esgoto corre a céu aberto, velhos e deficientes pedem esmola e onde há camelôs, muitas barraquinhas. O que você quer? Incenso, fotos, CDs, imagens de Baba ou de Shiva, espelhos coloridos? Eles tem de tudo. E quase tudo com cara de made in China. Daqui são somente as flores, o incenso e os pacotinhos prontos com caneta e papéis para que os devotos façam seus pedidos e deixem presos junto a árvore

india 2 11 03 (60) Árvore, repleta de papelotes com os “desejos”.

india 2 11 03 (70)aLavando roupa…

india 2 11 03 (85) Secando roupa…

Gherardo me conta que também é assim em Jerusalém, onde a Via Sacra, caminho percorrido por Cristo em seu calvário, é tomado por lojinhas e vendedores. As pessoas buscam lugares iluminados, querem buscar a energia que emana destes lugares e elevar seus pensamentos. Muitas pessoas percebem e associam isso a seu ganha-pão. Errado? Não posso julgar. Triste é que a paz se vai destes lugares, e talvez por isso o melhor lugar para meditar seja nas montanhas, longe de tudo e de todos, onde se pode ficar em paz e se encontrar consigo mesmo e, conseqüentemente com Deus.

Hoje descobri que quem quer ficar na frente no mandir forma uma “pré-fila” após o almoço. Você chega, marca seu lugar e pode ir embora, só voltando por volta de três horas. As três e meia todos que estão lá são chamados e divididos em quatro outra filas. Um sorteio define a fila que irá entrar primeiro. São 13:15h, acabei de deixar minha almofada na “pré-fila” e já haviam cerca de outras trinta marcações. Nem todos deixam almofadas. Alguns deixam simplesmente pedras ou lenços. É impressionante como ninguém mexe. A mesma coisa se dá com os calçados. Em nenhum lugar se entra calçado, seja nos templos, restaurantes e museus. As vezes são centenas de pares e ao final, quando procura, o seu está sempre lá.

DSC00074 Olha a “pré-fila”.

Noite

Acabo de chegar da seva (serviço voluntário) que faço a noite na cantina. Éramos um alemão, um irlandês, um italiano, um sul-africano e um iraniano, além de mim. Uma babel. Quase impossível saber quem é de onde. Apesar da mistura se conversa pouco. Porque? Todos estão imersos em pensamentos. Além disso homens e mulheres estão sempre separados, passamos longas horas em silêncio no mandir e no máximo ás nove está tudo apagado. Não se pode cantar, beber, fumar, namorar. Não há bebida alcoólica alguma. Se vem aqui para orar.

Fiquem em Deus,
Até a próxiima,
Altamiro

19 comentários Adicione o seu

  1. Meu amigo, você está renovado…
    Um grande beijo
    Saudades.

  2. Martha Maldonado disse:

    Meu querido Altamiro,

    Adoro suas impressões!!! Pode ser da Amazônia ,da India ,da lua…rsrsrsrsr
    Achei impressionante a pré fila!!! Bem que poderia acontecer aqui para compra de ingrssos do jogo no Maracanã FLA X VASCO !!rsrsrsrsr Já imaginou ….em volta do maracanã cheio de almofadas,sandálias marcando o lugar..rsrsrsrsrsrsr muito engraçado! Agora é lindo a forma de pensar evoluida deles em respeitar ao próximo, como somos mesquinhos e maldosos pois sempre pensamos na violência ou de levar vantagem em tudo.Que aprendizado vc está passando!!!! Quando vc disse que o sorriso daquela senhora iluminava a rua toda , que sutileza !!!! E vc querer que ela sorrise de novo ,e só de te ver já estava sorrindo!!! Meu amigo , isso não tem preço!!!

  3. José Carlos Azeredo disse:

    Caro Dr. Altamiro:
    Grato pelas notícias e imagens(muito interessantes e curiosas!)
    Abraços.
    José Carlos

  4. Moaci Judson disse:

    Sempre bom, ver suas postagens!
    Abraço!
    SAPS

  5. Hellen Rose Panizzi disse:

    Altamiro meu amigo,

    só mesmo vc para fazer uma visita espiritual a india.
    acho que já te disse que isso é a sua cara, rsss
    como um homem assim pode ser membro do CAN, rssss
    um grande abraço, gosto muito de ler sobre suas ‘andanças1’,

    Hellen Rose

  6. Daucy Monteiro de Souza disse:

    Altamiro,
    Sem comentários a peregrinação que você fez. Sem dúvidas, você é um ser previlegiado. Deus o ama muito, e nós, também. Seus escritos mais uma vez lhe digo precisam ser editados, propagados. A aprendizagem é enorme através deles.
    Saúde, paz e felicidades para você.
    A admiradora.
    Daucy

  7. Flávia Viana Silva disse:

    Altamiro,
    que lindo relato!! É impressionante a calma e o respeito que os
    indianos passam…
    Esta viagem deve ser maravilhosa!

    Deve ser divertido escorregar na tromba do elefante…

    Aqui em Muaná também já vi algumas pessoas marcando seus lugares com
    pedras na fila do caixa eletrônico. Porém, aqui não foi respeitado
    não…

    Abraços

  8. Ambrogio Vittadini disse:

    Gostei do teu conto Indiano. Nova experiência sempre servem muito. Quero porém dizer para você que eu fiz um livro das minhas experiências Indianas e espirituais.
    Um abraço
    Ambrogio

  9. Adelma Figueiredo disse:

    adoro os suas reflexoes,
    adorei impressoes indianas, me colocam mais perto da minha melhor parte.

    estamos em SP, um frio ótimo, é bom até para as meninas entenderem q nem tudo está acima dos 30 graus kkk

  10. Gabriela disse:

    Saudade de vc. Bjs,
    Gabriela

  11. Robinson e Delma disse:

    Oi grande irmão, é sempre bom receber suas impressões. E a Lidia e Popom, como estão?
    Desejo muito sucesso em seu trabalho e muitas felicidades para você e família.
    Abraço amigo em todos.
    Robinson e Delma

  12. Bruno Erthal disse:

    Fala, Altamiro! Tudo bom?

    Muito legal o mail. Essa viagem deve estar sendo maneiríssima. Outro dia vi um filme e lembrei de você: “Comer, amar e rezar”. Já viu?

    Abraços!

  13. Moacir Stareosta disse:

    que legal meu irmão agora internacional..,

    moa aqui do frio de porto alegre 3 graus…………

  14. Sandra disse:

    Al,
    I just loved your report on India. It’s amazing how much they respect each other. Here in Brazil, if you stand in line for anything, there’s always someone who (with the stupidest face) will try to get ahead of you in line. And what is worse, is that if you complain, they want to argue and fight, as if they were right and you were wrong. Not to get embarrassed you, sometimes, let them take advantage of this and you are literally made a fool of yourself.
    Many kisses and all my love,
    Sandra

  15. Cristina Travassos disse:

    Oi Altamiro

    Que maravilha de vivência esta sua viagem, tudo tão diferente e intenso. Me atrai muito.
    Um grande abraço, muita paz.
    Cristina

  16. Rudi Carvalho disse:

    Só li agora. Show! Mas Baba morreu pouco após seu encontro com ele, não ? Hummmmmm… Onde vc estava na noite da morte de Baba, confesse!
    Abs
    Rudimentar

  17. Pery disse:

    Sempre Alerta Grande irmão e amigo Altamiro,

    Gostei muito de sua mensagem.
    As fotos estão belas.
    Quem sabe um dia possamos viajar juntos para Índia e meditarmos…
    Abraços.

  18. Maria da Glória Piccolo disse:

    Que lindo Altamiro. Não dá pra ficar nem admirada: este é meu amigo Altamiro, do Èdem, de Niterói, do Rio, do mundo; tenho andado meio entristecida com muitas coisas que tenho visto ou vivido; saber de você, ver através de você coisas e pessoas tão diferentes fisicamente de nós mas, tão iguais na luz que trazem consigo ou em suas escuridões, tem sido muito bom pra mim. Obrigada. Beijos

  19. Alice Braga disse:

    Olá Altamiro, tudo bem?!

    Estou organizando uma viagem para Puttaparthi para o meu pai. Ele já esteve na Índia, mas não sabe exatamente como chegar em Puttaparthi. Gostaria, por gentileza, que você me passasse algumas dicas sobre a melhor forma de chegar até o local, é possível?

    O sonho de meu pai é conhecer a Fundação Sai, onde ele nasceu, sentir a energia daquele lugar… pois ele também é devoto do Sai Baba. Estou tentando ajudá-lo, pois ele já é idoso e não tem muitas fontes para pesquisa. Como vi que vc esteve lá no ano passado e deixou este depoimento tão bonito, resolvi lhe pedir auxílio. Quanto mais informações você puder nos passar, melhor!

    Desde já agradeço e aguardo retorno!

    Atenciosamente,
    Alice.

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