Impressões Paulistas 79 – Da Selva Amazônica para a Selva de Pedra

Mudo de selva. Minha visão, habituada as imensidões de verdes, se perde agora entre os tons cinzentos da metrópole. Cinza-chumbo, cinza-prédio, cinza-asfalto, cincza-fumaça. Cinzas de todos os tons ou todas as faltas de tons.

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De uma paisagem para outra em algumas horas

Quem não viu o mar não consegue concebê-lo por textos e nem mesmo por imagens. Quem não esteve na Amazônia não consegue ter idéia da grandeza e da sem-finitude do verde. Quem nunca foi a São Paulo não consegue ter idéia da força e megalomania do homem que ergue e constrói o mundo. Vou tentar me perder neste mundo das florestas-concreto, rios-rodovias, formigas-gente, pássaros-helicópteros, cobra grande-metrô. Preciso decifrar para não ser devorado, sabendo que a aspereza aparente é só uma casca, e entre suas gentes, prédios e carros, encontrarei tesouros ocultos.

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Árvores-postes, cipós-fios, malocas-concreto em meio a migalhas de verde para distrair as formiga-gente.

Busco a seiva por trás da casca de concreto. Museus, centros culturais, exposições, restaurantes, shows, templos, cultura para quem quiser. Para todos os gostos. Para todos os bolsos. Para todos os credos. Para todos os times. Para todos os tudos. Para alcançar o tudo que quero tenho que entrar no ritmo. Não adianta andar. Em São Paulo, há que se fazer como os paulistas. Não se anda. Se corre. Se corre para atravessar a rua antes dos carros, para chegar mais rápido no ponto de ônibus, para ser o primeiro a almoçar, para chegar ao topo da escada rolante – e nela, se está cansado ou com calo nos pés, fique parado a direita que a esquerda vão os que correm. Parece que todos praticam o esporte favorito dos paulistas: correr, ainda que muitas vezes de pasta e gravata.

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Correndo para onde? Não há fim da linha. Ou há?


Acelero e mergulho na boca da cobra grande. Como a gigante mítica da Amazônia, o metrô me engole e serpenteio em seu interior.

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A cobra de barriga cheia. Mesmo assim ela te come.

Cobras grandes rastejam para todo lugar e quando consigo escapar do subterrâneo estou em outro mundo. Estou em Roma, exposta no MASP, entre bustos de César, mosaicos de termas, máscaras de teatro e uma estátua de Vênus – deusa da beleza e da volúpia. Tamanho natural, pele-mármore branca, olhar cativante-dominante-devorante. É linda – e tem barriguinha. Me encanta. Sorte dela ter quase dois mil anos. Se fosse mais nova teria feito uma lipo. O mundo era mais feliz. Mais justo. Mais misturado.

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Vênus é linda – e tem barriguinha.

Volto a cobra grande e quando saio me maravilho com Portinari. Guerra. Paz. Guerra e Paz. Guerra assusta, me domina. Não consigo parar de olhar o bando de hienas azuis. Elas devoram a cena e antes de ser devorado fujo para um mergulho na Paz. Paz alegra, me envolve. Crianças. Sorrisos. Alegria. Saio feliz. Olho para o céu. O céu é azul.

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Portinari era enorme. Nós somos mínimos perto de “Guerra e Paz”.

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Guerra e Paz – da sede da ONU para o Brasil

No céu azul da floresta-cidade, as aves que aqui voam, não voam como lá. Voam pássaros-aviões e aves-helicópteros. Para lá e para cá. São Paulo já tem uma das maiores frotas do mundo. A cidade já não cresce apenas para os lados e por dentro da terra. Veloz e voraz, cresce para os céus, que irá dominar como canalizou rios e aprisionou árvores.

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Memorial da América Latina. Beleza concreta.
Do concreto uma beleza? Só mesmo um gênio concreto: Niemeyer.

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Ninho das aves daqui. O “H” deve ser para não se perderem…

Descubro um parque-prisão onde árvores cumprem pena entre grades e tem hora para serem visitadas. Oásis na Avenida Paulista. Parque Trianon. Estátuas, passarinhos, cachorros, namorados. Namorados de todos os jeitos. São Paulo não tem preconceitos. Casais andam de mãos dadas com naturalidade, sejam homens com mulheres, homens com homens e mulheres com mulheres. Viva a liberdade de ser como se quer!

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No Parque Trianon o bandeirante tem coração vermelho!

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Além de presas, árvores separadas de suas irmãs.
Tem uma rua no meio do parquinho. No meio do parquinho tem uma rua.


Fugindo do verde que parece deslocado no coração da metrópole, entro em uma galeria. Onde estou? Não entendo nada que falam e pouco entendem quando pergunto. Só nos entendemos quando mostro dinheiro. Descubro que coreanos e chineses são gênios que atendem todos desejos. Você nem precisa esfregar a lâmpada. Basta esfregar as notas. E aqui não são apenas três desejos, mas quantos você quiser: tablets, câmeras, netbooks, perfumes, celulares, tênis, filmadoras – desde que possa pagar.

Paulista, avenida mais cosmopolita do Brasil. Novamente me descubro em outro mundo. Passa um gay fortão com um pit-bull de focinheira. Sigo uma japonesa com as costas tatuadas. Punks e freiras, emos e negros, orientais e mendigos, travestis e engravatados, grávidas e skatistas, maratonistas e dondocas, velhos e gringos, estão todos aqui.

Na calçada assisto um show de rock pelo valor que me dispor a colocar em um chapéu. O cara é bom. Melhor do que os hare krishnas esforçados, mas desafinados que vendem incensos e livros. Sigo adiante. Um gritador-evangélico fala de Deus à multidão que passa. Ninguém escuta, ainda que uma imóvel estátua-humana teime em dar atenção ao discurso. E nem pisca. Perto, a televisão japonesa filma um repórter que conta da pobre cidade milionária onde pessoas dormem nas ruas, ou talvez  do que acontece no coração quando a gente cruza a Ipiranga e a avenida São João.

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Os Hare-Krishnas e o roqueiro. O celular se recusou a fotografar o “gritador”.

O entardecer lança os últimos raios de luz sobre os prédios. É sinal de democracia – o sol se põe para todos – embora os maiores e mais caros tenham sol por mais tempo e lá do alto deixem no escuro seus velhos tios-avós, solares seculares. Tombados e quase tombando, refletem em seus vidros o seu amanhã, o que nunca serão.

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O futuro espelhado no passado…

Fujo da confusão e volto a mais uma vez mergulhar na cobra grande. Sabe-se lá onde vou sair.

3 comentários Adicione o seu

  1. Marize Machado (mãe do Rafael Sacramento) disse:

    Bellíssima descrição da grande metrópole e do seu povo sofrido, que mesmo assim insiste em permanecer na Grande São Paulo para ter “uma vida melhor”.
    Não tive a oportunidade de ver a floresta Amazônica em sua grandiosidade, mas imagino como seja, pois já estive em contato com a selva ao viajar de barco no rio Parnaíba para chegar ao Maranhão (cidade do Magú).
    A maneira como descreve os detalhes como “mergulhar na cobra grande” e outros detalhes torna tudo o que você escreve fascinante.
    Adorei.

  2. Sidney Brasil disse:

    Altamiro, vc é um poeta. Quanta sensibilidade !
    Obrigado por suas crônicas.
    Saúde e Paz !

    Sídney Brasil
    Belém – PA

  3. Fabricio Gabriel disse:

    Excelente retrato da selva cinza!

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