Impressões Veadeiras 97

– Está vendo aquela serra lá longe? – me pergunta Catitu, nosso guia em Cavalcante, cidade goiana na Chapada dos Veadeiros.
Ao longe uma serra domina o horizonte e imagino que lá está a comunidade quilombola do Engenho, repleta de cachoeiras e preservada por anos pelo seu isolamento. Longe mesmo, penso eu, respondendo:
– Distante mesmo, não? Lá que está o quilombo?
– Claro que não! – Catitu responde. A gente ainda roda bem do outro lado do morro!

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Fico perplexo imaginando duas coisas. A triste necessidade do homem se esconder do próprio homem e na capacidade de resistência e sobrevivência mesmo anos após o fim da escravidão em lugar tão isolado, vítimas de preconceito da sociedade.
Não muitos anos atrás só se atravessava a serra em lombo de burro, carregado com a parca produção para tentar conseguir alguma coisa na também pequena cidade de Cavalcante.
Hoje, pick-ups poderosas atravessam a serra levando turistas ávidos por conhecer as trilhas e cachoeiras da região, especialmente a Santa Bárbara, poço encantado e nosso destino.
Na comunidade somos recebidos em um organizado Centro de Apoio ao Turista, onde os guias se identificam (se for sem guia é obrigatória a contratação de um no local) e onde pode comprar produtos típicos da região, como compotas, pequi ou tomar um caldo de cana bem gelado com pastel.

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Não dá para ler, mas na caixa d´água tem escrito: “Graças a Deus pelo turismo, que melhora nossas vidas”.

A cachoeira é bem bonita, embora pequena. Para uma cachoeira considerada uma das mais bonitas do Brasil esperava mais além de águas azuis.

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– Não é essa! – grita o guia. – A gente passa por cima da queda e continua.
É só um aperitivo. Subo mais um pouco e…


Uau! Não há nem muito o que dizer. Uma cachoeira pode ser fofinha? Pode ser cuti-cuti? Essa é… Águas azul-esverdeadas, areia branca, poço circular, rodeado de mata. Queda alta suficiente para oferecer um banho delicioso, mas não tão alta a ponto de intimidar. Melhor que isso? Só se você estivesse aqui comigo!

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Rancho Kalunga. Paramos para comer uma comidinha bem tradicional: salada, abobrinha, jiló, abóbora, beterraba, peixe, porquinho e frango. Pergunto que espécie de peixe é escuto: “tambaqui”. Surpreso, comento ligeiro que não imaginava encontrar tambaqui por ali e ela me responde: “Trazemos de fora. Os peixes daqui são muito pequenos”. Logo descubro que de fora também veio boa parte da salada… No lombo de burro antigamente era difícil, mas agora até restaurante quilombola é globalizado!

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Carros no estacionalmente do Restaurante Kalunga. Do lado de fora, tal como em Grande Sertão, um “Manuelzão”andando a cavalo com sua grande capa e com os cachorros na frente.

IMG_20180115_154136839Comida boa até para os vegetarianos.

Aqui em Cavalcante comemos na padaria caseira de Dona Helena. O preço é pra lá de convidativo, mas o sabor é o que nos conquista. Não tem muita variedade: diariamente pão, pão de queijo, “quebrador”, café e leite. Dois sabores de bolo variam a cada dia e pode surgir também algo novo, como um biscoito de queijo. Vale a prosa e para observar o movimento.

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Pórtico de entrada de Cavalcante!

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A deliciosa padaria da Dona Helena.


Hoje é nosso último dia e seu marido que vem nos atender. Logo puxa conversa e pergunta de onde viemos e para onde vamos. Talvez inspirado pelas perguntas tão filosóficas ele para fitando a distância e nos diz: “Sabe que eu nunca fui a nenhuma destas cachoeiras?!?”. Pergunto a quanto tempo mora na cidade e ele me responde: “Há mais de quarenta anos vivo aqui. Quando era novo a gente queria ir, mas tudo era muito longe, a gente não tinha carro. Agora tenho carro, mas já não tenho mais vontade de ir a rio nenhum…”. Me recordo de Camões… “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades… todo o Mundo é composto de mudança… o tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria…”

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Alto Paraíso. O nome já fala da beleza da região, capital informal da Chapada dos Veadeiros. Atrás das cachoeiras e dos vales repletos de cristais migraram primeiro os hippies, depois os naturebas e exotéricos e hoje encontram-se pessoas de todo o tipo que querem desfrutar de um reencontro com nossa casa, com a natureza.

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Um dos saltos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.

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No camping onde estamos araras, tucanos e periquitos pousam sobre as árvores que sombreiam a nossa barraca. A noite espalha estrelas em nosso teto quando saímos para passear pela animada avenida principal onde cristais são vendidos em meio a restaurantes, roupas indianas em meio a sanduíches e recordações dos ETs – sim, dos ETs, comumente avistados por aqui, segundo os entendidos – em meio a uma prosaica pastelaria: Senhor dos Pastéis, onde Frodo, Aragorn e seus amigos carregam pastéis na ponta da espada.

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Quadro que comprova que Gandalf entende de pastéis.

Quando criança eu sempre fui muito medroso. Agradeço a paciência dos meus chefes escoteiros que me ajudaram a superar cada um dos meus medos: altura, escuro, solidão. Por isso acho que temos que dar força para tudo que nossos filhos fazem para superar novos desafios. E se atirar de um altura de 100 metros não é para qualquer um! E é isso que o Kim vai fazer: aos 13 anos se atirar de 100 metros de altura em uma travessia de mais de um minutos com velocidade de mais de 50km/h. E claro que estou acompanhando? No salto da tirolesa? Não: Deixando com o instrutor, fotografando e pegando no final. Alguém tem que fazer isso, não?!?!

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Eu queria saltar… mas alguém tinha que fotografar, né?!?  ;  )

O parque é lindo, os cenários paradisíacos, lindas quedas… Realmente a Chapada dos Veadeiros é um dos lugares incríveis de nosso país. Mas aqui, dentre tantos cenários, em um faço questão de voltar: Vale da Lua. É um cenário que não encontrei em nenhum outro lugar. Pedras cinza, retorcidas, com cavidades, espalhadas ás margens de um rio que desce agitado até formar um poço ótimo para banho. Parece a lua. Ou melhor, quando eu for a lua vou poder dizer: Parece a Chapada dos Veadeiros.

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Não parece a lua?

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Eu tô completamente molhado. Já havia tirado a camiseta e guardado tudo na mochila, providência que meus filhos, embora alertados, não tomaram. Estamos no mirante por baixo do Salto Itiquira, que se orgulha de ser a “maior cachoeira acessível do Brasil”. Na verdade não dá para chegar embaixo da queda, mas estamos “do ladinho”. Ainda bem que o celular agora tem protetor, então dá para tirar algumas fotos para vocês. Depois mando, pois agora é hora de aproveitar!

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Abraço no coração e até a próxima!

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Pra quem já viajou com Guimarães Rosa… Grande Sertão… Veredas!

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Cachoeira Véu da Noiva

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