Impressões Amapaenses 36

Carnaval 2008

Impressões Amapaenses

Água e Verde. Foi esta a impressão que tive logo ao chegar em Macapá, capital do Amapá, homenageada pelo Carnaval da Beija-Flor campeã e que está dividida entre os hemisférios Sul e Norte.

Esta divisão gera uma confusão geográfica interessante… Como o verão no hemisfério sul corresponde ao inverno no norte e vice-versa, na teoria metade da cidade está em cada estação do ano. E o mais curioso. Se você for ao Monumento do Marco Zero, todo ele atravessado pela Linha do Equador, você pode estar com os pés no inverno e a cabeça no verão… Lógico que eu fiz isso e registrei com uma foto, o que dá direito a um certificado emitido pela secretaria de turismo comunicando que o turista esteve nas duas metades do planeta ao mesmo tempo.

Aliás, a cidade aproveita esta curiosidade, e na seqüência do monumento há um estádio de futebol, oficial e popularmente conhecido como Zerão, onde a linha divisória do campo segue a linha do Equador. Assim, cada time joga em um hemisfério distinto. Bastante curioso.

Dizem também que em cada hemisfério o ralo roda para um lado diferente. Lá fui eu fazer o teste, e logo que desembarquei, me meti no banheiro do aeroporto, tapando com a mão o ralo até encher a pia e deixando a água escorrer e perceber que ele estava realmente correndo no sentido contrário, ainda que fosse apenas imaginação minha, causada especialmente pela pressa pelo fato dos outros usuários do banheiro já estarem achando que eu estivesse doido, talvez intoxicado pela quantidade excessiva de ar puro, não tão comum no nosso sul brasileiro.

A posição geográfica na verdade se reveste de importância maior do que a mera curiosidade, pois influencia na percepção que tive: muita água e muito verde. A água é onipresente. Aqui, no estado brasileiro com maior índice de cobertura vegetal, a Amazônia ainda é uma realidade mesmo na capital, e como tal as chuvas são uma constantes e o índice pluviométrico altíssimo. As margens do Rio Amazonas, cercada de rios e igarapés, Macapá já mostra a característica anfíbia de todo o estado. Ao se dirigir um pouco mais para o interior os campos alagados abrigam garças, marrecas e inúmeras aves que dividem espaço com búfalos e peixes.

A cidade possui uma agradável orla em toda beira-rio (se bem que pelo tamanho do Amazonas por aqui eu poderia até dizer “beira-rio-mar”), com características diferentes em cada localidade. Em algumas, mais chiques há calçadões com restaurantes (comi um filé de peixe recheado de camarão indescritível) e bares, além de um trapiche muito bonito.

Na orla também estão a feira de artesanato (com várias peças de manganês vindas da serra do navio) e a feira de comidas típicas (semelhante a paraense: tacacá, tucupi, açaí, maniçoba e, a novidade… mandioca frita em palito, feita em carrocinhas na rua da mesma forma que em outros lugares encontramos batata frita.

Em outros trechos há espaço para campos de futebol de areia. Aliás, acho que escolhi a palavra errada, pois areia não é bem o que encontramos por lá, mas sim lama, o que faz com que o Amapá tenha o único campeonato de fute-lama que temos notícias. E como a variação de marés é muito grande, o campo é versátil, pois o que é campo de futebol da maré baixa, se torna um verdadeiro campo de pólo aquático na maré alta, quando as traves viram poleiros de mergulhões e gaivotas.

Continuando pela orla chegamos aos vários portos. Barcos de todos tamanhos, de um ou dois andares se acotovelam buscando espaço para descarregar sua carga vinda das ilhas e dos rios que desaguam na “mãe” Amazonas. Bananas, peixes, açaí, mais peixes, alguma caça “clandestina”, muito mais peixe, mandioca e muito, muito mais peixe, abóbora, abacaxi, melancia e peixe, peixe, peixe, peixe… Nas proximidades dos portos há fábrica de gelo, para conservação do pescado, venda e manutenção de redes, material de pesca, um posto de gasolina com bomba a beira-rio e até lojas que vendem montarias. Não amigos, ninguém vende cavalos nas lojas, mas sim pequena canoas de madeira, aqui chamadas de “montarias”.

O forte São José de Macapá é um destaque a parte. Tudo bem que ser considerada a segunda maravilha do Brasil, em eleição recente da Revista Caras, é um exagero tão grande quanto o Cristo ter sido eleito por nosso ufanismo uma das sete maravilhas do mundo moderno. Mas que o forte é bonito e imponente, dominando o rio, ah, isto ele é. Muito bonito. As muralhas, intactas, feitas de pedras vindas de Portugal, os fossos e as “pontas” que parecem de uma estrela tornam o conjunto grandioso.

Como nem tudo é lazer, aproveitei para conhecer a Casa de Saúde do Índio, onde são assistidos indígenas de diversas etnias. Muito interessante ver o orgulho dos homens Waiãpi que usam o tempo todo uma tanga vermelha e mais nenhuma roupa – dizem que nem por baixo, mas não tive nem curiosidade de conferir. Esta peça é usada inclusive pelo pessoal que fala português, ou seja, mesmo com contato maior com a nossa cultura. Uma pena foi não ter visto nenhuma pintura, poucos adereços nas crianças e dos dois nomes que pude ver, um se chamava Mengo Waiãpi (que realmente me deixou em dúvida se tratava-se de um nome típico ou uma homenagem ao mais querido, time favorito da maioria dos Amapaenses).

Outro destaque da cidade é ir a Jesus de Nazaré. Não, não é nome de padaria como parece a primeira vista, mas sim de uma sorveteria deliciosa, que para mim deixa para trás as famosas Glacial (Manaus) e Cairú (Belém) com seus sorvetes de castanha do pará com doce de cupuaçu, tapioquinha, mangaba, bacuri (minha escolha de sempre), taperebá, açaí e o gengibre… apenas para os que tem a garganta forte!

Nos arredores de Macapá pude conhecer várias localidades, graças ao carinho de nossos anfitriões: Paulo e Juci, Rafael e Luana e Adriano, que já estão prontos para abrir uma agência de turismo local. Fazendinha, em Macapá mesmo, Ferreira Gomes com um rio maravilhoso onde tomamos um ótimo banho, Curiaú, em região quilombola, Porto Grande, onde fotografei um “boto cor-de-rosa” vestido de maiô marrom, Marzagão cidade bastante simpática, são todas regiões onde se pode simplesmente nada fazer, vivendo a beira-rio, comendo camarão e peixe fresco e curtindo o viver em meio a natureza.

A única nota triste é que no caminho para Ferreira Gomes se encontram muitas plantações de pinheiros e eucaliptos. Sim, estas pragas também estão por aqui, trazendo dinheiro para os ricos e diminuindo a biodiversidade local. Não consigo entender como os pinheiros crescem tão bem, longe do friozinho que lhes é peculiar, mas que crescem, crescem, não há como negar.

Por fim a curiosidade que todo mundo quer saber quando se fala no Amapá: o que o Sarney faz por aqui? Perguntei a algumas pessoas e todos foram unânimes. Ainda que ele não more por aqui o tempo todo – mas sempre tenha tido a sua casa na região – tem feito muito pelo estado, utilizando seus contatos para obter melhorias para o Amapá. Esta mesma surpresa foi a que tive quando visitei São Luiz e descobri que ele é uma unanimidade entre os maranhenses. Terei que morder a língua quando vir o nome do senador associado a um estado que, sabidamente não é o seu.

Falei demais. Hora de pegar minha montaria e me mandar.

Até… beijos do boto,

Altamiro

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2 comentários Adicione o seu

  1. Hilton Cristovão disse:

    “Barcos descarregando peixe, peixe, mas muito peixe, peixe, muito peixe mesmo…” Altamiro, você têm um ótimo olhar clínico, parabéns pela observação. Eu ainda não conheço o Amapá, mas em breve lá estarei! Fazendo uma pequena comparação, quando estive em Roraima eu notei que o preço do peixe é muito, mas muito mais barato que aqui no Espírito Santo. Um forte abraço de Hilton. Vitória-ES.

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