Impressões Amazônicas 12

30 de julho de 2005

Meus amigos Flávia e Joseney costumam dizer que nessa região do Alto Solimões o que não falta é oportunidade de conhecer pessoas interessantes. Não interessantes no sentido Tiago Lacerda e Juliana Paz (aliás… quem dera… isso é o que mais tá em falta por aqui), mas pessoas de formação diversa e que vem para cá elaborar trabalhos, pesquisar ou pela simples curiosidade do que é a Amazônia. Diferente dos hotéis de selva, chiquérrimos, onde chegam os ricos de todo o mundo, quem aterrisa neste mundinho costuma ter um perfil semelhante: bem humorado e de mente aberta. De outra forma a amazônia a devora e a pessoa não dura um mês.

Esta introdução serve para explicar o que fiz hoje o dia todo. Conheci, voltando de Manaus, três pesquisadoras do Museu da Amazônia, que será inaugurado em setembro próximo. A primeira exposição do Museu será exatamente sobre a nação Ticuna, que além de ser uma das maiores do Brasil, é representativa tanto no Brasil como no Peru e na Colômbia. Elas vieram para levantar dados e conseguir fotos, filmagens e gravações que complementem o acervo que já possuem. É uma pedagoga, pesquisando os jogos, brincadeiras e canções tradicionais (e eu viajando só por causa de doenças… ninguém merece!! Acho que a Silvinha sabe bem o que é isso, né??). Uma historiadora que pesquisa as instituições formais, as associações e uma socióloga que pesquisa tudo isso e um pouco mais. Acontece que, após fotografar em Tabatinga, furtaram do carro onde elas estavam (“deram mole pra mané!”) a máquina fotográfica, os cartões de memória e… lembraram de mim. Como em Benjamin é fácil achar qualquer um, lá se foram me convidar para ir junto e fotografar.

***Resultado? 336 fotos e conhecer as aldeias Tikuna, que não conhecia. Bem, isso quer dizer que mais uma vez não falarei dos animais de estimação, afinal, ainda tenho que falar um pouco da minha última ida a Manaus. Mas vamos começar com o passeio de hoje.

A primeira visita foi a Aldeia Filadélfia. Rua asfaltada, casas com antena parabólica e uma super escola pública. Quem diria que uma aldeia é assim?

***Conversamos com o Coordenador do Conselho Geral da Tribo Ticuna, Nino e a Diretora da Escola Ebenezer, Terezinha. A escola este ano resolveu que não iria ter festa junina e sim uma “festa tradicional”, com cerimônias típicas da comunidade ticuna. Assim foram apresentadas danças de pássaros, do jabuti e do “vá vá vá vá vá”. Sabem o que é isso? São as mães embalando os bebês na rede… E para isso também se faz dança!

***O Nino, que também foi professor e fundador da OGPTB (Organização Geral dos Professores Ticunas Bilingues)… Aliás, pausa aqui. O que eles mais gostam é sigla e associação. Tem mais umas 4 ou 5, dentre elas das Mulheres Artesãs, dos Mototaxistas Indígenas e por aí vai. Voltando então, o Nino contava que as crianças não brincam como os “civilizados” – na palavra dele, que já conhece mais do mundo do que eu. Eles são habituados a brincar sozinhos, imitando os bichos, então tem a brincadeira do sapo, do gavião, mas não brincam de carrinho ou de bang-bang. Ele conta ainda da grande dificuldade dos ticuninhas quando vão para a cidade estudar, pois a sua criação é diferente do pessoal da cidade, e então eles não se relacionam e passam por mal educados. Eu noto isso na pele. Eles podem até chorar, mas é muuuuuuito raro falarem qualquer coisa no consultório, ao contrário dos tagarelas urbanos. Eu MORRERIA se fosse ticuna… risos… como assim, não falar??? Segundo Tia Isolda, uma das mais novas assinantes, eu consigo tagarelar até por e-mail… risos.

Bem, outra amostra disso aconteceu mais tarde, quando fomos visitar a Associação das Mulheres Artesãs, presidida pela Rosa. Foi só chegarmos que logo haviam várias mulheres e umas dezenas de crianças. Todas queriam ser fotografadas, mas nunca pediam. Se eu virava a foto para um, logo tinham uns dez querendo aparecer. Aí esperavam eu virar a máquina para eles e davam risadas, brincando uns com os outros. Entre eles falavam apenas ticuna, mais difícil de entender do que o japonês dos Kuribayashi-Kakeya.

Esta Associação fica em Bom Caminho, que foi a primeira aldeia que eu visitei. Estive lá na festa junina há cerca de um mês. O que você espera de uma aldeia?. Ocas? Não. Casas melhores do que muitas na cidade. Penas ou tangas? De jeito algum: bonés, jeans, batons e as legítimas havaianas. Danças indígenas, chocalhos ou maracas? Nunca: quadrilhas com roupas caipiras, forró e “dança do cossaco”. Tudo bem… algumas coisas permanecem. No meio da festa haviam várias mulheres com os seios de fora amamentando seus filhos. Na platéia, ninguém senta no chão, se acocora. E os rostos das crianças são lindos…bem curumins.

Bem, mas o povo aqui é dos barcos, e então vou contar algumas aventuras de barcos e balsas da região, que escrevi algum tempo atrás e ainda não havia enviado.

O ritmo daqui continua me impressionando. Se você tem algum tipo de obsessão por relógios ou horários, decididamente a amazônia não é o seu lugar. Pense na Bahia onde as coisas são mais rápidas. Não acredita? Vejam só: a Flávia e o Joseney compraram um Niva em Tabatinga. O carro ficou na casa de um amigo, até o dia do embarque na balsa de transporte de carga entre as duas cidades. Neste dia, já que a balsa sairia às 8h, eles acordaram de madrugada e pegaram a lancha às 6h para Tabatinga, para fazer o embarque. Em Tabatinga pegaram o carro e o embarcaram sem problemas, embora tenham sido informados que, como chegaria mais carga a tarde, a balsa só sairia à noite. Acordaram cedo em vão. A noite os acompanhei ao porto e…nada da balsa. E ninguém sabia informar nada por lá. No dia seguinte pela manhã, de volta ao porto, informaram que o problema era que estavam carregando a balsa de bujões de gás. Mais um dia e …nada. Por sorte ela encontrou o dono da balsa que informou que faltava uma peça do motor que estava quebrada, vindo de Manaus… Assim somente mais 3 dias depois chegou o jipe. Haja paciência!

outra…

Novamente no barquinho rumo a Tabatinga. Como está entrando uma frente fria, além da manhã cinza, temos ondas e o barquinho sacoleja bem, indo lentamente. É a primeira vez que vejo todos da catraia usando salva-vidas… Tem gente realmente preocupada. Bem, vamos ver então se pela primeira vez vou conseguir ver algum dos botos, seja o pequeno e cinzento tucuxi, seja o famoso boto cor-de-rosa, o famoso Don Juan dos rios que à noite sai a andar nas margens do rio seduzindo as mulheres. Não pensem que com a civilização o medo do escuro ou da noite acabou. Ainda marcado pelo inconsciente coletivo regional, mesmo na cidade é difícil ver alguém mais tarde nas ruas. Conversando com pacientes sei que após escurecer só se faz duas coisas: jantar e dormir. Este relato havia sido interrompido porque com o aumento da chuva tive que me encolher no chão do barco, que balançava bem. Até o piloto estava preocupado e para minha tranqüilidade ouvi a seguinte frase enquanto o barco atravessava o rio.”Vou por aqui que é menos raso” e “nessa praia eu nunca bati. No lado de lá eu bati duas vezes porque ela vivia mudando de lugar”.


Mas o rio que virou minha estrada me trouxe um momento imensamente simples e feliz. No domingo estava no porto fotografando o pôr-do-sol, quando passou uma canoa com cerca de vinte rapazes. Eles vinham na maior algazarra e quando um me viu de pé, no alto de um barco ancorado gritou me acenando. Sem pretensões e com um pouco de timidez, virei a câmara na direção deles e o resultado foi como uma ola digna de estádios. Todos gritaram e davam tchau, e embora já estivessem felizes, se tornaram ainda mais alegres pela possibilidade de “festar” um pouco mais.


Quanto às fotos e textos, a queridíssima Marcelle está começando a agrupar tudo no Impressões Altamirianas, em um blog… e eu como um amigo ingrato já esqueci o endereço… Não me culpe Kisa… mas com a dificuldade de acesso a net não sei onde arquivei o endereço… : ) Prometo enviar na próxima.

Seguem fotos da visita de hoje, para conhecerem as Aldeias de Filadélfia e Bom Caminho.

1 – Posto de Saúde de Filadélfia

2 – Escola Ebenezer, a maior da região e uma referência em educação

3 – Vista da Rua principal de Filadélfia, com um nome tipo Coagügü… soa bem… mas quer dizer apenas “espumante” por causa do local de lavagem de roupas com sabão.

4 – Bernardo assinando a pintura de duas berujéa (fala assim, não sei escrever) que, por incrível que pareça são borboletas. A pintura é feita com tintas naturais sobre casca de árvores.

5 – Crianças posando para as fotos “em bolo”.

Gente, muita saudade!!!

Altamiro

Escola Municipal Ebenezer

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2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Só te arrumam trabalho, né Altamiro… rsrsrsss…. Ninguém mandou ser inteligente, talentoso… rsrsrsss…
    Lindo saber como as crianças indígenas brincam, como são crianças mesmo, né… Nada de video game e querer ser adulto, fazer as unhas, usar maquiagem…
    On the other hand, essa aldeia tá me parecendo meio “pirata”, né…. rsrsrsrsss…
    Bjks

  2. Elis disse:

    Sem relógio…o André surtaria…sempre quer saber a hora e as vezes nem sabe pra que….rsrsrs
    Sempre disponível para ajudar….como diria André…”sempre alerta”…rsrsrs
    As crianças são lindas, felizes e brincam …sem eletrônicos…..que maravilha!!!

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