Impressões Amazônicas 13

6 de agosto de 2005

Hoje voltando do Posto de Saúde ouço um rapaz falando com outro.

“Mas a capivara está presa? Você sabe que com ela eu não entro!”.

Não, capivara não é o nome de uma cadela, como existem tantos “leões”, “lince” e “pantera” por aí. Esta capivara mora em um açude diante de uma casa, bem na zona urbana. Já me contaram que ela se comporta como um cachorro: dorme debaixo da porta, vai comer na hora certa e não deixa ninguém estranho entrar. Diferente, não?? Mas aqui isto é muito comum. Já vi vários animais “exóticos” como dizem os pets, ou “silvestres” como dizem os veterinários, sendo criados como animais de estimação.

O último que conheci foi no Chaguinha. Já falei de lá, é o restaurante onde as pessoas não gostam de atender e onde se toma água na garrafa de big coke. Bem, como sou persistente, de vez em quando volto lá. Da última vez fui pagar e enquanto eu esperava meu troco vi um cachorro magrelo e com um laço vermelho no pescoço. Pensei… “um cachorro doente aqui…”… mas quando olhei de perto… o cachorro era na verdade um veado… Tem um veadinho morando no restaurante. Ainda perguntei se ele era o “almoço de amanhã”, mas me disseram que ele já é “da família”… Tá entendido. Na internet outro dia tinha uma jibóia. No caminho para o trabalho papagaios, araras, jaçanãs são mais bem tratados do que as galinhas, com as vantagens de não irem parar na panela. E os macacos… dos pequenos aos maioires, tem de tudo.

Mas a história mais legal de bichos “da selva” que me contaram, aconteceu com um enfermeiro e um dentista que trabalham para os Tikuna, na comunidade de Filadélfia. Ocasionalmente por lá passam manadas de porco do mato. Quando eles passam é um “Deus nos acuda”. Todos querem cercar os bichos para abatê-los. E para isso correm todos e vale tudo: de cartucheira a terçado, de pau a pedra. E neste dia apareceu um bando em Filadélfia e lá se foram eles, o Fred e o Sandro, no meio da turba, correndo atrás dos pobres porcões. Como eles não queriam correr para muito longe pelo mato desistiram logo, mas eis que para sorte deles deram de cara com um grandão. Gordo, forte… o pernil ideal. E assim lá se foram eles correndo atrás do bicho, felizes com a sorte. Cercaram o bicho e acertaram a primeira porretada. Estranharam que o porco-do-mato não fugiu, não grunhiu e ainda ficou como que choramingando. Quando eles iam voltar a nova carga surge uma senhora gritando: “Para, para! Este é meu!!”. Era o porco de estimação da velhinha, criado na mamadeira desde novo…

Mas tudo aqui acaba envolvendo meus pacientes, então algumas pérolas novas. Hoje atendi uma menina que estava com escabiose, ou, popularmente sarna. Perguntei a mãe o que havia acontecido e ela me respondeu que era porque tinha passado pelo “orvalho do arco-íris”. Fiquei intrigado e perguntei se já havia passado algum remédio e então escutei que ela havia usado uma pilinha roxa (provavelmente permanganato de potássio), cascas de árvore travosa e pedra úmida. Taí porque ela não melhorou…

Por falar em não melhorar, as feridas aqui pioram com “comida remosa”. É como a comida gordurosa ou rançosa aí no Sul. Os pacientes sempre falaram nisso, fosse no Rio, SP ou aqui. Bem, mas vejam a novidade. Eu sempre disse que o hospital tem alto índice de infecção hospitalar, lembram? Pois é… hoje uma paciente veio falando: “Pôxa Dr., eu acho que o Dr. Fulano (o cirurgião) tem a mão remosa!”. Agora entendi a causa de tanta infecção nestes pacientes.

E os nomes continuam criativos. Eu havia dado uma trégua, mas já voltei com algumas novidades: Seychelles (exatamente como o país), Amazônia (esta além do pai patriota é bairrista), Yelro (inventado pela mãe), Wick Ryâm (personagem de filme), Stef Graf (e viva a tenista), Êmina Kiss (nome de amiga da mãe), Hiecksarah (que é indígena americano). Pois é, como vocês notam, com nome aqui ninguém se aperta mesmo. Outro dia atendi uma criança que o teste do pezinho constava: “Nome da mãe: Afonso Pinto Ribeiro”. Como o pai que foi levar a criança para o exame, o responsável não se apertou… Deve ter pensado.. nome por aqui vale tudo!

E vale a criatividade… Assim temos a Nossa Senhora da Amazonia. Já ouviram falar? Com certeza não, pois é criação do Frei responsável pela paróquia que era antes dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Segundo ele, a mãe do Cristo tem que ter as feições regionais como já foi adotada em tantos lugares. Assim ele “trocou” a santa e lhe deu feições ticunas. Passou assim a ser a primeira Nossa Senhora indígena do Brasil, com igreja e tudo.

Personagens Amazônicos

Seu Manoel é o homem das redes. Final de tarde, sentado na porta da câmara municipal, este senhor de mais de sessenta anos, pacientemente prepara uma tarrafa. Pergunto para que é aquela rede e Seu Manoel me responde que é para pegar peixe pequeno para levar para o açude. “A malha não é tão pequena, e sei que os menores, ainda filhotes vão conseguir passar bem pela trama”. Pergunto então se ele possui um açude e ele responde: “Eu não tenho não, mas faço a rede para quem tem.” Pergunto o preço e o tempo. A rede, artesanal é feita em cerca de sete ou oito dias e custa 70,00. “Dá muito trabalho, mas ninguém paga mais do que isso não”… E lá se vão as mãos ágeis de Seu Manoel trançando as malhas da vida.

Encerro lembrando uma curiosidade amazônica. Aqui, machucar a banana não é levar uma bolada “lá” e nem mesmo precisar aplicar band-aid na fruta. Machucar alguma coisa é amassar até virar pó ou farinha. Exatamente como fazem com a banana para preparar o tacate ou o mingau de banana. E exatamente como tenho que explicar que precisam amassar um comprimido… Se explico amassar não entendem. Tem é que “machucar o comprimido” para dar para as crianças.

E as fotos de hoje?

Meu amigo Jacaré diante de uma folha de palheira. Pequenina, não?

Seu Manoel tecendo a rede na porta da Câmara dos Vereadores.

Jibóia na internet e macaquinho de estimação.

Beijos em todas e abraços em todos,

Altamiro

ps – de última hora incluí esta borboleta fashion, purpurinada e lindíssima. Nunca vi nada igual… Arna, tenho ela em tamanho “posterável”… podemos ter um poster… borboletas da amazônia.

Nico e o mico

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2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Nem os bichos de estimação são normais, quero dizer, normais pra mim, né…
    Os nomes são sempre interessantíssimos! Adoro ler essas histórias de nomes… haja criatividade desse povo!
    Bjs

  2. Elis disse:

    Curioso..os bichos de estimação….as vezes, parece que vc vive num mundo paralelo…são tantas diferenças.!!!!
    Concordo… a borboleta é lindíssima…Deus é muito criativo!!! Veja bem…ele criou vc…que figura impar!!!

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