Impressões Amazônicas 14

Impressões Amazônicas 14

15 de agosto de 2008

Cheguei agora da praia. Como é de meu hábito, fui cedinho, às 8h30min e voltei antes do meio-dia. Saímos quando a praia começava a ficar cheia apesar da neblina que reinava desde o amanhecer. A Praia do Pacu é a mais popular da região, pela proximidade. São vinte minutos de pec-pec (rabeta), o barquinho lento e que cobra 3,00.

No caminho tive a alegria de, finalmente, ter visto um boto. Era tucuxi, ainda nada do cor-de-rosa que todo mundo vê, e eu fico a ver navios. A praia é grande, e tem uma areia bem branca. Apesar disso, a maior parte da areia está sobre lama, lodo, barro, argila. Tem de todo tipo de solo. O mais legal é que normalmente a parte de cima está bem seca, rachada, e a parte de baixo ainda está molhada então você anda e é como se estivesse andando em uma cobertura de bolo. Você afunda mas não chega no fundo e não suja o pé. Deve ser assim que se anda nas nuvens, mas não é como andar na neve. É estranho… mas bem divertido. Como o céu não estava legal, não consegui fotografar muito, mas tinha muitas borboletas, pássaros, gaivotas e um gavião. Valeu a viagem, e de repente semana que vem eu volto, mas mais equipado, pelo menos de tênis e com rancho. Rancho? É a forma local de dizer lanche, merenda ou rango.

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Falando em comida, esta semana eu comi bodó. Bodó é um tipo de cascudo com cheiro forte mas muito saboroso. É um dos peixes mais consumidos aqui, pois é muito barato e o pessoal adora. Usa assado como aparece na foto ou então em caldeirada. Todo mundo falava e eu nunca tinha comido, mas valeu a pena. Da próxima vez quero provar a forma que o pessoal mais gosta: caldeirada de bodó. Aliás, como já falei antes, os peixes aqui são sempre gostosos. Não tem aquele gosto de terra que o peixe fica aí pelo Sul. Tambaqui, matrinxã, pirarucu, pacu… são vários e gostosos de todo jeito: frito, no caldo ou assado, que é meu favorito. Um tambaqui recheado com farofa e cebola é simplesmente fantástico.

Outra coisa que provei recentemente foi o vinho de patuá. Vinho é como se chama os sucos de coquinhos, como o do açaí. Se o açaí já chegou por aí, com aquele gosto forte e “arenoso” os outros ainda são pouco conhecidos. O de buriti é delicioso. Cor de amarelo mostarda, eu acho mais saboroso e ótimo também nos sorvetes e curites (ou dim-dims). Além disso tem o de patuá. Parece de açaí, mas é bem mais gostoso. A coloração é como se fosse um açaí desbotado, mas não tem aquela areia e nem o gosto forte. Já é o meu favorito!!!

Aqui me dei muito bem com a alimentação, embora sinta muita falta de saladas, como já havia dito. O mais complicado é a farinha. Pior do que no Maranhão ou no Ceará. A farinha é dura de comer… e pros dentes… risos… mas eu tenho aprendido um pouco a comê-la. O pessoal come “de colher”, é impressionante. Se fizesse isso, eu que não tenho problemas, acho que ficaria mais de uma semana sem chegar perto do banheiro.

Esta semana nós fizemos uma ação de saúde no Assentamento Crajari. Como estão vendo, aqui tem de tudo… índio, peruano, traficante, fronteira, ribeirinho e… sem terra. Na verdade já tem terra porque são assentados. Eles vem das áreas que foram demarcadas como terra indígena e tiveram que ser desocupadas. Vivem em uma grande pobreza porque a estrada fica intransitável a maior parte do ano. Assim, plantam melancia, macaxeira e banana mas não tem como escoar a produção. É uma pobreza só. Aliás, é mais do que pobreza. Fomos muito bem recebidos e vamos tentar sinceramente aparecer ao menos de 3 – 3 meses. Tem que dar certo. Continuando assim voltaremos em outubro. Nesta visita fizemos de tudo: atendimento odontológico, pediátrico, ginecológico, clínico, peso e altura de todas crianças, vacinação, palestras do conselho tutelar. Foi bem interessante.

O ponto triste foi conhecer a escola “inaugurada” há dois anos pelo INCRA com placa e tudo, computadores, salas modernas e linda… mas abandonada, e os alunos estudando em uma casa de pau-a-pique. Tudo por confusões políticas. Agora a escola foi cedida para a prefeitura e a promessa é de que irá estar logo viva com as crianças dentro. Tomara, porque é como ver todo dia um doce bonito e nunca poder prová-lo. Uma verdadeira crueldade.

Mas a semana foi realmente agitada. As oportunidades únicas não podem ser desperdiçadas, e aqui há várias oportunidades únicas. Uma dela aconteceu domingo a noite. O Raízes Caboclas veio se apresentar em Benjamin, de graça. Tudo bem, sei que você nunca ouviu falar em Raízes Caboclas, mas…muita gente no Brasil ainda não conhece Almir Satter, Banda de Pau e Corda, Titane e tantos outros grupos e cantores de primeira grandeza que felizmente não fazem o gênero Domingão do Faustão. A banda é formada por 7 pessoas, e ainda veio acompanhada de um flautista e saxofonista da Filarmônica de Manaus. Eles são bons, muito bons, e hoje se apresentam tanto no exterior como aqui no Brasil, sendo todos nascidos na cidade. Talvez por serem da cidade, o ginásio não estivesse lotado como mereceria, mas quem foi aproveitou. Bom som, instrumentos de primeira: viola, rebeca, tambores, silvos, percussão maravilhosa… uma banda daquelas de lotar credicard hall em qualquer época do ano!! Eu vi e vivi!! Em compensação, como BC também faz parte do Brasil, semana passada fui fotografar o Concurso Miss Benjaminense e… estava lotadésimo. O público participava ativamente, tanto que eu fui convidado para ser jurado e declinei na hora!! Foi tudo organizado por um Benjaminense que fez fama em Manaus e é cabelereiro das Misses. Andress veio e trouxe todos os vestidos e acessórios das misses, sendo responsável pelo sucesso do evento… Ai, ai Brasil que ainda não descobriu que o belo é lindo, mas há coisas muito melhores. E viva o Raízes Caboclas!! (curioso? http://www.raizescaboclas.com.br/ . Eu comprei a Missa Cabocla e já estou furando o meu CD.

Personagens Amazônicos

Na volta do Crajari demos uma parada na Dona Maroca. A parteira mais antiga da cidade, Dona Maroca tem uma memória de elefante. Contou do tempo que era criança e morava na cidade, de como aprendeu a ser parteira com sua mãe, que aprendeu com a avó, lá no Ceará. A família dela está aqui há mais de um século. O marido, também cearense, chegou depois como “soldado da borracha”. Mais um dos nordestinos que vieram para tirar borracha para alimentar a fábrica de guerra americana, ávida por borracha para seus pneus. Disse que o último parto que fez foi da neta, no começo do ano, mas que acha que logo, logo ninguém mais vai fazer parto fora do hospital e não tem nem para quem ensinar. E ela sabe muito, pois foi ela que “virou” o bebê da Flávia, a ginecologista, que estava sentado. De boa vontade e amante de uma boa prosa, logo arranjou um cafezinho para todo mundo e pediu desculpas por não ter mais o que oferecer. Com mais de setenta anos sua jovialidade impressional. E quando perguntei o motivo da mancha roxa no rosto tratou de responder. “É que teve uma festa aqui perto, e eu bebi um pouquinho… aí tropiquei e caí.”

Fotos do dia:

Bodó assado – vai um pedaço?

Escolinhas do Crajari – A nova, sem uso há dois anos e a velha. Dá para comparar?

Dr Tamiro em ação.

Crianças do Assentamento Crajari

Dona MarocaDona Maroca

Beijos para todos,

Altamiro

Bodó

2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Parteira, mesmo, de verdade???? Achei que isso só existia em filmes e novelas….
    Espero que hj, 14 de Outubro de 2008 a escola já esteja funcionando…
    Bjs

  2. Elis disse:

    Cada vez mais gosto de peixe e quando for para a Amazônia em agosto pretendo comer…quem sabe um Bodó….uhmmm!!! Também fiquei curiosa com o sabor do açaí e seus “primos da Amazônia”…rsrsrsr. Ver vc trabalhando ai….. tão diferente e distante da realidade dos consultórios de Niterói……médico tem que ser humano e se importar..é vocação…não é profissão somente..Deus continue de abençoando!!!!

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