Impressões Amazônicas 15

1º de setembro de 2005

Parece incrível imaginar que no Amazonas, à beira do Solimões, o pessoal passa sede, não? Pois é. A fartura dos céus é tamanha, desce tanta água, que a maioria das pessoas simplesmente não se preocupa em ter canalização de água para sua casa. Assim, a água é toda recolhida da chuva, como já disse antes, e na época da seca, no “inverno” deles, quando continua muito quente, mas não chove, o pessoal sofre. E há quase três meses o “inverno” não acabava. Para a maioria dos benjaminenses tanto tempo sem chover lembram recordações do tempo de criança ou, mais longe, de histórias do avô. Hoje voltou a chover, para alegria de todos. E choveu bem, como há muito tempo eu não via. Daria para encher a minha big coke em cinco minutos, como quando cheguei. A cidade se pintou do cinza mais alegre que já havia visto. As cores estavam nas ruas, pois as crianças brincavam felizes, tomando banho nas calhas d’água como talvez não fizessem nem mesmo em suas casas há muito tempo. A alegria era tanta que todos pareciam felizes: animais, crianças, adultos. As plantas agradeceram e eu também pelas fotos que consegui tirar de duas meninas que brincavam em uma grande goteira, indiferentes à minha máquina fotográfica.

Eu agora acabei de voltar mais uma vez da Praia do Pacu. Descobri uma trilha pelo meio da mata e entrei. Foi legal e pela primeira vez vi um macaco por aqui. Um macacão, não tipo aranha, mas também era preto e com rabo grande, só que mais “encorpado”. Vi também vários botos. Enquanto tentava fotografar um urubu de cabeça vermelha um boto ficava respirando e atrapalhando a foto, pois não sabia para onde mirava a câmara. Bem, mais fácil fotografar o urubu em um galho do que um boto subindo e descendo. Fora isto, alguns martins-pescadores, gaivotas, maçariquinhos e várias aves, muuuuuitas borboletas e aranhas. Minha coleção de fotos de borboletas já está lotando um CD.

Como o rio continua descendo a praia aumentou, surgiu mais areia e aquela sensação de “andar nas nuvens” acabou. A praia é até bonita, mas nada mais é do que uma faixa de areia, sem uma mísera sombrinha. O maior perigo são as arraias, mas dizem que elas só aparecem quando o rio está enchendo.

Ah! Já me perguntaram e não respondi. Não tem ondas não… é bem mansinho. O incrível mesmo é imaginar que 3 meses antes estaríamos há mais de 3 metros abaixo da água. O próprio rio Javarizinho, afluente do Javari que desemboca no Solimões está praticamente só um riachinho. Quando cheguei teria que mergulhar para chegar no Peru. Agora se alguém escorregar já cai sentado no Peru.

Um perigo, especialmente se pensarmos que hoje a noite vai ter o Miss Benjamin Gay 2005. Chique isto, não? Vai ser o agito do Beer Dance, a maior boite da cidade. Além dela tem o Star Night, com som melhor segundo os entendidos, mas mais “povão”, pois o Beer tem fama de reduto de “mauricinhos” e “patricinhas”. Ah! Na maré alta tem também o Suave Veneno, mas com a maré baixa ela estava em Islândia da última vez que a vi e me falaram que agora está em Atalaia do Norte. Como? Bem, é uma boite flutuante, então pode ser “navegada” de um lado para o outro. E para completar também tem uma “casa noturna” sem nome, mas gentilmente chamada de “kananga”. Dizem que é lá que o “bicho pega”, mas nem passei perto…

Falando em som, embora o tradicional seja Kalypso e música colombiana, também se escuta o bom e velho Rock´n Roll. Acho que já comentei do som do Formiga Loura, não? Eles fazem cover do Legião e organizam o Festival Renato Russo, celebrado no aniversário da sua morte. Esta semana quem está na vez é Raul. Tenho ouvido vários ensaios nas ruas e o cinema (sim, depois que eu cheguei abriram um cinema aqui – vejam na foto) está preparando uma seção especial para o Maluco Beleza. Estamos na Sociedade Alternativa!!! :>>)

A proximidade com o Peru também traz algumas curiosidades de vocabulário por aqui, pois há algumas palavras do espanhol muito utilizadas por aqui. Um exemplo é que ninguém toma comprimido, e sim pastilha como los hermanos. E também não se chupa bala, se chupa bombom.

Mais um pouquinho de medicina das selvas. Alguém emitindo gases, é alguém que está “ventando”. E o vento também pode ser perigoso, pois “doença do vento” é meningite. Será algo ligado a espíritos antigos??? Outra coisa interessante é viçar. Hoje atendi duas crianças que tem viço. Uma viçada em pasta de dente e outra viçada em sal… Um “verbo médico” popular aqui é o “espocar”. Tudo espoca. O ouvido que vaza está “espocado”, as feridas na pele “espocaram” e da espinha do rosto “espoca” pus!! Estou realmente aperfeiçoando o dicionário médico amazônico!

Mas para me manter na onda, eu por conta de uma dor no peito, hoje fui em uma “rezadeira”. Ela empurrou minha traumatizada costela, passou um óleo bento, fez mandinga com sinal da cruz e… melhorei. Não por muito tempo, mas que na hora aliviou, ah, isto aliviou. Duro foi só aguentar a senhora empurrando meu osso super-dolorido… Nóis sofre mas nóis gosta!!!

Por fim conto que estamos trabalhando bastante, procurando melhorar a nossa assistência a saúde infantil. Esta semana vamos ter a capacitação regional em vigilância alimentar e nutricional, do Alto Solimões, que estou coordenando. Acho que vai ser bem legal, e vem gente de vários municípios vizinhos. O engraçado é que os municípios vizinhos aqui não mandam seus representantes de carro ou ônibus… mas de barco, alguns em mais de 12 horas de barco… Vizinhança distante.

Beijos e Abraços,

Altamiro

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2 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Viço? Viçada? Naum entendi…
    O que o Sr. fez nas costelas?
    Afff, 12 horas de barco?!
    Bjs

  2. Elis disse:

    O vocabulário é muito divertido….A noitada parece prometer…rsrsrsr….Sinistro sem água…aqui não rola a seca mas confesso que sempre que posso tomo um banho de chuva …adoro…e agora que moro em casa aproveito. Você deve ter fotos incríveis dos animais…paisagens…tem tudo em back up?…isso é uma preciosidade!!!!!

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