Impressões Amazônicas 16 – Impressões de Iquitos

20 setembro 2005

Dia 5 de setembro é o Dia do Amazonas. Com um feriadão de 5 dias não há como ficar parado aqui. Já consigo sossegar nos finais de semana, mas quando não quiser fazer nada nos feriados… por favor me internem.
Vou de hidroavião a Iquitos. O vôo é da força aérea, mas é comercial. Enquanto espero tomo Inca Kola em Santa Rosa. O quiosque tem um gavião que me lembra a águia do texto da internet. Criado como pinto, sabe voar, não tem as asas cortadas mas não foge: pensa que é pinto. Costumo dizer que este é o pensamento daqui. Não enxergam além do Solimões. Manaus pode ser, para alguns mais ousados, uma meta. Rio de Janeiro um sonho, quase irreal. Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte? Onde fica isto? E esta terra que é tão Brasil, ignora o Brasil por sua pequenês. E para cá vem Brasileiros de todas as partes. Todos tem algo em comum, sejam os de saúde, engenharia, religiosos, militares, aventureiros… o de fazer daqui um Brasil tão Brasil quanto o do Sul. Muitos desistem, outros insistem, alguns resistem. E é esta mistura que dá a vida aqui: cariocas, mineiros, gaúchos, paulistas, paranaenses, pernambucanos, cearenses… todos convivem aqui colorindo esta terra verde.

Sai de casa às 7h. Tinha que comprar soles, pegar minha passagem e ir de Tabatinga a Santa Rosa, onde o avião sairia entre dez e onze horas. Meio dia se atrasasse. Bem, tenho que aprender… Estou no Peru, e se o Amazonas é enrolado nem sei definir como é este país. Agora são 12h05min e só agora chegou o avião. Acabo de perguntar se ele fica muito tempo em solo, digo, em “água”, e escuto: “depende. Se a tripulação for fazer compras em Letícia ou Tabatinga demora um pouco mais”. E lá se foi meu primeiro dia de viagem embora.
Até nem foi embora e 13h10min, após o almoço da tripulação, inspeção da aduana (feita no restaurante mesmo) e de recebermos nossos coletes salva-vidas, iniciamos o vôo. Posso dizer que não foi o melhor vôo de minha vida. O problema foi tudo estar completamente branco, o frio que vinha das janelas e o aperto. O bom foi não ter os cintos de segurança que não servem para nada, ver a cabine de comando o tempo todo e ter conseguido dar uma cochilada. Viajamos com a bagagem debaixo dos bancos e bem apertados, mas … tudo vale a pena, pois minha alma não é pequena.

Iquitos com cerca de 500.000 pessoas é a maior cidade no mundo de onde não se vai a lugar algum. Aqui só se chega de aviâo ou barco e não há nenhuma estrada. Graças a isto são poucos carros, entretanto… como há motocarros! Por todo o lado, todo o tempo. É impressionante. Os motocarros são como os riquixás asiáticos. Além dos motocarros há ônibus muito velhos, que no Brasil seriam reprovados até como sucata, vans, pick-ups e raros carros velhos japoneses. Nada de wolks, gm ou ford.

Povo simpático, sorvete delicioso e muito agito no centro, assim é Iquitos. Gostei de andar no centro, e vi muitas apresentações na Plaza de Armas e no Malecon, calçada com vista pro rio que lembra MUITO, o banhado em São José dos Campos. Deu até saudade. As apresentações são de tudo… estátuas vivas, macacos, palhaços, dançarinos, capoeiristas cantando em portuñol legítimo (“el berimbau é meu, el berimbau é meu, el berimbau é meu fue minha mae que me dio”). Gringos para lá e para cá, prostitutas, famílias, vendedores ambulantes, hippies. É colorido e divertido. O que achei mais curioso foi um pequeno carrossel, onde os carros rodavam no braço do responsável, que ficava correndo em círculos… Na plaza de armas, além da igreja matriz (muito bonita) ainda havia uma casa de ferro que, segundo consta a lenda, foi encomendada por um barão da borracha do engenheiro Gustave Eiffel, o mesmo da famosa torre. É bem legal também, e está aí na foto, junto dos motocarros.

A cidade me parece bem viva e sentia falta disso. Disso, de ver mulheres bonitas, de ir ao cinema (com legendas em espanhol – depois encarei no dia seguinte um filme peruano!!!!) e de comer salada. Diferente das que comemos, esta tinha alface, pepino, tomate, abacate (palta) e palmito (chonta). Só vendo as fotos, pois o palmito é cortado em tiras, bem fino e fica exatamente igual a um talharim. Delicioso.

Fui conhecer Quistococha, um zoológico a beira de um lago que vira balneário nos finais de semana. Resolvi ir de van… e por sorte entrei no ponto de embarque inicial. Como tinha ar condicionado, achava maravilhoso, até que contando as pessoas haviam 20 adultos e 12 crianças. Os últimos a entrar, já no meio do caminho, foram um casal com um bebê. O “arrumador” (que outro nome poderia dar para o cobrador da van??) despachou o pai para o fim, pegou a criança da mãe, deu para outra mulher que estava sentada com um filho já maiorzinho e colocou a mãe em pé ao lado da porta. Cheguei a pensar em dar o meu lugar, mas como uma sardinha pode mover do seu lugar dentro da lata…? Fiquei somente assistindo o que para todos era algo perfeitamente normal. E as crianças, como na Bolívia, não soltaram um único pio em toda viagem… Ah se fosse no Brasil…

O parque em si era bem legal. Muitos otorongos (onças), jibóias, macacos, jacarés, pirarucus (paiches), jacutingas (pucacunga), jaçanãs (trompetero) e muitas árvores como abacates e jambos (pomorosa). Na praia do lago algo inusitado. Haviam muitas mulheres de biquini, mas nenhuma tirava sua roupa… tomavam banho com roupa por cima do biquini… coisas de peruano.

A noite fui comer comida chaufa. Sabem o que é isso? Comida chinesa. Achei caro e pouco servido, tudo com forte gosto agridoce. São muitos os restaurantes chaufas em Iquitos e é grande a influência japonesa no peru. Dentre os destaques o ceviche, que é o peixe cru curtido em limão e o arroz chaufa, que é um arroz marrom por ser feito com shoyu.Outra coisa muito tradicional em Iquitos é o aguaje, no Brasil buriti. Há suco (aguajina) em toda esquina, há curiche (sacolé, chupchup), há sorvete e há a fruta inteira, que a gente come como um esquilo, tirando a casca. O melhor é o sorvete, aliás, só de escrever me lembro dos sorvetes de Iquitos… duas bolas enormes a 2 soles… (1,70)… a boca já até saliva.

No meu segundo dia de Iquitos fui conhecer as comunidades indígenas “pra turista”. Fui com um motorista de motocarro, que havia conhecido guiando dois alemães em Quistococha e que havia sido recomendado. Em primeiro lugar fomos a agência de turismo onde fui comprar meu bilhete de volta para o Brasil. Lá, sobre um grande mapa ele começou a dizer… “conheço Brasília, conheço Manaus, conheço Belém, conheço Fortaleza, conheço São Paulo, conheço Campo Grande, conheço o Rio…” Logo concluí que ele tinha sido hippie ou era um grande mentiroso. Como não tinha cara de hippie e estava mais para aprendiz de rambo, nem liguei muito. Depois, quando conversamos mais ele me contou… “vou lhe falar a verdade. Do Brasil só conheço bem o Rio, onde fiquei quatro dias”. E perguntei… “e os outros lugares”. Ele me respondeu “só ficava um dia”. E eu perguntei… “porque tão rápido?” e ele respondeu…. “fui a trabalho”… e silêncio. Não perguntei mais, mas quando voltamos ao assunto das viagens ele me contou. “Eu conheci o Brasil porque era “guarda-espalda” (guarda-costas) de um chefão colombiano. Assim chegávamos, fechávamos os “negócios” e já viajávamos de novo. Conheço o Brasil, a Argentina, Bolívia, Chile…”. Bem, não precisa dizer que não perguntei mais nada e comecei até a ficar preocupado. O alívio só veio quando ele disse. “Larguei isso porque resolvi que queria uma família, e não queria levar um tiro”. Com esta segurança toda, fomos nós passear em Belém.

Belém é uma mistura de Rua da Alfândega, no Centro do Rio, com mercadão municipal e com camelódromo. É sensacional. Em ruas estreitas demarcadas somente pelas barraquinhas se amontoam vendedores de tudo. E tudo eu encontrei por lá: brinquedos chineses, utilidades para o lar e para tudo, garrafadas, peixes de todos os tamanhos e formas, peixes para aquários, periquitos, tartarugas retalhadas em pedaços, tartarugas vivas de cabeça para baixo esperando a morte ou o comprador, o que chegar primeiro, tartarugas embaladas em alças como uma bolsa, pronta para a viagem, galos de briga, pintos, camisetas, sapatos, bananas, mangas, ingás, aguajes, sucos de pêssego, aguajina, chicha morada, coco, pimentas de cheiro, pimentas de gosto, pimentas de cores, de todas as cores. Havia uma ala inteira com roupas e sapatos reformados, mas usados. E tudo isso em meio a um vai-pra-lá, vem-pra-cá de cheiros, empurrões, crianças correndo por baixo de nossa cintura, cachorros andando na contra-mão em busca de um resto qualquer, pessoas comendo naquele caos, crianças brincando, vendedores anunciando. Uma linda loucura.

Belém é o bairro pobre, conhecido como “cidade flutuante”. Isto porque todas as casas se situam em duas zonas. Zona alta, onde todas as casas tem dois andares e zona baixa, onde todas as casas são flutuantes. Na seca, como estávamos, havia uma boa distinção entre estes dois mundos, o da pobreza e o da pobreza absoluta. Na cheia os flutuantes sobem e as águas cobrem os primeiros andares das casas, lojas, templos, igrejas, e então todos se irmanam no mesmo nível. No nível da água.

Sim, porque o rio é vida lá como é em toda Amazônia. Navegando no rio pelo pequeno trecho do Rio Itaya com meu guia e um barqueiro encontrei as onipresentes mulheres lavando roupas, barcos carregados com bananas, crianças brincando na água e na lama, banheiros feitos somente por um cubículo de plástico diretamente no rio e até mesmo uma pocilga de porcos landrazes… aqueles grandes e rosas, que depois encontram seu destino diretamente acima, fatiados no mercado de Belém.

De lá fomos visitar os índios. Fui em duas tribos. Nos yaguas, atirei zarabatana e assisti algumas danças. Eles usam roupas de palha e foi até interessante a visita. Vergonha fui eu atirando zarabatana. Tão mal que as índias velhas davam risadas… “shame on me”… 🙂 Depois fui nos Bora. Gostei muito. Fui recebido pelo curaca (cacique) que me explicou logo: a comunidade fica há duas horas de caminhada de onde estávamos (beira do rio Nanay). Ali moravam 4 famílias em sistema de rodízio mensal, de forma a todos poderem vender seus artesanatos aos turistas e mostrar suas danças, usadas nos cerimonias. Explicaram que se eu quisesse assistir e fotografar seria muito bem vindo, não precisava ter pressa e iria inclusive dançar com eles, pela quantia de 30,00 soles (cerca de 25,00). Só estava eu lá… e então resolvi pagar para ver. O curaca então chamou o pessoal e surgiram alguns índios. Na verdade uma meia-duzia, mas bastante sonoros, e foi bem divertido. Uma das índias, que ficavam de peito de fora todo o tempo, estava amamentando uma menininha de uns dois anos. Ela dançava amamentando, era muito engraçado. Os meninos pequenos também queriam dançar, mas ainda não sabiam e então se atrapalhavam e davam risadas. Ainda havia uma adolescente, bem com vergonha – afinal, no dia-a-dia eles usam roupas normais – que passava o tempo todo com seus longos cabelos negros sobre os seios… Foi uma experiência “profissional” mas bem divertida, que rendeu fotos como a que estou enviando.

Esta ficou longa, mas foi um passeio bem legal que não tinha como encolher. De constatação, somente que meu espanhol está melhorando, viu Raúl!! E que tenho que estudar futebol antes de viajar para o exterior… é só sobre isso que todos querem falar!!!

Hasta la vista hermanos!

Altamiro

fotos:
1 – eu com os boras

2 – Gavião que achava que era galinha em Santa Rosa, já no Peru.

3 – ensalata de chonta – saladinha básica de talharim de palmito. DE-LI-CI-O-SO!! Ou melhor: muy rico!

4 – Meu avião estacionando. Atenção ao detalhe do orientador do estacionamento.

5 – motocarros de frente a casa de ferro

6 – Meninos brincando na lama em Belém.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Pra começar, vc tem muita coragem mesmo de viajar nesse avião, né…
    ADORO palmito, ia adorar esse aí, tá com uma cara muito boa mesmo!

  2. Elis disse:

    Vc tá uma figura vestido pra dança…rsrsrs
    A comida parece deliciosa…parece que tem mais cor…
    As fotos ficaram ótimas….são muy ricas…!!!!

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