Impressões Amazônicas 17 (com direito a terremoto)

12 de outubro de 2005

Só falta o maremoto! Gente, aqui tem de tudo mesmo… tempestade, enchente, seca… e tudo isto eu já esperava, mas… terremoto? Eu estava com o computador no colo quando de repente a tela começou a tremer. Logo pensei… fasciculação na perna. Afastei o computador e continuava. Aí percebi que a parede também tremia… Dei risada e imaginei que o vizinho estivesse muito empolgado, abalando estruturas… Até que percebi que o varal que tenho no quarto e um pôster da Colômbia estavam balançando também… Até pensei… “é um terremoto”. Mas a idéia parecia tão inverossímil que não acreditei nela… até ouvir todo mundo comentando no dia seguinte e de saber da desgraça no Peru… Tem coisas que só acontecem no Amazonas… e o primeiro terremoto a gente nunca esquece!!!

Esta foi a semana em que tive a maior imersão na culura Ticuna, desde que vim para o Amazonas. Foi interessante, pois não foi algo como o que vivi em Iquitos, onde tudo era “pra turista ver”, e sim o contato direto com um povo que se orgulha de ser a maior nação indígena do Brasil.

Para terem uma idéia de como os Ticuna são representativos no município, na quinta-feira aconteceu a primeira sessão itinerante da Câmara dos Vereadores, em Filadélfia, a aldeia de onde enviei algumas fotos um tempo atrás. Dos nove representantes municipais, três são indígenas, originários de diferentes comunidades. Além dos vereadores, o prefeito estava lá para a sessão, que ocorreu no centro de reuniões que estava lotado. Tinha gente saindo pelas portas e janelas, pois este foi o maior acontecimento do ano depois da visita do Ministro Ciro Gomes e de sua esposa Patricia Pilar. A sessão, entre outras coisas, prestou homenagens à indígenas de expressão municipal, como Seu Bastos, o fundador da comunidade; o pastor da Igreja Ebenezer, que deu origem a Escola Ebenezer, modelo de educação indígena para todo o Brasil; o Cacique Hamilton e o chefe do Conselho Geral da Tribo Ticuna, Nino Fernandes, que em novembro estará em Brasília, sendo homenageado em um festival cultural pelo Ministro Gil. Gente importante este pessoal…

Através dos discursos de todos se pôde ter uma idéia do Brasil. O português era roto, difícil de ser entendido, misturado com palavras Ticuna e com discursos inteiros nesta língua que para mim tem a sonoridade próxima ao japonês, mas que foneticamente com certeza é bem diferente. Mesmo a Diretora da escola tem um português difícil de ser compreendido. O hábito mais comum é o uso de substantivos no plural, com um som meio de “z”, como na frase ouvida várias vezes: “É um prazer ter nosso prefeitoz aqui conosco, o presidentez da câmaraz e todoz nossoz irmãoz ticuna”. A sessão entrou noite adentro, e como saco vazio não para de pé… “panis et circens”… lá se foi pão para o pessoal. Pão com “êpa” só para dar o gostinho de mastigar algo, e para satisfazer a barriga, regada a água e refrigerante para “encher” bem.

Além das homenagens, eles mostraram que não querem só apito, e tome cobrança: saneamento, saúde, contratação de profissionais Ticuna, asfalto, feira coberta, reforma no porto. Para terminar muito forró e calipso enquanto esperávamos para que o centro fosse arrumado e a “Câmara Itinerante” fosse desmontada.

Com esta experiência na cabeça, lá fui eu para uma ação da saúde e do conselho tutelar em Feijoal, a maior comunidade Ticuna de Benjamin e também a maior comunidade do nosso “beiradão”, como é conhecido a região da margem do Rio Solimões, zona rural do município. Saímos cedo no domingo. Não tão cedo como gostaríamos porque ficamos esperando um dos vereadores Ticuna que nos acompanharia. Uma hora depois… nada e fomos embora. Isso porque ele havia confirmado conosco várias vezes. Seguimos alguns minutos até a comunidade de Santo Antonio, onde pegamos o Atos, Conselheiro Tutelar e pastor, que também é Ticuna. De lá seguimos direto para Feijoal, passando por uma série de comunidades: Guanabara, Belo Horizonte, Mato Grosso e… Niterói. Quem diria que no Alto Solimões existe uma comunidade com o nome do paraíso!!!! Vejam a foto!

Dez horas estávamos em Feijoal, onde tudo havia sido combinado com o Cacique para apresentarmos o Conselho Tutelar aos líderes da comunidade. Só que ninguém achava o cacique e nem mesmo as autoridades. Atos de cara encontrou com o tio, vice-cacique, que também não sabia de nada. Bem, somente às 13 horas, após muitos anúncios pelas bocas-de-ferro (o sistema de microfonia local) começou a reunião. Ao menos deu quórum, pois estavam quase noventa pessoas no Centro de Reuniões. Falamos em Ticuna, que eles também referem como “falar a gíria” e em português, com tradução simultânea pelo Atos, e foi interessante como eles prestaram atenção. Depois o condutor da reunião fez a apresentação de cada um de nós, com aplausos individuais e muitos agradecimentos. Algo ao mesmo tempo informal, mas formal.

Feijoal é uma comunidade que tem quase 3 mil pessoas, com vários orelhões, posto de saúde, posto da Funai, escola grande, quadra e muitas igrejas. As igrejas são todas evangélicas, com maior força para a Assembléia de Deus. Quando cheguei era horário de culto, e mesmo com o sol estavam todos os homens de mangas cumpridas, derretendo no sol quente.

Os cultos são realizados em Ticuna. As músicas são legais, com uma boa sonoridade e espalhadas pelo vento por poderosos alto-falantes. Até era legalzinho, parecia rock japonês. Aqui tinha uma igreja católica. Acontece que os católicos podem ter festas… os evangélicos não. Resultado… para não ter briga a igreja católica mudou para outra comunidade, em que se chega após cerca de vinte minutos de caminhada, chamada Cidade Nova. Embora seja proibida a venda de bebida alcólica em qualquer território indígena, esta prática costuma ser comum, mas não existe em Feijoal. Resultado… no final de tarde os “alma tortas” ou “desviados” se dirigem a Cidade Nova e depois voltam felizes e alegres.

Diferente dos muitos amuletos que as crianças usam em Benjamin (botões, alhos, chaves), as daqui, quase todos, usam cruzes presas em fios de nylon. Os bebês de menos de um ano que eu atendi quase todos estavam pretos. Aliás, eles, as mães e os irmãos pequenos, todos pintados de jenipapo. Então ficavam verdadeiros bonecos de pixe… pele negra de jenipapo, olhos de jabuticaba tão negros que é difícil perceber as pupilas, concorrendo com os cabelos. Durante as consultas, pouco choro, mas também poucos sorrisos. Eles são bem quietinhos, e riam somente quando usava o meu dicionário ticuna, agora ampliado… senta, abre a boca, abre mais, deita, levanta, doi aqui… De todo mundo que atendi, contando os acompanhantes, acho que vi somente um único par de tênis. Todos os demais descalços ou de sandálias. Outra coisa interessante, é que quando pergunto algo que a resposta é sim, ela vem com um simples levantar de sobrancelhas. Se é um sim convicto, levantam bem. Se é um “meio sim” levantam um pouco… Custei um pouco até pegar isto, mas agora já “domino a técnica”.

As crianças eram bem saudáveis, mas os maiores problemas estão realmente ligados ao saneamento… 63% das crianças apresentava diarréia. Quase 35% apresentava problemas dermatológicos também ligados a dificuldade higiênica. E não é falta de banho, já que eles adoram se banhar e estão sempre com pouca roupa. A dificuldade é ter água de qualidade, mesmo estando na beira do maior rio do mundo. Difícil mundo amazonico que não tem água.

Minha manhã de atendimento foi leve. Mas acho que fez sucesso, pois a tarde tinha criança saindo pelo ladrão… sempre muitas nas janelas, assistindo o atendimento e muitas na porta. Comecei a trabalhar 13h30min, e às 19h30min estava “começando a acabar” de atender a última família. Sim, porque não se atende criança no varejo aqui, mas sempre no atacado, famílias com quatro, cinco, três crianças. Raros foram os atendimentos individuais. Não tinha como ser rápido, pois em 95% dos casos, além de muitas crianças as pessoas não falavam português e eu precisava de uma intérprete. No começo ela ouvia eu falar e então traduzia para a família. No final, já cansada de tantas famílias ela perguntava antes mesmo de eu falar.

O mais engraçado é quando eu perguntava algo como: “há quanto tempo está com dor?”. Ela dizia algo como “conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau” . Então a paciente respondia: “conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau conagu matuu engu ich moenti naca moengeau auticum irito itio mio adum cuagau patau” . E eu perguntava… “o que ela disse?” e ouvia como resposta. “ontem” ou ,às vezes, simplesmente “não”. Já os nomes, que sempre chamaram minha atenção, aqui não eram tão diferentes. Os mais curiosos eram os que tinham como nome sobrenomes ocidentais, talvez trazidos de algum convívio com os militares. Atendi Bastos, Santos e até um Dasilva.

Acabado o atendimento, hora de ir embora. Só que ninguém contou que na terça-feira é feriado em Benjamin Constant, dia de São Francisco, e da maior procissão do Alto Solimões. Ou seja… como a comunidade é crente, não gosta de santo, não foi ninguém de lá… e fiquei “encalhado”… Loucura, loucura, pois já não tinha o que fazer. Meu barco foi prometido para a manhã do dia seguinte, mas mesmo assim resolvi atender um pouco para passar o tempo. Mais crianças com diarréia, uma mulher que o marido ia “jogar fora” devido as dores (um ano mais velha do que eu e 10 filhos, sem uma estria ou celulite… Bendito sangue indígena que preserva este povo), um joelho “enorme” e por aí vai… vai e fui… tarde. O barco só chegou às 16h30min, quando já estava pronto para passar outra noite na comunidade.

Foi um lindo final de tarde, como vocês já vão ver.

Abraços a todos, com uma saudade do tamanho do Solimões,

Altamiro

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