Impressões Amazônicas 18

23 de novembro de 2005

Olá,

Já estou há algum tempo sem viajar, então vou contar um pouco do meu dia a dia amazônico.

Na verdade vou confessar que às vezes desanimo. Muitos pacientes, enfermagem mal treinada (e no hospital “abusada”), dificuldades de exames. Parece ruim, não? Ainda mais que várias cidades oferecem um salário menor. Só que existem compensações.

O programa municipal de saúde infantil foi desenvolvido por mim, e, ainda que aos trancos e barrancos, estamos conseguindo segui-lo. Atendemos de forma diferenciada as crianças especiais, treinamos os agentes de saúde, implantamos o sistema de vigilância nutricional (sisvan) e criamos o Conselho Tutelar. Esta é talvez a minha maior alegria. Desenvolvi o treinamento dos Conselheiros e os cinco são grandes companheiros de luta. O que não consigo fazer “por bem”, estou conseguindo “por mal”. O diretor do hospital já foi notificado duas vezes, a secretaria de educação uma vez e mesmo alguns agentes de saúde. E assim vamos transformando a atenção a criança em nossa cidade.


Um sinal legal do reconhecimento do trabalho foi a festa do Dia da Criança. Fui dar uma olhada e era muito divertido ouvir as crianças … “olha mãe, o meu médico”. Dava boas risadas e ainda tinha tratamento vip, que me deixou até sem graça. Sem entrar nas filas das crianças, eu ganhava picolés, algodão-doce, refrigerantes. A festa foi um grande “panis et circens” com sorteio de brindes, apresentações de grupos da cidade e tudo de graça para as crianças. Até os Ticuna vieram de suas comunidades. Boca livre todo mundo quer.

Os céus nas últimas semanas tem sido bem generosos e muita chuva tem descido. Eu mesmo enchi meus estoques todos de água, o que me permite uma boa economia. No domingo vinha do almoço na casa de amigos, quando a tempestade me pegou. Estava com o computador na mochila e o jeito foi parar, tirar a camisa, enrolar no computador e correr… muito. Cheguei em casa como um pinto molhado, mas com o laptop seco. Já que quem está na chuva é para se molhar, deixei as coisas em casa e fui tomar um banho: de calha, brigando pelo espaço com um monte de meninos. Foi muito divertido. E legal ver nas fotos como sou diferente do povo local: que brancura!


Uma outra coisa comum aqui que já descrevi, mas agora “domino a técnica” é o churrasquinho. Dois reais o frango, calabresa ou vaca e um real o de coração. Sempre acompanhado de arroz, farinha, tacate (para os que não lembram, farinha de banana peruana verde) e, em algumas barraquinhas, de feijão ou macaxeira. Da para notar que é bem seco, não? Eu então, dispenso a farinha, mas como os locais, já aprendi a comer de colher. Muito mais prático. “Pra viagem?” . Não tem problema. A mistura é servida em um saco plástico, coloca-se a carne junto e pronto. E se você tiver estômago forte, ainda mandam o molho apimentado em um saquinho a parte, porque o amazonense legítimo nunca dispensa a farinha e a pimenta.

No mês passado passei duas semanas bem cansativas indo e voltando a Tabatinga para uma Capacitação em Abordagem Sindrômica de DST. Eram dois cursos e o meu trabalho foi bem elogiado, tanto que aumentaram o número de matérias que eu apresentei no segundo curso. Estes cursos foram para os profissionais que atuam na área indígena – o primeiro para técnicos e o segundo para o nível superior. Vieram supervisores da FUNASA de Manaus, que gostaram muito, e há chances de que no ano que vem esteja dando este curso em outros municípios do Estado, o que pode fazer com que eu possa conhecer um pouco mais esta imensidão verde no mapa e não tão verde quando se está perto.

O trabalho também me ensinou algumas coisas curiosas neste período. Uma é que aqui não existe conjuntivite. As crianças tem “dor de olho”. Diferente a nomenclatura, não? E tem outra… tem gente que chama de “sapatão”… esquisito. Aliás, tem outros termos que aprendi… As crianças não são cobertas por mantas ou lençóis, mas sim “enroladas”… Sim, porque mesmo com um grande calor diário aqui, pela manhã são várias crianças que chegam bem “enroladas” pelo frio… Imagine este povo em Campos de Jordão… : )

Outra palavar muito usada é o “inxirido”… substitui o “bagunceiro” do RJ ou o “reinador” de SP, usado especialmente no interior. O último termo aprendido foi o “mangar”, sinônimo de caçoar.

Falando em “mangar”, estamos em tempo de mangas e as crianças correm nas ruas em busca dos pés carregados com atiradeiras e sacolas cheias de frutas. As frutas aqui tem ciclos bem definidos. Agora estamos acabando a época dos cajus – fazia lama no chão de tanto caju, beeem vermelho – do qual o pessoal só aproveita a polpa e joga fora a castanha – e dos jambos, e entramos na das mangas e melancias. Pra quem está habituado às melancias grandes, gordas e vermelhas, as daqui são compridas, claras, mas bem suculentas e caras… chegam a custar 15,00!!!

Muita gente tem me escrito preocupado com a seca. Como tenho dito, aqui não tem muito problema. Situação pior só do pessoal que usa água da chuva para consumo. Além disso há algumas semanas tem chovido bem e todos já preveem uma grande “alagação”, que pode ser até pior do que a seca e que justifica todos morarem em palafitas. Os rios enchem com o degelo dos Andes, que segundo os especialistas tem sido um dos maiores do último século. Claro que com o rio tão baixo o prefeito aproveita para “contar desgraça” e entrar na graninha do “fundo de calamidade publica”. Assim, ao menos por aqui a seca virou uma grande jogada política.
No primeiro dia que fui para Tabatinga o rio ainda estava bem baixo, como vocês podem ver nas fotos. Depois de uma semana, vejam a diferença que deu… Impressionante, não? Bem, ele continua a subir e não gostaria que subisse para que não acontecessem desgraças, mas que seria interessante para fotografar, isto seria.

Outro assunto que sempre perguntam por aqui é a respeito dos animais. Neste último mês apareceram dois “bichões” por aqui. Em ambos os casos resolveram me chamar para fotografar. Em ambos os casos não me acharam… he! he! esta história de ser multi-homem dá nisso… estou sempre em um monte de lugares e é difícil me acharem. O bom é que assim nem os pacientes me acham… risos…

Bem, o primeiro caso foi que caçaram um tatu de 70 kg. A carapaça é enorme e fico imaginando o tamanho do bicho quando vivo. Fico triste do ponto de vista ecológico, mas entendo o ponto de vista de quem caça para comer. Da mesma forma pude entender quando mataram uma onça de mais de 100kg. E ainda consegui ficar triste porque não estava por lá para provar o petisco que foi apreciado por vários amigos. Imaginem um bichão destes perto de sua casa, onde você tem crianças, além de suas poucas cabeças de gado e galinhas bem próximas de casa… Dá para deixar solto? Ele foi morto praticamente no quintal de casa… Embora ecologicamente assustador – afinal a onça deveria estar na mata – é humanamente ainda mais assustador ao pensar nas crianças pequenas e então se torna justificável.

Aproveitei também o dois de novembro para ir ao cemitério. Fui fotografar e pude perceber uma vez mais que, embora sejamos todos iguais perante a morte, as pessoas insistem nas diferenças. O cemitério daqui mistura lápides de primeiro mundo com outras de terra batida. A fé das pessoas faz com que os túmulos estejam todos enfeitados nesta época, sejam eles de terra ou azulejados. Todos com velas e com flores. Só as flores é que são realmente diferentes, e por isto eu fui fotografar. No final de outubro vemos que várias casas começam a vender guirlandas de plástico. Como não há floriculturas na região, a alternativa é usar flores sintéticas e guirlandas de plástico mesmo, que são feitas em todas as cores, mas especialmente em branco, roxo e preto. O cemitério fica de uma beleza diferente, perdido entre o singelo e o bizarro. Os cemitérios daqui também tem outra característica. Todos tem cajueiros dentro deles, e talvez pela matéria orgânica, seus cajus sempre são bonitos e, segundo os mais corajosos, os mais saborosos.

Bem, é isto. Fiquei muito tempo sem net, e estou com os relatórios atrasados, mas em pouco tempo já estarei enviando um novo, contando de minha viagem para Alter do Chão e da participação no Conselho Estadual da Criança e do Adolescente…

Para finalizar um novo nome bíblico que atendi… um menino chamado Ecliciarte.. oriundo de Eclesiastes.

Abraços a todos, repletos de saudades e agradecendo do fundo do coração os muitos e-mails e msgs no orkut pela minha nova primavera!!!

Altamiro

FOTOS:

Cemitério de São Francisco, com cajueiro

Beira baixa – as casas flutuantes azul e vermelha já estão no peru, a amarela é no Brasil, de onde saem as lanchas. Vejam a proximidade entre as margens e o caminho que se tem que fazer em área alagável, onde foi construída uma ponte.

Churrasquinho de frango, já ensacado para viagem

Eu na calha, dividindo espaço com as crianças… quem disse que eu já estava ficando moreno?

Beira cheia nove dias depois – a ponte foi alagada e o Peru já se distanciou…

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1 comentário Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Ahaammmm, gostou da idéia do banho de calha, hein!
    Melanciazinha cara… Castanha de cajú jogada fora… Onça de 100 kg, tatu de 70kg… meu Deus que país é esse?
    Olhaa, to virando Santomé, só acredito vendo!
    Bjs

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