Impressões Amazônicas 19

10 de dezembro de 2005

Olá pessoal,

Este último período longe dos computadores foi bem corrido. A
distância foi por motivos justos e merecidos. O primeiro foi que tirei
quatro dias para conhecer um lugar único no Brasil, Alter do Chão.

Você já ouviu falar em Alter do Chão? Provavelmente não, mas deveria.
Alter é uma daquelas pérolas que o Brasil esconde tanto que seu brilho
só é visto pelos estrangeiros, passando por cima das fronteiras
nacionais e chegando diretamente na Europa, Japão e Estados Unidos.

Imagine uma vila repleta de praia de areia bem fina e muito branca,
com águas verdes esmeralda contrastando com o azul dos céus, com ondas
suaves que permitem que os adultos se divirtam e que as criqanças não
corram perigo. E o que é especial… de água doce, pois Alter está a
beira do Tapajós, considerado um dos rios mais bonitos de toda a
Amazônia. Pois é, me sinto um privilegiado. Isto me faz lembrar
que em todo o Brasil temos destes “cantinhos mágicos” que ficam
esquecidos. Assim era quando buscava os destinos ocultos para o
Carnaval… lembro dos bons tempos que passamos em
Prudentópolis, Matilde, São Rafael, Tibagi… sem que a maioria das
pessoas saiba mesmo que estes lugares existem.

Bem, mas Alter foi bom demais. Para melhorar ainda mais pudemos
degustar o Festival do Charutinho, com peixe fresco e frito na hora,
uma festa na praia de Ponta de Pedra, considerada uma das mais bonitas
da região. Tudo patrocinada pela Cerpa, a cerveja local. Não que eu
goste, mas para os amigos chegados… uma baita pedida. Finalizando um
dos dias… por do sol no Tapajós… com direito a barco de pesca
“fazendo pose”. Valeu a viagem só por este dia.

Mas nem tudo foi lazer, pois viajei para a Conferência Estadual de Direitos da Criança e do Adolescente. Foi bom. Bom não, foi ótimo, embora tenha acontecido toda aquela politicagem, discussões e demoras que fazem parte de uma conferência. Mas foi legal
participar, dar o meu depoimento e ver como o interior está
articulado. Enquanto eu atravessei de lancha meia hora e voei por três
horas, haviam verdadeiras delegações que viajaram cinco a seis dias
para cumprir o seu dever cívico. Afinal, como disse a Profa. Maria
Inês, de Londrina, uma das conferencistas… “hoje em dia quem não
exerce o seu dever participando do social nada mais é do que uma
ameba…”

Falando em viajar, como estava em Manaus, fui visitar os escoteiros que
estavam indo para o ELO Nacional. Foi legal, até porque eu fui um dos
responsáveis pela escolha do tema este ano e pelo montagem/organização
do programa. Assim foi duplamente legal, por reencontrar velhos
amigos, por participar de uma atividade escoteira e por ver que Júlio
Verne está sendo lembrado em todo o Brasil. O destaque para mim foi o
pessoal de Tefé, da minha amiga Ilka. Eles viajaram mais de 48 horas
para participar de um ELO que durou menos de 48 horas e enfrentaram
mais 48 horas de volta. Isto que é Espírito Escoteiro.

Ainda falando no tema do ELO… Júlio Verne foi a escolha porque é uma
das minhas paixões. Aliás, acho que parte do que sou é assim por causa
dele… a paixão pelas viagens, pela sensação de poder fazer algo
diferente, a vontade de ajudar ao mesmo tempo que conhecer e
conquistar… Talvez graças a JV eu esteja aqui no Amazonas. E para quem
gosta dele eu recomendo a ótima revista Scientific American
especialmente sobre ele que eu comprei lá em Manaus. Lindas fotos e
textos enxutos e muito interessantes. Vi que não sou o único que foi
influenciado pelo gaulês.

No dia que fui visitar o pessoal do ELO estava acontecendo em Manaus a
Novena de São José, que acontece todo dia 19. Fiquei impressionado com
a quantidade de gente e resolvi entrar para fotografar. A fé é
realmente algo assombroso. Era muuuuita gente, em um fenômeno que não
me recordo de ter presenciado em Niterói ou mesmo em São José dos
Campos. Nos lugares onde morei, os grandes acontecimentos religiosos
acontecem dedicados a um ou outro santo somente uma vez por ano, no
dia do santo. Em Manaus a novena acontece todo dia 19 reunindo
milhares de fiéis em várias missas ao longo do dia, sendo mais
“disputadas”, á das 8:00h e a das 7:00h.

E falando em fé me lembro da fé das pessoas em Benjamin. A prática de
uso de amuletos nas crianças é bastante comun. Tenho algumas fotos e
alguns relatos sobre o que protege as crianças. Ao contrário das figas
e sapatinhos de lã vermelhos usados no Sul, aqui se usa mulungú, dente
de alho, botão, chave e formiga grande. Os dentes de alho vão dentro
de um saquinho vermelho, da mesma forma que as formigas e servem para
afastar o mau olhado, sendo usados logo que as crianças nascem. O
mulungú, como tem uma semente vermelha, é usado com a mesma
finalidade. Os botões e chaves servem para que a criança não tenha
problema com a dentição, então são usados nas crianças mais velhas.
Também tem um cordão que as crianças usam, cheios de nós. Em cada nó
uma oração para proteger a criança de tudo, especialmente da “doença do
ar”, o maior medo que as mães daqui tem.

Adoro quando recebo comentários dos amigos a respeito dos textos. A
Iracema e o Maurício lembram que estas palavras que comentei no último
IA são todas originárias do Nordeste: mangar, inxirido, macaxeira,
jerimum… Acho que é uma influência dos soldados da borracha, alguns
dos importantes colonizadores da região. Para quem não lembra – acho
que citei em algum IA anterior – a história é a seguinte. Na época da
grande guerra, nossos soldados foram para a Europa, mas os aliados,
principalmente os EUA precisavam de nossa borracha, então a produção
deveria ser ampliada ao máximo. Para isso fizeram verdadeiras
campanhas de recrutamento, com características bem militares, e assim
foram recrutados milhares de “soldados da borracha”, muitos deles
tombando contra inimigos muito mais ferozes do que alemães e
italianos: a malária, a febre amarela, a disenteria… Na região
vieram principalmente valentes do Piauí, Maranhão e Ceará.

Nestes últimos nove dias também tivemos muita festa por aqui porque
ontem, dia 8 foi festa da “Padroeira”. Como já comentei, tudo aqui é
motivo de festa e de parada no trabalho. Foram nove dias de quermesse
na praça. Cada dia com uma missa de uma hora e meia e no final uma
grande procissão pela Paz (aliás, a cidade é chegada a uma procissão
também!!). No final de cada noite havia a apresentação de alguma
atração. A maioria era de locais, no projeto “Canta Caboclo, Canta”, mas
houveram atrações extra. Eu mesmo fiquei um dia até as onze da noite
junto com o prefeito e alguns vereadores para assistir a mega-atração
Pollyana. Já ouviram falar dela? Pois é… nem eu. Mas o povo havia…
E cantava junto com o play back sem graça que ela colocou. Aliás…
até os aplausos e gritos da platéia eram play back. Vergonhoso. O meu
“bota-fora” foi quando ela começou a cantar Barbie Girl em versão em
português e a expulsão definitiva foi ouvir a Dança do Apito em ritmo
de Bonde do Tigrão… Deus do Céu… a Padroeira devia estar se
contorcendo em dores…
Ao menos tivemos boas apresentações como um grupo de teatro de Manaus,
que contou a história do sapo que queria ser gente. Muuuuuuito
divertido, uma fábula do folclore amazonico.

Bem, vocÊs ficam com as fotos.
1 – eu em Alter do Chão… vidão
2 – eu em Ponta de Pedra … na cheia fica tudo submerso e, segundo
eles, cheio de peixes nas pedras. Esta é a praia que tem ondas.
3 – pescador na ponta de Alter
4 – Pedro é um portador de Sind de Down, com a bandeira do Brasil em
uma atividade que fui prestigiar.
5 – um morceguinho que encontrei perto de casa.

Beijos e beijas,

Altamiro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    “… a paixão pelas viagens, pela sensação de poder fazer algo
    diferente, a vontade de ajudar ao mesmo tempo que conhecer e
    conquistar…”
    Essa frase acima resume tudo que eu sempre quis dizer e nunca tive as palavras certas e nos lugares certos!
    Adivinha… mais uma vez, vc acertou…
    Falando em fé, vc já ouviu falar sobre o Círo de Nazaré em Belém do Pará? Outra demonstração de fé, porque não se explica o que é aquilo, não?
    Bjks

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