Impressões Amazônicas 2

Amigos,

14 de março de 2005

Agradeço a todos que escreveram dando força neste desafio de efetivamente conseguir fazer algum lugar um pouquinho melhor. A sensação de poder fazer muito por aqui é algo realmente que me fascina, e os que me conhecem sabem disso. Recebi várias ofertas de ajudas, de tipos distintos, mensagens sobre problemas amazônicos, e, melhor ainda… soluções amazônicas. Eu tenho um longo caminho de coisas a aprender, mas sempre precisarei da ajuda, da força e do pensamento de vocês, pois a saudade é enorme.

Muitos acharam as histórias divertidas, e acho que também acharão estas. Quem não gostar simplesmente apague, desculpe o incômodo. Eu cheguei aqui com muitos poucos e-mails anotados no palm. Vários estavam desatualizados, outros só tinham o telefone… então peço para quem conhece alguém que não está recebendo, que por favor faça contato comigo, pois não é nada pessoal. Hoje eu achei uma lista grande de e-mails perdida, que eu havia copiado, então mais gente estará recebendo este do que o primeiro. Se alguém receber o de hoje e quiser receber as primeiras Impressões Amazônicas, é só me mandar um e-mail.

Hoje é sábado, 12 de março e estou na “baleeira” indo a Tabatinga. Além de mim, mais 7 adultos e uma criança além do piloto. Estou apertado atrás, perto do motor e cerca de 10 cm acima das águas turvas do Solimões. O transporte para sair da cidade é sempre assim. Ontem a noite estava trabalhando na casa da secretária de saúde quando ligaram de Fejoal, uma comunidade distante pedindo a ambulância, pois uma criança havia sido picada por cobra. Logo depois a lancha-ambulância estava a caminho, pois não há opção por terra. As baleeiras, lanchas rápidas, ligam Benjamin a Tabatinga em 40′ por 15,00. Saem quando junta gente. Os recreios custam 9,00 e tem hora certa: 7h e 14h em uma travessia de 2 horas. Eu ia no recreio, mas pela manhã chovia tanto, tanto, tanto que precisaria que ele me pegasse em casa. Aliás, a chuva continua a ser uma amiga. Como não dá para confiar na água das torneiras e nem mesmo das águas minerais, só tenho tomado água de chuva… Em cinco minutos encho uma garrafa de 2 litros!!

Todo mundo me pergunta da floresta. O mais perto que cheguei da floresta até agora é nesta travessia, pois vemos as árvores na beira do rio. As cidades são como toda cidade do interior e nem parece que estamos no “meio da selva”. Animais? Não vi um que não tenha em todo lado: cães, gatos e um ou outro cavalo. Pássaros? Urubus e um ou outro bando de periquitos. Só. Insetos? Muito poucos. Há libélulas enormes, já vi até de 15 cm e alguns poucos carapanãs, nome local dos mosquitos. Eu tinha comentado que todos os cães aqui eram da mesma raça, o Sarnaaround Amazonico, mas descobri um poodle, dois labradores, um pastor alemão e um branco.

O pessoal da cidade é magro, e, mesmo entre as crianças poucos são gordinhas. Não por fome, mas por tipo físico e alimentação mesmo, que, com certeza é diferente da do Sul ou Nordeste. Peculiar na cidade é que ninguém é chegado a um esporte, fora o onipresente futebol – há uma quadra coberta e campinhos bons. Já dei meu reino por uma piscina e finalmente achei duas, uma particular de uns 10m e outra de 15m em um projeto social. Espero em breve estar dando algumas braçadas. Estou pensando também em dar aulas de hidroginástica… com 10,00 por pessoa consigo alguns interessados e ainda faço minha ginástica… Nice me salva!!!!! De academia não há nem sinal, para quem gosta de malhar não há opções.

As motos são um espetáculo que não vejo a hora de fotografar para mostrar. Não há placas ou capacetes. No inicio achei um absurdo mas logo entendi que isso é porque todos devem ser iguais perante a lei, afinal se não há como colocar um capacete em um recém nascido, não há como cobrar o mesmo de sua mãe que dirige a moto enquanto a criança vai no colo. E muito menos em quatro crianças levadas a escola pelo pai – ao mesmo tempo, ou, como vi ontem a noite… dois adultos em uma moto com uma criança de cerca de um ano segura pelo braço direito do pai ao lado da moto, com as perninhas balançando no ar. Ao menos os acidentes são raros pois não encontrei nenhum nos atestados de óbito de 2003, 2004. As motos servem também para carga. Nesta variedade o da garupa vai de costas levando por exemplo um bujão de gás ou uma criança bagunceira. Aliás as crianças logo aprendem a viajar de pé sobre o tanque… É a lei da selva, e uma forma de iniciar o aprendizado, pois já vi várias de 10 anos dirigindo por aí.

O motorista da secretaria de saúde, o Seu Antonildo (não havia dito que Altamiro era um nome bonito?) olha com cara feia quando coloco o cinto e alerta: “já vi homem morrer ficando preso nisso aí com o carro caindo em barranco”. Não sei onde, afinal não há morro nenhum por estas bandas. A região é tão plana que não tem cachoeira alguma. Outro dia mostrando fotos de cachoeiras a um tikuna ele me dizia: ” podíamos ter isso aqui. É tão bonito. Meu tio disse que viu uma vez”.
Almocei anta na casa de um amigo colombiano que mora em Tabatinga. Maurício, excelente médico, tem um consultório em casa. Aliás, não só não trabalha de branco como ainda atende de papete e…usa rabinho no cabelo. Me senti em casa pois os dois filhos dele também usam. Voltando a comida, comi as sempre presentes banana e macaxeira e salada com mel. Uma delícia. A anta também é boa, mas meus princípios ecológicos não me permitiram aproveitar adequadamente. A mesma coisa aconteceu hoje, quando fui convidado para um churrasco… Cheguei lá a carne era de paca ou de veado. É bem gostoso, melhor dizendo… a paca é uma delícia… mas é ruim comer com culpa…
Ele e a esposa Ana Lucia (também médica) tem um projeto fantástico. Eles construíram uma escola para que os filhos possam ter boa educação. Nâo somente do ponto de vista acadêmico, mas humano. Os prédios são todos circulares como ocas, todos de madeira. A escola está ligada a net, tem laboratório de fisica, tem estufa experimental e atende até a 7a série mas só tem 45 alunos… em toda escola. Eles trabalham, e muito, pelo sonho de mudar a sociedade local. Sim, porque se fosse só pelos filhos eles voltariam a Bogotá, onde a educação é muito boa e não precisariam “construir” uma escola. A escola segue a filosofia do francês nobel de física Jorge Charpac e é muito interessante. Além da escola também fui conhecer a feira (muitas frutas diferentes e as bananas peruanas de meio metro), o aeroporto, a universidade, o hospital e… Acabou a cidade! .: )
Pro pessoal que tem perguntado de mosquitos e pernilongos… aqui não tem. O que tem são carapanãs, mas ao menos nesta estação, apesar das chuvas são muito poucos. Tomei picadas um dia na fila do orelhão e só. Dizem que na beira dos igarapés tem ao entardecer, mas acho que não deve ser nada pior do que os borrachudos de Ilhabela.

O mais marcante mesmo aqui por enquanto são as comidas, então volto pro tema. Os peixes de água doce daqui são completamente diferente dos do Sul, pois não tem gosto de terra. É tudo muito bom. Espero na próxima semana ir a Islandia comer ceviche, que é o peixe cru peruano… aliás… vai ser o melhor jeito de chegar na Islandia e não sentir frio. O problema e escorregar por lá… afinal, vou estar no Peru e depois de comer anta e veado… sei não!!! Aqui tem muitos pratos feitos com macaxeira (aipim ou mandioca aí para baixo). Usam para farinha, fazem cozido, usam na massa de pão. Outro alimento de toda refeição são as bananas… As peruanas, as grandes, verdes são usadas cozidas ou para fazer o tacate, uma farinha de banana que é comida salgada e pode ser misturada com calabreza, cebola ou o que se quiser. Nas manhãs se tem as frutas como o camu-camu para os sucos, o açaí em todas as refeições (inclusive em biscoitos), o tucumã que parece um super pequi (os goianos sabem o que é isso), só que sem espinhos e um outro que não me lembro o nome que parece um super cacau e que o gosto lembra de graviola vagamente. Depois se pega as sementes e se faz frito, mais gostoso do que amendoim. A selva dá de tudo mesmo!! Ah! Está na época de cupuaçu. Os sucos são ótimos, e a árvore fica linda, o problema é só não cairem na sua cabeça, como hoje quase fez um mari ou algo parecido… um fruto que tem gosto de… mari… não lembra nada que tem por aí. Venham que vão provar!!!!

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Assado de paca

Prato típico ribeirinho.

Na próxima vou contar um pouco da saúde daqui… já tenho boas histórias em alguns dias… mas já estou enchendo muito o saco de vocês, e ainda tem duas fotos para verem como é a comida. Estas são do churrasco, e bati com a digital de um amigo. Em um se vê os bichinhos no fogo. E no outro o meu prato: carne, macaxeira, banana e farinha com caldo…

Abraços,
Altamiro

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7 comentários Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Está muito bom ler tudo do início, não dá mais vontade de parar…..

  2. Sam disse:

    Estou amando ler tudo do inicio. Muito interessante!!!

  3. Etiane Sales disse:

    É muito legal ouvir relatos desses, de quem convive com a natureza e nos faz sentirmos bem próximos. Tudo de bom!

  4. Irene Andrade disse:

    Comecei da primeira impressão e vou lendo a cada dia o” seu livro ainda não editado! “E vou repassando!!!

  5. Ambrogio Vittadini disse:

    Altamiro, hoje nos conhecemos no Ashram de Baba. Decidi abrir logo este seu Impressoes Amazonicas, e amei. Irei lendo sempre quando possível. Já falei para você que está fazendo um trabalho importantíssimo. Essa sua maneira de contar histórias é uma bela forma de transformar um mundo que está virando, vazio, de plastico, sem valolres, ética e carinho onde só conta o dinheiro A gente parece estar esquecendo carinho, amor, abraços, beleza interior transformando tudo em dinheiro! Obrigado por estar ensinando no dia a dia a vida humana como ela é!
    Obrigado por existir e estar fazendo uma obra mágica!

    Ambrogio

  6. Carlão disse:

    Altamiro! Como sou taurino, sou persistente. E chato! Cadê o(s) livro(s)? Puro deleite seus escritos. Abs. Carlão.

  7. Elis disse:

    Altamiro,
    Jesus…o relato do transporte das crianças nas motos..me deixaram….ui!!!!!
    Estou me divertindo muito lendo……aliais…vou ler mais…
    Elis Da Gama

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