Impressões Amazônicas 20 – Reflexões de fim de ano

24 de dezembro de 2005

Amigos,

Não tenho nenhuma grande novidade de Benjamin Constant ou da Amazônia,
mas o final do ano nos faz reflexivos.

Já se vão nove meses por aqui e muito tenho feito. Sei que a qualidade
de vida da criançada local melhorou bastante, e esta é talvez a maior
gratificação pelo meu trabalho. Mesmo assim as vezes nos sentimos
desanimados, pois o salário ainda não é tão bom, porque há gente que
realmente não gosta de trabalhar e especialmente porque a saudade é
enorme.

Uma das maiores satisfações é a escolinha de crianças especiais que
faço assistência e da qual enviei uma foto no último IA. Hoje eles
tiveram a festinha de Natal. É comovente ver a alegria das pessoas que
participavam. Sabem, não é uma escola no sentido tradicional. Tem
alguns alunos mais velhos do que eu. E tem de tudo: cego, mudo,
síndrome de down, outras síndromes… todo mundo junto. Há um pai cego
que vai sempre com o filho que tem síndrome de down. E todos –
crianças e adultos – se misturam na sua ingenuidade e alegria. Todos
dançando hoje, com barba de papai Noel, me fazem pensar que vale a pena
estar por aqui. Os sorrisos eram a maior prova do sucesso da
escolinha, ainda que modesta e com todas as dificuldades do serviço
público.

Dentre os nomes de final de ano alguns me marcaram. Um é o Rayknnen…
porque será este nome? Nome de cerveja em Ticuna… : ) O
outro é uma menina, também Ticuna, chamada Naiá. Perguntei para mãe –
com cara de índia – o que significava e ela me respondeu que é
Princesa. Achei lindo e perguntei se falavam em ticuna com ela. Ela
então me respondeu que não era indígena, e que o pai – que inclusive é
funcionário administrativo do Conselho Geral da Tribo Ticuna – havia
resolvido que a criança não deveria aprender a gíria (que é como eles
chamam a língua deles). Que tristeza cultural… eles realmente não
sabem se são ou se não são e nem mesmo o que são neste momento…

Bem, além destes vou destacar os nomes futebolísticos. Já atendi
Romário, Rivaldo, Zidane e agora atendi o Michel Platini… com
certeza de um pai saudosos dos velhos tempos do futebol arte! : )
Outros curiosos foram Beibson, Farnenis (para combinar com o pai,
Farney), Shandar (que a mãe viu em uma revista), o Wexler Barboza e
Barbosa (sim, com duplo Barbosza com grafia distinta), a Histeicy e o
filho de um pai muito cruel: Marimildo Junior.

De todos o que me deixou mais intrigado com a singeleza foi o Is. Sim,
este era o nome. E imagine se o sobrenome fosse Sá. Is Sá. Seria tudo.
Por sorte ele era Is Souza Silva.

O que melhorou foi o meu cardápio. Hoje fui na Dona Tereza (onde
sempre pego comida) e ao perguntar o que tinha ela me respondeu:
surubim (pintado) guizado ou bobó. Adoro o surubim e o escolhi, mas
perguntei… “bobó de camarão?” E ela me respondeu… “não, bobó de
carne”. Pedi para olhar e tinha cara, cor e jeitão de carne moída.
Perguntei o que era o tal do bobó e ela me explicou que era o pulmão
do boi. E aí no Sul nunca ouvi falar que se comesse isso. Claro que eu
provei. Delícia!! Parece carne moída fofinha.
Outra coisa diferente aqui é o bucho. Eles não cortam em tiras, como
no Sul e no Nordeste, mas em pequenos pedaços, assim ele fica com cara
de tubinhos. Além de se comer no feijão se come também fritinho,
temperado com cebola. Fica com uma cara de fígado mas com gosto de…
bucho frito, que eles chamam de “tripa frita”. Provem!!!

Os cardápios aqui são normalmente assim. Mais proteína e pouco
carboidrato. Se come um pouco de macarrão, mas pouquíssimo miojo,
pouco arroz e muita farinha e macaxeira. Muitas vezes as refeições
locais são somente caldo (caldo mesmo, uma sopa daquelas aguadas) com
peixe ou frango e um ou outro pedaço de algo boiando e farinha. O
pessoal come farinha e farofa de colher cheia… Por isso são raros os
gordinhos nesta cidade! Ah! Também é pouco o chocolate e a
“tranqueirada”, especialmente na periferia e na beira do rio, o
“beiradão”.

Eu achei que fosse deixar este IA por aqui, mas hoje, dia 23
conseguiram acontecer muitas coisas interessantes:
a) fui fotografar uma casa que tem araras, papagaios e um jacamin de
estimação e descobri um tatu. Sim, um tatu de estimação. Escapou da
panela!

b) estava andando na rua quando encontrei com Papai Noel. As crianças
se divertiam. Vejam a foto.

c) fui na festa de Natal do Projac (Projeto Jacarezinho). Foi uma
grande alegria. Como um trabalho voluntário de recreação de crianças
consegue oferecer cachorro quente, sorvete, pipoca e brinquedos para
mais de 100 crianças na base da boa vontade, do sorriso, da garra e da
vontade de melhorar um bairro. O pessoal está de parabéns.
d) o populismo me incomoda. Estava andando na rua quando passa uma
pick-up cheia de autoridades (inclusive deligado e muitos políticos),
com gorros de papai noel atirando balas nas pessoas das esquinas que
se matavam para conseguir umazinha. E isto em uma cidade onde todas as
crianças – ao menos teoricamente – ganharam presentinhos de Natal –
foram distribuídas 12 mil senhas nas casas – e mais de mil famílias
ganharam cestas de Natal.

Bem, fica então o meu Feliz Natal e o desejo de um 2006 repleto de
realizações. Espero que possa abraçar cada um de vocês pessoalmente
neste ano que vai entrar. Como iniciei reflexivo, assim também acabo
este IA. Ainda não sei onde estarei em 2006, como estarei. Só sei que
quero estar com vocês, quero viajar muito, trabalhar bastante,
experimentar o novo. E é isso que desejo: que o NOVO esteja presente
nas suas vidas. Que os momentos aparentemente ruins sejam vistos como
oportunidades para o crescimento, para mudanças e para vida nova,
afinal, tudo é um eterno reiniciar. E quando estiver em dúvida…
CONTINUE!

Beijos e abraços,

Altamiro

ps – quem gosta do Impressões Amazônicas deve ler também as Impressões
Pantaneiras do meu amigo Luiz:
http://mascarenhascastro.multiply.com/journal O Edu e a Marcia também
fizeram um maravilhoso foto-relato repleto de dicas para viajar pelo
Peru muito além do tradicional Machu-Picchu e Cusco. Ainda não está on
line, mas assim que tiver eu divulgo.

fotos:
a e b) papai noel das crianças no meio da rua. Bem legal e uma alegria
só. Notem a barriga, a barba e as “renas”.
c) enfeite de natal da cidade. Benjamin está cheio de luzes e com
árvores de lâmpadas espalhadas. Simples, mas bonito.
d) eu e o tatu. Ou será o tatu e eu?
e) querem um pedaço deste abacaxizinho?

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