Impressões Amazônicas 22

14 de fevereiro de 2006

Meus amigos próximos sabem que sou um adepto do banho quente. Aliás,
banho “fervente”. Assim, se eu imaginasse que tomaria banho a noite de
água fria eu com certeza daria risadas e me imaginaria em um sonho, ou
melhor, em um pesadelo. Mas este é o mundo amazônico. Um mundo sem
água quente e ao qual aos poucos fui me habituando a ponto de para mim
ter se tornado algo normal. Apesar disso algo novo vem acontecendo
depois que voltei do Sul no Ano Novo. Neste período aconteceu algum
problema na etapa de filtragem da água tratada da cidade e então a
água chega clorada mas escura, com terra. Além das irritações de pele
(aqui chamadas de “pira”) imaginem a coceirada que não dá na cabeça…
Assim passei para uma etapa mais avançada de aproveitamento natural e
além da água para beber comecei a “aparar água” (este é o termo
técnico, “aparar água”) para lavar a cabeça. Como tem chovido MUITO
quase todo dia, sempre consigo encher uma ou duas bacias, mais do que
suficiente para mim. Aí eu volto a pensar… quando não chove, o que é
desse povo… passa sede e toma água de má qualidade mesmo estando
dentro da maior bacia hidrográfica do mundo.

Com a cheia, dois outros problemas surgiram, para mim, inusitados. O
primeiro é a falta de peixes. Sim, pois com mais alimentos e mais
espaço, além dos temporais que atrapalham os pescadores, a oferta
diminui. E logo o peixe já se torna mais caro e raro, o que tem feito
que nos últimos tempos eu tenha comido mais frango que pescado. Ruim
para as “caças”, pois com o mato mais molhado, o caçador faz menos
barulho e então o animal não percebe o perigo e vira refeição… mais
barata do que a carne de gado, que aqui é abatido e vendido sem nenhum tipo
de controle sanitário.
O outro problema da cheia é a falta de madeira. Não entendo direito,
mas com as chuvas, a madeira fica “ruim”, e então não se encontra
madeira em lugar nenhum para venda. Em uma região cheia de movelarias
e onde as casas são todas feitas de madeira, imaginem como isto é
complicado para a economia, não é mesmo?

Nada tem agitado mais a cidade do que o concurso municipal. Todos
querem se inscrever, ainda que alguns nem mesmo saibam para que se
inscreverão. Foi um grande golpe. De uma vez o prefeito vai diminuir o
salário dos contratados e enxugar a folha de pagamento. Em um lugar
onde a grande empregadora é a prefeitura municipal vocês podem
imaginar como isto mexe com todo mundo. E o agito financeiro continua,
pois o campus da UFAm (Universidade Federal do Amazonas) vai ser
ampliado, com a concentração de novos funcionários por concurso. Dizem
que o Lula em pessoa virá para a inauguração. Me parece algo
fantástico, mas com a proximidade das eleições, tudo pode acontecer.

As festas continuam por aqui. Ainda não completei um ano mas o que
mais vi foi festas e feriados. Aconteceu a festa com quermesse de
emancipação de Benjamin Constant. Dá para saber a programação? A mesma
de sempre… Festas na praça todo dia após a missa. O problema é que
Frei Benigno (que de benigno não tem muito, pois fala mais palavrão do
que filme pornô, e todos eles bem de baixo nível) fala muuuito, e as
missas nunca acabam menos de oito horas da noite. Depois disso ainda
tem vários eventos, até que a atração principal se apresenta lá para a
meia-noite. A ponto alto da festa de emancipação foi a chegada da
banda “bandawera”, sucesso em Manaus e na Alemanha (?). Bem, só que a
apresentação começou mais de meia noite… como eu iria estar no dia
seguinte cedo no trabalho, não vi nada… E embora eu ache que não
tenha perdido nada… ninguém merece um esquema destes, né?

Mas outro efeito eleitoral, além da possível presença do Lula é a
chegada dos Deputados Estaduais. Ano passado nenhum veio, e
subitamente em menos de um mês já vi três por aqui. Triste este país.
E o pior é que, iludido, o povo vota neste povo, achando que eles
realmente se preocupam com a região. É ruim!!!

Um dado anatômico e curioso… Bem, como 99% de quem eu atendo vem de
sandália, acabamos prestando atenção nos dedos. Diferente do Sul onde
o hálux (primeiro dedo do pé) e o segundo brigam pela primazia de ser
o mais comprido dos dedos dos pés, a briga aqui envolve também o
terceiro dedo. Há muita gente no qual o terceiro é maior e o hálux
menor dos três. Beeeem diferente, para não dizer esquisito.
Apesar disso, tem uma coisa que há que se valorizar. Acho que nunca vi
uma perna lotada de varizes aqui como vemos no Sul. Celulites em
adolescentes? Nunca vi mesmo. E as índias tem vários filhos e zero de
estrias. O que é a genética!

Mais influências do espanhol aqui que não havia citado: temos que
receitar pastilhas e não comprimidos e as crianças mamam teteras e não
mamadeiras.

Por fim… Aos adeptos do açaí. Estamos entrando na época. Já existem
várias banquinhas oferecendo o litro por um preço que está ainda em
2,00. Em breve a oferta aumenta e ele cai para 1,00 como era quando
cheguei por aqui. Outra coisa legal é que além do tradicional existe
uma variedade com açaí verde. Tomei outro dia e o gosto muda muito
pouco, mas tem menos “areia”. Só para lembrar aos interessados, além
do açaí e do buriti também temos o patuá e a bacaba, sendo que este
último ainda não provei. Outro coquinho entrando na estação agora é a
pupunha, e os frutos vermelhinhos já começam a surgir. Problemas de
vitamina A com certeza não tem como alguém ter por aqui.

Curiosidades que tem me perguntado. Aqui temos cinco mercados. Somente
um não fecha no almoço e vai até depois das sete funcionando. Todos
juntos cabem com sobra dentro de um carrefour pequeno. Macarrão e
arroz prontos tipo da maggi ou da knorr… impossível encontrar. Algo
mais sofisticado? Impossível. Em compensação graças a segunda linha,
temos uma variedade enorme de biscoitos recheados (alguns muito bons),
cereais para mamadeira, macarrões e refrigerantes (vai aí um Planet
Cola?). Produtos de higiene até são variados e equivalentes aos que
temos por aí, a mesma coisa vale para os de limpeza, embora com preço
um pouco mais caro. Queijo? Só em um mercado, nos outros só coalho
(que é bom para assar). Sorvete de marca? Só em um, e ainda assim em
marca manauara. Refrigerante light ou diet? Nunca. Os mercados também
vendem CD… mas somente de boi, brega e CA-LI-PSO… o que mais se
houve por aqui. Nada do bom e velho Rock… Aliás, falando em Rock,
descobri um bar que toca rock… outro dia passando na frente rolava
um DVD do Camisa de Vênus. São nestes momentos que vejo que há lucidez
por aqui… : )

Antes de encerrar, duas notas. Este Impressões Amazônicas segue hoje
diretamente para a mamãe, que se comprometeu a escrever as Impressões
Zonicas. Quem conhece ela e a casa da vovó sabe exatamente do que ela
está falando!!! : )
Fiquei surpreso com o interesse do pessoal pelo Impressões
Fluminenses. Valeu pessoal. Faltou falar da minha super-filhona, não
citada, mas que está cada dia mais linda, mais inteligente e mais
legal! Mesmo longe é ótimo ter uma filha maravilhosa como a Elga!

Fico então com as fotos de hoje…

1 – Goiabas: tudo bem, tudo bem, vocês já viram goiabas. Talvez
maiores, talvez melhores. Mas com certeza nunca vi TANTOS pés lotados
de goiabas. Tinha tanto, tanto, que nos pés elas ficavam gordas, doces
e SEM UM BICHO. Algo que eu considerava realmente digno de magia.

2 – Bichinhos esquisitos: aranha multicolorida nas minhas costas
(depois do grilo punk e da borboleta fashion) e um “sei lá o que”
rubro-negro.

3 – Vida na Beira – os caras estão lavando mandiocas que estão
afundadas no barco.

4 – Diferença de nível no rio: a foto mais recente e as que mandei no
IA 18. Lembro que do outro lado do rio temos o Peru. Aquela casa
vermelha é uma loja de gasolina. Por isso que digo que no tempo seco
aqui é um perigo. Se tropeçar cai de cara no Peru!

Beijos do magro,

Altamiro

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1 comentário Adicione o seu

  1. Debora Martins disse:

    Lendo essa IA um pouquinho atrasada, mas quão atual… estamos de novo em época de eleição e é assim mesmo que as coisas giram… Lula esteve aqui em SBC (onde moro) pra fazer campanha pro candidato dele… nunca vem aqui pra fazer algo pela cidade, apesar de “morar”, ter vivido e feito carreira política aqui… É mesmo um grande cinismo…
    Se tem gente com os dedos dos pés esquisitos, tem bichos esquisitos tb… mas, nas costas, ahhhh tenha dó!

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