Impressões Amazônicas 27

junho de 2006

Amigos,
Esta é a última “Impressões Amazônicas” escrita no Amazonas. As
próximas já serão contando as histórias do Pará. Como o Pará está na
região Amazônica, continua então o mesmo título.
Altamiro

Impressões Amazônicas – Junho 2006

A época das festas juninas começou e agora todo final de semana tem
uma festa diferente na cidade. Fui a uma organizada pela Secretaria de
Ação Social, incluindo o pessoal da terceira idade, adolescentes em
risco e crianças do programa de erradicação do trabalho infantil.
Muito legal. É impressionante como aqui os jovens são estimulados a
dança e as manifestações artísticas, o que é ao menos um consolo para
o número de aulas, que é mínimo. Foram apresentadas diversas danças em
três dias e o melhor vou contar para vocês. Primeiro a dança do gambá.
A região recebeu uma pequena quantidade de negros, hoje totalmente
assimilada e diluída, mas suas manifestações culturais resistem firmes
e fortes. Como não há negros, hoje as danças são interpretadas por
“negros artificiais”, compondo um quadro no mínimo bizarro. Depois a
quadrilha “só filé”, composta pelo grupo da Melhor Idade. Como no
grupo só tem quase mulheres, elas dançavam com os adolescentes. Tinha
velhinha que há muito tempo não via de perto carne tão fresca. Sei
não, mas quando tiver a idade delas quero ter a mesma disposição e não
ser um “velho sentado”. Por fim o onipresente boi. Dos ritmos
regionais brasileiros, a toada é um dos que mais gosto. Todo mundo
canta junto e acompanha o enredo no qual vão desfilando uma série de
personagens como a Rainha do Folclore, o Amo do Boi, a
Porta-Estandarte e diversas tribos, que são como blocos de uma escola
de samba. O maior destaque, o Boi, dança apaixonado pela Sinhazinha da
Fazenda, que lhe dá grama para comer e lhe faz carinho. Quem dá vida
ao Boi é um dançarino conhecido tecnicamente como “tripa”. Depois do
Boi entra a Cunhã Poranga, que na tradução literal quer dizer “menina
bonita”, e que é enfeitiçada e salva no momento mais esperado pelo
Pajé. O Pajé desta apresentação era mirim, mas foi fantástica a sua
atuação. Imaginem Parintins!!!

Sinto que está chegando a hora de ir embora de Benjamin Constant, e
faço um balanço do que tenho feito. Pelo menos três coisas eu fiz
muito mais aqui do que em toda a minha vida: andar de moto, comer
peixe e tomar banho gelado.
As motos foram veículo de tantas caronas e algumas “moto-taxeadas”. A
região de Letícia + Tabatinga tem a maior concentração de motos por
habitante do planeta. Está no Guiness.
Os peixes foram alimento pelo menos três vezes por semana. Cozido,
caldo, assado, pupeca… Tambaqui, pacu, matrinxã, surubim, bodó…
Bom demais, e sem aquele gosto de terra que os peixes de rio tem no
sul.
O banho gelado, que considerava algo inimaginável se tornou um hábito.


Triste só quando eram necessários no final de noite. Uma vez aconteceu
recentemente. Encarei o Beer Dance da Dona Venância, para assistir o
Kaliente. Se você nunca ouviu Kaliente, não sabe o que está perdendo.
Esta banda de Iquitos, selva Peruana, tem um ritmo envolvente, e
clipes sem igual. Sem igual de tão ruins… Eles ganhariam com
facilidade os dez primeiros lugares nos “Piores Clipes da MTV”.
Modelitos cafonérrimos, bailarinas “baleiarinas”, interpretações de
clipes… cafajesticas… Terrível. Ao menos o som é bom, e tocaram
das 22h30min as 4h da manhã sem parar. Eu desisti após a terceira vez
que eles reiniciavam o repertório. Quem ficou garante que bailou sem
parar com os vocalistas, baterista e um ótimo naipe de metais, que
lotava o palco e fez com que uma amiga exclamasse assim que chegou no
salão: “Nossa, nunca vi tanto homem feio junto em um palco só!!!”
Coisas da selva…

Agora que estou quase indo embora tenho as duas últimas palavras que
aprendi aqui. Custei a entender que a criança “caxingando” era uma
criança “mancando”.
E a outra na verdade não é uma palavra, mas uma fruta ou legume, algo
assim. Você já ouviu falar em “pepinídio”? Pois é… embora o nome
seja de pepino, a cara de tomate, na verdade tem gosto de…laranja.
Deste fruto/legume peruano só vou ficar devendo a foto… Comemos
todos antes de fotografar…

Alguns dias depois…
Estou indo de volta para BC no que talvez seja minha última viagem
para lá. As saudades e a distância, além das dificuldades
profissionais me empurram nesta direção e não há como dizer que não
vou triste. Sei que poderia ter feito mais, ao mesmo tempo em que sei
que dei o máximo de mim. Foram várias realizações em uma cidade que
nunca nem mesmo teve um pediatra, dentre as quais, a que mais me
alegra tenha sido a criação e capacitação do Conselho Tutelar.

Lembro nitidamente minha sensação quando atravessei o Solimões pela
primeira vez. Tinha certo medo e ansiedade sem saber ao certo como
seria minha “aventura” amazônica. Hoje, no vôo em que me despeço de
Manaus, viajo feliz. A distância, as diferenças de costumes e as
dificuldades no trabalho, provocaram algumas perdas, várias preciosas
para mim. Mas acima de tudo ganhei uma certeza. Ao menos hoje a minha
aventura não acabou. Sigo convencido de que há muitos mundos a
conhecer e muito trabalho a ser feito. Assim em breve receberão minhas
Impressões Amazônicas escritas a partir de outras terras: Redenção,
Sul do Pará. Por quanto tempo? Não sei dizer… Como cantava meu amigo
Katsuo: “Por caminhos nunca vistos, eu tracei o meu destino. Não sei
dizer quando vou chegar, nem mesmo sei por onde vou passar…”.

Evitei ao máximo divulgar minhas despedidas de BC. Não quero ter dez
despedidas, como fez o Romário. Mesmo assim, ontem começou. Alguns
amigos próximos fizeram uma reunião com direito a jabuti (não como
convidado, mas sim como prato principal). Não consigo convencer
ninguém de minhas convicções ecológicas. Hoje o pastor da Igreja
Batista Regular (são quatro tipos de igreja batista por aqui: regular,
primitiva, tradicional e esqueci a outra…) me convidou para o
almoço: tambaqui, piraputinga e pupeca de sardinha. Refeição abençoada
pois achava que não comeria mais pupeca antes de viajar. Depois fui
homenageado pelos agentes de saúde com um lanche. De lá fui correndo
para um encontro de despedida com os escoteiros. Por fim, no final da
noite tive um jantar a base de pizza com o pastor da igreja
presbiteriana.
No dia seguinte, dia de minha viagem, eu tinha previsto acordar as
cinco da manhã. Acordei ás quatro com um “maluco” batendo na minha
porta. “Pronto”, pensei, “Algum paciente passando mal que não sabe que
pedi demissão”. E não era… mas um bando de escoteiros que me trouxe
um café da manhã simples, mas cheio de carinho. Só não esperava
realmente aquela “invasão” aquela hora da manhã… Mas valeu a
visita… e ainda me ajudaram a carregar as coisas ao porto.

Com um beijo de saudade me despeço de todos vocês.
Altamiro

Legenda das Fotos (infelizmente não são as originais que acompanhariam
o texto…perdidas no meu velho laptop):
1 – Vista da “beira” de Benjamin Constant, após reforma.


2 – Produção Artesanal de Açaí – Foto do meu querido amigo Clauber.


3 – Anciã tikuna preparando banana prensada. Uma delícia. Foto do Cleber.

4 – Olha o “barquinho” no porto de Tabatinga. Como o rio é sempre
navegável, os portugueses e espanhois passavam por aí há mais de 300
anos.


5 – Vista da “beira” de Tabatinga, após reforma.


6 – Posto de Gasolina flutuante em Benjamin Constant.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s