Impressões Amazônicas 29

outubro de 2006

Kayapó, os Índios Fashion

Baden-Powell, fundador do Escotismo, no seu livro Caminho para o
Sucesso cita um missionário inglês que aconselha seus colegas em
relação ao contato com povos distantes.

“Nas primeiras semanas vocês estarão querendo ensinar o povo de lá
como poderiam fazer muito melhor suas tarefas, e escreverão para casa
para dizer a sua gente que nunca viram um país tão desgraçado e um
povo tão pobre. Meu conselho é: escrevam a sua carta, mas não a ponham
no correio durante seis meses ou mais. Aí abram a carta e vejam que
absurdos haviam escrito e fiquem gratos por não a haverem enviado”

O que hoje me parece estranho, diferente, bizarro, certamente não o
será em alguns meses. E tudo tem uma justificativa, ainda que aos
nossos olhos não seja normal, como alguns enfeites e hábitos
alimentares. Tento ter um olhar de quem olha, sem críticas, mas
olhando com bom humor hábitos diferentes, da mesma forma que fiz
quando escrevi as Impressões Fluminenses, sobre os estranhos hábitos e
modos de falar dos cariocas.

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Acho que vocês lembram que sempre considerei os Tikuna índios
suburbanos, morando a periferia da cidade e, aparentemente com muito
pouco, além de seu idioma, que os diferenciasse de outros ribeirinhos.
Os Kayapó, etnia com a qual trabalho agora, são completamente
diferentes.

A maioria deles mora realmente em aldeias como imaginamos. São malocas
onde se chega normalmente por avião ou barco e em poucos casos,após
horas de viagem por estradas de terra sacolejantes. O seu idioma é
realmente simples, e em pouco mais de duas semanas, já falo mais do
que aprendi de Tikuna. Sei perguntar e entendo muitas das respostas,
que vem sempre acompanhada de um gestual italianico. Duas curiosidades
linguísticas. Uma é que o sim se fala “nam” em Kaiapó. Então o ouvido
custa a acostumar-se a isso. É célebre a história do motorista que
perguntou: “A ponte cai ?” e ao ouvir um “nam” acelerou direto para o
fundo do rio. Outra é a forma que, especialmente as mulheres, destacam
algum fato. Por exemplo, “dor” se fala “tokru”. Já uma dor forte é
algo como “tokruuuuuuuu” com o “u” bem agudo e acentuado.

A característica mais legal deles, contudo, é o visual beeeeem
colorido e diferente. No dia-a-dia estão sempre pintados. As mulheres
são exímias pintoras e fazem desenhos com uma geometria única
simbolizando diferentes animais e motivos. Como a tinta fica em média
quinze dias, dá para imaginar que realmente se mantém. As pinturas
acompanham toda a vida, sendo a primeira feita assim que cai o umbigo
da criança, quando sua mãe também faz uma nova pintura e a criança
ganha seu primeiro nome, escolhido pela avó.

Na verdade é impressionante o que se faz por vaidade… E mais
impressionante ainda como os conceitos de beleza são diferentes e
variam de um lugar para o outro.

Para os meninos ficarem bonitos, os Kaiapós utilizam um piercing no
queixo, que é furado logo ao nascimento. Para manter este furo aberto,
sem fechar, as mães passam um cordão de algodão. Lógico que este
cordão logo fica imundo… mas lá ficam eles com o cordão. Além do
cordão todos usam pulseiras, braçadeiras (padjê), tornozeleiras,
cordões e brincos, alguns enormes, pois as crianças dos dois sexos (a
diferença está só no enfeite do queixo, lembram-se?) usam alargadores
de orelha enormes. Em dias de festa, os brincos podem ser tão largos
quanto os alargadores, e eles também são enfeitados, como se houvesse
o brinco estivesse “usando um brinco”. Exceto os alargadores e os
brincos grandes, que são de madeira, todos os outros enfeites são
feitos de miçanga. E, pasmem, melhor se for miçanga tcheca! E vale
toda combinação de cores para deixar qualquer carnavalesco com inveja.
Verde, laranja, azul e amarelo em uma mesma peça, outra com preto,
vermelho, azul e dourado, pulseiras verde com desenho de aranhas
branca e roxa, toda cor parece pouco para eles. E olha que entre o
azul, o verde e o amarelo não há distinção no nome da cor. Tudo é
“ngran, ngran”, ou seja, colorido.

Os vestidos são outra característica Kaiapó. Instituído talvez por
algum missionário há muitos anos atrás, não há nenhuma índia que não
utilize desde a adolescência. Mas se pensa que vai achar algum
pretinho básico, ou branco que combine com tudo, você se engana. O que
vale para os enfeites em termos de cor, vale para os vestidos.
Dificilmente eles são lisos, embora hajam alguns laranja, vermelhos e
amarelos. Listas não são o motivo mais freqüentes, mas desde que
combinem várias cores, também se encontram. O mais comum são motivos
coloridos: cachorrinhos, bichinhos infantis, tratores, brasões de
família, estrelas, bandeiras e, herança de alguma Copa passada,
bandeiras do Brasil e bolas de futebol. O tecido é daqueles que dura,
dura, dura… e por isso elas usam o mesmo vários dias, e mesmo
encardido. Um dia sim, o outro também. Deve facilitar, pois quando não
querem fazer alguma coisa podem mandar o vestido ir sozinho… Embora
eles estejam normalmente encardidos, devido a pintura de jenipapo e ao
carvão da cozinha, toda nira tem o seu vestido de festa. Este fica
guardado, mais bonitinho, e quando aparece uma oportunidade, como
posar para uma foto… lá surgem eles! E para tirar fotos elas
escolhem os melhores vestidos e se pintam. A maioria das mulheres na
verdade não gosta nem de tirar foto sem pintura. Assim como algumas
mulheres em nossa sociedade não gostam de fotos sem maquiagem, elas
também não gostam de fotos sem a delas… só que esta é feita com
jenipapo e dura alguns dias.

Beijos a todos e até mês que vem.

Altamiro

Fotos: Observação – Nenhuma destas fotos foi tirada em dia de festa.
São fotos tiradas durante o meu trabalho e que mostram que realmente
os Kaiapó são índios fashion!
1 – Eu atendendo em Kokraimoro – Eu também estou de padjê. Notem
quantas cores… e quantas miçangas no adereço do tronco da menina.

2 – Menina comendo uxi em Gorotire. Olhe o brincão… que também é
enfeitado. Ela estava brincando no quintal de casa, e era a única
criança enfeitada. O desenho no rosto é lindo, e a cabeça está com o
corte típico, além das sombrancelhas e cílios arrancados.


3 – Enfermeira Jucelaine em Kriny. O menino está cheio de miçangas e
usa o enfeite no queixo.

4 – Enfermeira Inácia pesando Cacique Moty em Kôkôkuedjá. Escreve
assim mesmo, com três acentos…

5 – Listas emagrecem… Meninas de Gorotire que foram pedir uma foto,
com muitas cores

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1 comentário Adicione o seu

  1. Sam disse:

    Muito interessante! É simplesmente uma viagem, a cultura, os costumes,os modos. Tudo muito legal.

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